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Vista cansada aos 20

15 Abr

É comum ouvir pessoas de 40 ou 50 anos dizerem que têm a vista cansada.
Esse mal óptico é facilmente corrigível pela adequada prótese ocular, e por isso no momento oportuno puxam de uns óculos maravilhosos, que os ajudam a ver o que precisam, quer seja um jogo de palavras cruzadas ou um casaquinho de malha (sim, são estas as grandes ocupações desta geração).

Contudo, bem mais alarmante que essa natural fraqueza ocular, é a vista cansada que nada tem que ver com retinas e demais. Estamos a falar da própria forma como se vê as coisas. Estamos a falar de um olhar cansado: que já não se espanta, que já não se entusiasma, que já não tem esperança. E há quem o tenha desde os 20 anos.
É um olhar desapontado com a realidade: Eu já vivi muito… Eu sei como as pessoas são… Já sei tudo o que preciso saber. Já nada me surpreende…
inesperado
É um olhar que perdeu 3 capacidades:
1. O espanto
O espanto é uma interrupção da realidade. É ser surpreendido por pequenos milagres. Milagres tão simples como sentir pele de galinha, ver uma lua cheia ou receber um abraço inesperado. O espanto é uma capacidade própria dos humildes e das crianças. É próprio de quem se deixa surpreender, próprio de quem não sabe tudo. O espanto é o começo do entusiasmo.

2. O entusiasmo
O entusiasmo é uma distorção da realidade. É pegar nela e puxá-la para cima. O entusiasmo põe os olhos a brilhar e faz-nos fazer loucuras. Mas loucuras absolutamente necessárias: ir dançar uma noite inteira depois de um dia de trabalho. Ver o nascer do sol. Mergulhar num mar gelado. Beijar a pessoa de quem se gosta. O espanto é o começo da esperança.

3. A esperança
A esperança é uma superação da realidade. É esperar sempre a coisa maior. É contra todas as evidências, confiar que a vida vai-se expandir em possibilidades nunca antes previstas ou imaginadas. A esperança nada tem que ver com o optimismo, esse copo meio cheio e meio tonto. Ela parte de razões muito mais fundas, que não vacilam mesmo nas dificuldades. Ela permanece, porque está assente na convicção inquebrável que independentemente do que aconteça pode sempre nascer uma coisa melhor das condições presentes.

No fundo, a vista cansada é deixar de se espantar, e por isso deixar de se entusiasmar, e por isso deixar de ter esperança. É perder a capacidade de brincar com a realidade: deixar a reinventar, sonhar e construir. É deixar de se surpreender.

Mas pode uma pessoa ter uma vista cansada e recuperar o seu olhar?
Pode, mas dá trabalho. É preciso deixar tudo o que cansa o olhar: horizontes sem perspectiva, relações sem amor, acções sem sentido.
Mas não basta isso… é preciso descansar o olhar em coisas que valem a pena. Reparar e parar no que anima e no que entusiasma. Acreditar e voltar a acreditar nas coisas pequeninas e nas coisas grandes. Agradecer tudo o que há e tudo o que não há.

E assim aos poucos, podemos recuperar um olhar que se surpreende. Um olhar fresco e um olhar descansado.
Um olhar que ao chegar aos 50 anos até se vai rir… quando reparar nas palavras cruzadas ou no casaquinho de malha que tem ao colo.

Não basta ser. É preciso parecer

31 Mar

Ligar às aparências é uma coisa tonta.
Não devemos perder tempo com isso. Devemos fazer o que queremos, sem pensar no que os outros vão achar.
O que interessa é o que cada um sente e pensa, e pouco importa o que os outros vêem nisso.

Isto faria todo o sentido… caso cada um de nós vivesse isolado numa ilha. Uma ilha com areia branca e mar azul turquesa, de preferência. Aí seria mais fácil fazer tudo o que nos desse na gana, porque cada acção teria impacto apenas em nós (e em meia dúzia de palmeiras).
Mas isso não acontece.

O que acontece é que vivemos em sociedade e somos frutos de um contexto. Ninguém nasceu sozinho, ninguém se educou sozinho, ninguém cresceu sozinho. Vivemos numa dependência mútua e neste sentido, cada comportamento nosso tem uma consequência social. Ignorar que as nossas palavras, acções e decisões afectam quem nos rodeia seria uma ingenuidade.

