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Produtivo como um calão

27 Maio

Ninguém gosta de ser chamado preguiçoso.
Ninguém gosta de ser considerado um calão que não faz nada do que devia.

Passamos décadas a ouvir dizer que temos que estudar, que temos que trabalhar, que temos que fazer coisas. O que até faz sentido, porque ficar na cama não paga aquelas facturas em cima da secretária.

No trabalho ensinam-nos a ser produtivos resolvendo muitos problemas e fazendo muitas coisas. E isso faz sentido. Se pelo contrário não fizermos nada, então oferecem-nos um par de patins e um empurrão encosta abaixo. O que também faz sentido.

Mas o problema é quando começamos a achar que tudo na vida são problemas para resolver, e que somos uns inúteis se não estivermos sempre a produzir.
Já não basta ter que fazer aquelas tarefas habituais – pagar facturas, tratar da casa, ir às compras – como tudo o que há para fazer se torna uma tarefa. A vida fica reduzida a uma to do list:
Jantar com a família. Check
Ir beber uma cerveja com um amigo. Check
Ir ao cinema ver aquele filme. Check
Fazer desporto. Check
Ler um bom romance. Check

Enchemos a vida de coisas que em si são óptimas, mas fazemo-las pelas razões erradas E no fim, sentimos apenas um vazio.
Parece que em nós há alguma coisa sempre inquieta, que se alimenta de problemas, e não pára de nos chatear se não estamos a fazer coisas. É aquela comichãozinha que sentimos se chegamos a casa e não fazemos nada de útil. Se passamos o fim de semana sem fazer algum programa fantástico, se andamos 10 minutos a pé sem fazer um telefonema.
inesperado.org produtivo como um calao
Tudo se torna num problema a ser resolvido, numa tarefa a ser feita. Nada nos descansa, nada nos basta. Como dar a volta a isto?
Talvez a resposta esteja na forma como um calão faz as coisas (ou deixa de as fazer). Vamos ver:

O calão vê divertimento, não vê chatices.
O calão encara a vida de uma forma radicalmente diferente: Ele está aqui para desfrutar e para se divertir. Tudo é uma festa, tudo é um divertimento.O que vier depois, resolve-se depois, agora é para curtir.

O calão está tranquilo.
Ele não se pre-ocupa com os problemas que irá ter. Ele está tranquilo como o esquilo. Na boa como a meloa. Ele ri-se dos problemas e anda sereno porque não fica minimamente aflito com o que não controla. O agora é para aproveitar, e se no futuro surgirem contratempos, então no futuro vão-se resolver.

O calão vive bem cada tempo.
O calão não divide a vida em tempos mortos e tempos úteis. Ele sabe que se não tiver tempo morto, acaba ele morto. O calão é especialista em tarefas inúteis. Em coisas que não dão retorno imediato. Fica horas a contemplar um quadro. Passeia sem destino pelas ruas da cidade. Fica noites a conversar com os amigos.

O calão desenrasca-se quando é preciso.
O calão sabe que às vezes não há volta a dar. Que é preciso trabalhar duro e resolver um problema. Mas ele sabe que na hora da verdade, ele fará o que é preciso. Terá a criatividade para resolver o que vier, terá a força para suportar o que acontecer e terá ainda o humor para fazê-lo com alegria.

O calão sabe o que vale.
Ele não precisa de fazer muitas coisas para achar que tem valor. Não precisa de resolver muitos problemas para ser importante ou para achar que é útil. Ele sabe o que vale, independentemente do que faz.

Com certeza que ao longo da vida teremos muitas tarefas pela frente, muitos problemas para resolver e muitas coisas para fazer, mas na altura em que dermos por nós demasiado preocupados com a produtividade… mais vale escolher ser produtivo como um calão.

É possível viver por alguém?

8 Abr

É possível viver por alguém?
É possível dedicar a vida a alguém, especialmente quando esse alguém não somos nós?

