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8 Jan

Ele estava na festa com um copo de sangria na mão. Ria-se, a música jazz ao fundo estava a saber bem, e as pessoas tinham uma luz quente na cara. Conversas de raspão: “Estás boa Maria?” ; “Já disse ao Pedro para te ligar, não está esquecido…” ; “Sim, o ano foi óptimo, agora é aguentar…”

Mas entre as conversas e as idas do copo frio da sangria à boca, só um pensamento na cabeça dele: “Posso estar a perder alguma coisa.

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Dinheiro I

16 Out

Ela nunca teve tanto dinheiro.

Sempre foi poupada, mas nunca tinha tido tanto dinheiro na conta do banco como agora. Era uma sensação estranha.
Durante anos teve uma disciplina firme nos seus gastos: cereais marca branca, meias do supermercado (não das brancas), transportes públicos, levar o almoço de casa, usar roupa das primas mais velhas, férias dentro do país, shampôo de litro e meio e exercício físico ao ar livre.

Ela tinha um certo gozo nesse controlo. Porque cada vez que escolhia prescindir de alguma coisa, sentia que estava a ganhar segurança. Porque verdade seja dita, teve anos com a corda no pescoço, sempre aflita na ultima semana do mês, a pedir pequenos empréstimos aos amigos. E esse sufoco roubava-lhe liberdade.

Queria-se sentir mais segura. Aguentar uns tempos sem grandes problemas de dinheiro. Poder levar uma vida confortável. Agora sim, tinha conseguido, e abria-se uma vida nova:

Massagens ao fim de semana.
Smartphone.
Roupa de marca.
Jantares em sítios in.
Umas jóias.
Viagens nas férias.
Carro novo.

Ao mesmo tempo que pensava nisto, sentia-se mais insegura. Começou a ver que cada uma destas coisas era uma despesa séria. Que já tinha acumulado bastante, mas que não queria perder tudo. Com a segurança do que tinha juntado, cresceu a insegurança de o perder. Quanto mais juntou, mais medo tinha de perder. 

Ela tinha consciência que ainda era um peixinho (dos laranjas), ao pé dos tubarões. Tinha ainda tão pouco. Tinha que ter mais, tinha que ter tanto como os grandes. Ainda não podia ir a hotéis de 5 estrelas, nem férias nas Caraíbas, nem ter o novo modelo de mala da Gucci, nem aqueles brincos novos, nem o último Smartphone.
Tinha que continuar a juntar dinheiro, para depois poder ter toda a liberdade de fazer o que quisesse.

Apesar de nunca ter tido tanto dinheiro, ela nunca se sentiu com tão pouco.

Os sapatos e a Maria

10 Jul

Sim sim sim sim! É isto, é isto! Tem que ser e é já!

– Olá boa tarde, queria levar aqueles sapatos de pele branca que estão na montra…
– Estes?
– Exacto, esses.
– Qual o seu número?
– É o 41.
– Quer provar?
– Sim.

Bestial, estão-me óptimos! 

– São estes sapatos. Queria pagar com multibanco…
– Verde código verde.
– Feito! Obrigado e boa tarde!

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Odeio esperar

3 Jul

Ele estava em pé, à espera de ser atendido.
Odeio esperar. E hoje deixei o telemóvel em casa por isso nem me posso entreter.
Tanta coisa para fazer e eu aqui parado. Raça de coisa.
Mas também quem é que diz “raça de coisa”? És um bocado ridiculo.

E riu-se. Estas conversas interiores eram cada vez mais comuns. Saíam-lhe sem querer algumas gargalhadas só por se aperceber dos pensamentos ridículos que tinha. E isso fazia-o sentir-se bem. Mesmo quando alguém olhava para ele com ar assustado. Aliás isso até o fazia rir mais, porque sempre gostou de momentos estranhos. Awkward como diziam alguns.
Como no outro dia quando ia a falar a um conhecido na rua, e não sabia se parava ou se continuava a andar,e ficou num misto de falar ola-tudo-bem-como-estas-por-aqui? enquanto o cumprimentava, mas continuando a andar. O outro muito formal a querer falar já virado de frente. Mas agora já não se podia virar para falar com ele porque já estava muito afastado. Seria ainda pior voltar atrás. Ficou só a rir-se sem responder grande coisa e o outro ficou meio agarrado, meio nervoso, a querer falar. O melhor mesmo, foi quando o outro desistiu de falar e virou-se de repente para chocar com um homem enorme todo tatuado. Mais risos nervosos a olhar para o chão. Delicioso e constrangedor. Continuar a ler