Há um ditado que diz à mulher de César não basta sê-lo, é preciso parecê-lo.
Precisamente porque vivemos em sociedade, não importa apenas o que somos, mas também o que parecemos.
inesperado.org_não basta ser.
É preciso por isso encontrar uma forma de equilibrar o que somos e o que parecemos, sem nos vendermos pelo meio. Para atingir este equilíbrio, entre a aparência e a essência, ajuda evitar 2 extremos:
1. Viver em função do que os outros pensam.
Há quem viva com uma preocupação exagerada pelo que os outros vão achar. Mais dedicado a tentar impressionar do que em ser quem realmente é. Quem vive assim nada lhe satisfaz, porque é impossível corresponder ao que tantas pessoas diferentes pensam. Quem vive em função do que os outros acham, perde-se a si pelo caminho. Contudo, há outro extremo…

2. Não ter em conta o que os outros pensam.
Desprezar inteiramente o que os outros pensam pressupõe que os outros não servem para grande coisa, sendo que a única que realmente interessa… somos nós.
Normalmente não temos em conta o que os outros pensam ou por ingenuidade ou por arrogância. Ingenuidade quando partimos do pressuposto que toda a gente vai perceber ou confiar em nós. Arrogância quando achamos que os outros têm obrigação de perceber as nossas intenções e acções.

Há ainda uma outra desconsideração pela opinião dos outros, disfarçada por uma suposta frontalidade: Faço tudo o que penso, não me interessa o que vão pensar de mim, sou muito frontal.
Não, não és. És como uma criança que não filtra. Experimenta estar numa reunião no trabalho e dizer quero fazer cocó…
Há uma “frontalidade” que é apenas uma bravata exibicionista que nada tem de inteligente ou construtivo.

Há por isso um equilíbrio dinâmico a encontrar, entre estes dois extremos. Hoje pode fazer sentido tomar uma decisão sem levar a sério outras opiniões, mas amanhã pode fazer sentido pensar seriamente no que os outros acham. O equilíbrio passa por ter em conta o que os outros pensam, sem estar dependente disso.

O nosso comportamento deve mostrar o que somos. A nossa aparência deve manifestar a nossa essência. O exterior deve expressar o interior.
Temos que ter em conta que há implicações muito complexas de viver em sociedade. Mas é muito mais interessante viver num mundo em que estamos interligados – com todas as aparências e com todas as confusões que isso implica – do que num mundo em que cada um está isolado e só pensa em si.

As aparências servem então para aparecer, não para parecer. Servem para revelar, não para velar.
Não basta ser, é preciso parecer. E ainda bem que assim é.

Podes gostar de mim sff?

25 Mar

O que nos faz gostar de uma música?
O que nos faz gostar de um livro, de um sítio, de uma comida?

É difícil dizer o que é. Podemos tentar mergulhar na nossa infância, pensar na influência dos pais, reflectir em experiências marcantes, mas nunca percebemos inteiramente o porquê. Simplesmente gostamos.

Ao mesmo tempo que gostamos de algumas coisas, também não gostamos de todas as coisas.
Não se gosta de todos os livros, não se gosta de todos os sítios, não se gosta de todas as músicas. Há sempre algum que preferimos. E para quem diz “Ah, eu gosto de todos os tipos de música”, basta fechar essa pessoa numa cave durante 2 horas a dar punk gótico aos berros, para ver quem gosta de tudo.

Há por isso coisas que gostamos mais, e outras de que não gostamos. Isso é natural. Isso não nos causa confusão. Contudo, é curioso ver como isto muda quando falamos de pessoas.

Há quem sinta uma aflição quando percebe que não gosta de alguém. Isto porque achamos que a coisa mais natural é gostar espontâneamente de toda a gente, e quando isso não acontece, sentimos que alguma coisa está errada. Mas não está.

Tal como não gostamos de todos os tipos de literatura, não gostamos de todas as pessoas. Não temos que nos preocupar com isso. E não temos que nos preocupar porque não gostar de uma pessoa não quer dizer tratá-la mal. Podemos não gostar de alguém e tratá-la bem na mesma. Aliás, isso é um alívio especial no mundo do trabalho: não precisamos de gostar de toda a gente (nem do chefe chato, nem da Sónia da contabilidade). Mas isto não quer dizer que não sejamos bons profissionais.

Na realidade, o mundo ficaria a perder se apenas tratássemos bem as pessoas que gostam de nós. Curiosamente, na maior parte das vezes, as pessoas mais difícieis de gostar são as pessoas que mais precisam.
inesperado.org - gostar de mim sff
Contudo, o oposto também acontece. Há pessoas que não gostam de nós. Não é preciso serem pessoas com a mania da conspiração. Simplesmente não gostam de nós, com a mesma naturalidade com que não gostam de puré de batata.

Há quem fique verdadeiramente incomodado quando percebe isso… ainda para mais porque puré de batata não é assim tão desagradável. O que normalmente acontece é tentar agradar a todo o custo à outra pessoa – quase implorando que goste de nós – ou ficar tremendamente indignado com o facto de não sermos gostados… Como é que eu, ser humano magnífico, não tenho a adulação desta pessoa! Ahhh escândalo!

Mas nada feito. Apesar de todos os esforços ou irritações, o outro simplesmente não gosta de nós. O que podemos então fazer?
A resposta é simples: devemos ficar muito agradecidos.

Se formos o que é suposto sermos – com toda a autenticidade e radicalidade que isso implica – vamos necessariamente chocar com outras pessoas. Vamos ser diferentes do que elas gostariam que fôssemos. Vamos ter visões diferentes do mundo e vamos fazer escolhas diferentes.

E isso é motivo para estarmos agradecidos. Não só porque a diversidade é uma riqueza, mas porque é uma coisa terrível ser alguém de quem toda a gente gosta. Porque para isso acontecer é preciso estar sempre a mudar para agradar a toda a gente. É preciso ter 100 máscaras diferentes. É preciso deixar de ser autêntico e passar a ser um personagem inventado. Personagem que por ser inventado não consegue ser feliz.

Da próxima vez que não gostarmos de alguém, da próxima vez que alguém não gostar de nós… não nos vamos preocupar.
Vamos antes ficar agradecidos… tanto que certamente haverá alguém que gosta de puré de batata.

Estão a conspirar contra ti

18 Fev

inesperado.org - estão a conspirar
Se haver pessoas que conspiram contra outras faz confusão, então se conspirarem contra nós ainda mais perturbador é. Por vezes temos aquela sensação que alguém não gosta mesmo de nós… e que deve estar a fazer alguma coisa contra nós. Não é necessário um enredo maquiavélico, às vezes basta um comentário desagradável, uma crítica ou um olhar, para acharmos que a principal ocupação daquela pessoa é arruinar a nossa vida.

É maravilhosamente tentador achar que o mundo está a conspirar contra nós, porque assim temos a possibilidade de representar 3 papéis que adoramos: Continuar a ler

O combate do herói vilão

11 Fev

inesperado.org_os heróisQuem não gosta de um bom épico?
Uma aventura grandiosa em que os heróis combatem os vilões, para devolver a paz e harmonia ao universo? Quem não gosta de ver um herói muito herói a derrotar um vilão muito vilão? É uma maravilha! São as histórias mais fáceis de serem gostadas, especialmente porque os bons ganham sempre e acabam com a miúda mais gira do planeta.

O único probema destas lutas épicas é que a realidade não é nada assim. Não há heróis nem há vilões, ainda para mais tão arrumadinhos e penteadinhos.
Mas nós gostamos tanto dessa ideia que achamos que a vida é assim: as pessoas ou são óptimas ou são terríveis. Ou ele tem razão ou não tem. Ou escolho este lado ou aquele. Vivemos numa dicotomia, em que temos que optar lados, fazer juízos e decretar quem é o herói e quem é o vilão.

Afinal, como é possível aquela pessoa gostar de mim e tratar-me mal? Como é que ele é tão bom e depois faz aquele disparate? E como é que ela é arrogante mas depois é tão querida? Continuar a ler

As 20 coisas que eles não nos disseram

4 Fev

Um dia fomos crianças adoráveis com pele macia e bochechas redondas. Um dia fomos jovens com amigos, estudos e férias intermináveis.
Um dia fomos adultos e não estávamos nada preparados para isso. Dava jeito que os crescidos nos tivessem preparado para algumas coisas que íamos encontrar, porque assim talvez a vida fosse mais fácil. Aqui fica uma lista de 20 coisas – pouco ou muito importantes – que eles não nos disseram:

1. Trabalhar dá trabalho. Estudar dá trabalho. Fazer uma coisa bem feita dá trabalho.

2. É estúpido tentar agradar a toda a gente. É impossível forçar alguém a gostar de nós, muito menos com frases feitas e poses estudadas.

3. É impossível não errar. Sempre que fazemos uma coisa nova, vamos começar por fazê-la mal.

4. Pôr dentes debaixo da almofada não dá dinheiro. O dinheiro custa a ganhar – ainda mais do que perder dentes – mas desaparece num instante.

5. Ter medo é normal. Não há problema em sentir medo, desde que façamos o que temos a fazer, apesar do medo. Continuar a ler

As vacas não dão sumo

21 Jan

inesperado.org- vacas e laranjasAs vacas dão leite, as laranjas dão sumo de laranja. Estas 2 ideias parecem simples, mas não são. Aliás, um dos nossos grandes dramas é baralhar as duas.

O drama vai passando despercebido, até ao momento em que desejamos um sumo de laranja.
E o que seria razoável fazer quando queremos suminho? O razoável seria ir às laranjas. Mas não! O que fazemos é ir ter com a vaca e dizer: Passa para cá o suminho! Ao que ela responde: Muuuuh.
Não queremos dar parte fraca, mas ficamos cada vez mais irritados. É um desplante o raio da vaca não nos dar o suminho que queremos! E ela diz: Muuuh. Enquanto não tivermos o que queremos, não saímos dali, nem que a vaca tussa. E realmente a vaca não tosse, e responde apenas: Muuuuh. Continuar a ler

A alergia ao compromisso

31 Dez

alergia ao compromisso
Apesar de não ser agradável ter alergias…acabamos sempre por apanhá-las. Uma das mais notáveis que temos desenvolvido é a alergia a compromissos. Quer seja com uma pessoa, um trabalho ou um projecto, ficamos com comichão só de pensar nisso. Achamos que estamos bem melhor se não assumirmos nenhum compromisso.

Para não perder nada e manter todas as hipóteses em aberto temos sempre um pé na porta, não vão as coisas correr mal… Ironicamente, ao viver assim, estamos realmente comprometidos… em não nos comprometermos com nada.

Parte desta relutância em nos comprometermos vem da ideia que o compromisso é uma prisão. Achamos que é uma coisa que nos vai tirar liberdade e nos vai amarrar a coisas que não sabemos se queremos.

Será possível assumir algum compromisso? Não perdemos a liberdade? Não ficamos amarrados a coisas que não temos a certeza? Continuar a ler

Tu não és especial

17 Dez

Apesar dos miminhos que recebeste dos teus pais, apesar de teres amigos que se riem das tuas piadas e apesar de já teres passado por muita coisa… não caias em ilusões: tu não és especial.
Não és especial porque andaste naquela universidade ou tens aquele trabalho. Não és especial porque tens boa aparência ou porque há alguém que gosta de ti.

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Vais ficar sozinho. E isso é bestial

12 Nov

Gastamos muita energia para tentar garantir que não ficamos sozinhos. Queremos ter a certeza que vai lá estar sempre alguém para nos compreender e animar. O que faria todo o sentido, não fosse um pequeno pormenor: isso é impossível.

Quer seja durante 1 hora ou 1 década, vamos ficar sozinhos. O problema não é esse. O problema é o que significa ficar sozinho na nossa cabeça.

Estar sozinho assusta porque sugere que vamos ficar desamparados. Como se ninguém se preocupasse connosco. Fazemos muitas coisas para não nos sentirmos assim: começar uma relação sem futuro, comprar um cão, passar horas na internet, ou culpar outros…mas nada disso vai ao fundo da questão.

Na realidade o que nos assusta não é uma coisa exterior a nós. O que nos assusta somos nós. É o que vamos pensar e sentir quando estivermos apenas connosco. Se não estamos com ninguém, estamos condenados a passar tempo connosco. E como muitas vezes não gostamos de nós próprios… fazemos tudo para não estar sozinhos.

Ficar sozinho pode ser uma coisa bestial, precisamente porque nos força a estar bem connosco. Essa aprendizagem – por muito longa ou dolorosa que possa parecer – não tem comparação com a liberdade, força e coragem que vamos ganhar.
Quem evita estar sozinho vive sempre em medo. Tem medo do pode vir a acontecer e de como se vai sentir. E caso tenha alguém, vai estar sempre com medo de perder essa pessoa. Por outro lado quem está bem consigo, está bem com toda a gente: saber estar a sós consigo mesmo, muda a forma como se está com qualquer pessoa.

Vais ficar sozinho

Estar sozinho, mesmo quando gostariamos de estar acompanhados, não tem que ser um drama.
Querias estar a ver filmes com a pessoa de quem gostas, e não estás. So what?
Querias ter companhia a dar um passeio ou almoçar fora, e não tens. So what?
Querias poder falar do teu dia e como te estás a sentir, e não podes. So what?

Basta de dramas. O que fazemos com o tempo que nos é dado? Lamentamos-nos do que não temos e como ninguém nos compreende, ou fazemos alguma coisa em relação a isso?

Os problemas enfrentam-se, não se evitam. Temos que aprender a viver a nossa vida, sozinhos. Não porque não podemos confiar em ninguém, ou porque o mundo é mau, mas porque mais ninguém o vai fazer por nós. Há coisas que vamos sempre viver sozinhos quer seja porque naquele momento não há ninguém, ou porque não podemos falar, ou simplesmente porque não adianta nada partilhar.

Claro que ninguém quer estar sempre sozinho, nem sentir-se abandonado. Mas nos momentos em que ficamos a sós connosco, ou os aproveitamos ou não. Seguramente já experimentámos momentos em que estamos sozinhos e estamos óptimos. Momentos em que vivemos o que temos e aproveitamos isso ao máximo. Viver assim é uma escolha nossa: se ninguém cuida de nós, então cuidamos nós.

Só uma coisa é garantida: vamos ficar sozinhos. E isso vai ser bestial.