E será possível dedicar a nossa vida a alguém, se antes alguém não tiver dedicado a sua vida a nós? Ou ainda, é possível dar alguma coisa que não tenhamos recebido?

Se repararmos, é surpreendente a quantidade de coisas que gastamos connosco. O dinheiro que gastamos, as energias que gastamos, o tempo que gastamos. Tempo dedicado às nossas coisas, às nossas actividades, às nossas vontades. Se alguém nos tira tempo que era suposto ser para nós, é bom que nem nos apareça à frente.

As coisas acabam por girar apenas em nossa função: os nossos horários, os nossos tempos livres, os nossos programas, as nossas preocupações, os nossos problemas. O trabalho serve para nos dar dinheiro, as férias para nos darem descanso, as relações para nos darem amor. Parece que olhamos apenas para nós e não reparamos sequer em quem está ao nosso lado.
inesperado.org - dedicação
Vivemos assim com uma vontade permanente de nos conservarmos. Somos, sem o notarmos, realmente conservadores (de nós próprios). Ninguém se quer entregar demasiado a outra coisa que não seja a si mesmo. Ninguém se quer apagar para que o outro brilhe. Ninguém se quer sacrificar demasiado por outra pessoa.

Mas novamente, será possível o inverso? É possível viver por alguém que não nós próprios? É possível que alguém prescinda do seu tempo, para que o outro fique melhor? Que alguém se apague, para que o outro tenha luz?

Na realidade é bem possível… não é por acaso que as mães dão à luz. Os pais entregam a sua vida para que os filhos vivam uma vida melhor. Se alguém prescindiu do seu tempo, foram os pais… Quantas mais viagens podiam ter feito? Quantas mais coisas podiam ter comprado? Quantas mais pessoas podiam ter conhecido? A quantas mais festas podiam ter ido? Mas deixaram tudo isso de lado, para que nós estivéssemos aqui. Agora mesmo.

Se alguém já lucrou com a vida entregue de outra pessoa…
fomos nós.

Neste sentido, temos muito a agradecer, e muito também a dar.
As boas notícias é que não nos faltam formas de dar: podemos dar o nosso tempo, o nosso dinheiro, a nossa energia. E também não faltam pessoas a quem entregar a nossa vida. Não tem que ser apenas às famílias, aos pais e aos filhos. Não poderá ser a pessoa a quem nos dedicamos um amigo? Um desconhecido? Um cliente?
Porque não entregamos a nossa vida às pessoas que naturalmente fazem parte do nosso dia?

Quando tentamos guardar a vida apenas para nós, parece que a perdemos. Quando a damos a alguém, parece que a ganhamos. E talvez não seja só o que parece. Talvez seja assim mesmo.
Mas só há uma forma de descobrir: tornar este o dia em que vamos viver dedicados a outra pessoa.

Minha querida disciplina

11 Mar

inesperado.org_ disciplinaO que nos vem à cabeça quando pensamos em disciplina? Será que pensamos em sacrifício, em limitação, em chatice? Ou pelo contrário, pensamos em liberdade e em amor?
Tendemos a pensar na disciplina como uma coisa antiquada que tira o gozo da vida. Que elimina a espontaneidade e a naturalidade de fazer as coisas como gostamos. Mas será que a disciplina pode ser uma libertação? Pode ser um um caminho para o amor? Continuar a ler

Como a vida melhora quando começares a matar

10 Dez

O nosso dia está cheio de distracções e actividades. Os nossos olhinhos dançam entre anúncios, neons e ecrãs, e a nossa vida vive meio refém de uma agenda sobrelotada com programas imprescindíveis. Procuramos dar resposta a uma chuva de possibilidades e corremos freneticamente para cumprir compromissos.

Queremos dar vazão a uma montanha de actividades, e pelo caminho garantir que todos ficam a gostar de nós. Acontece que isto é particularmente idiota: ao querer estar em todas as actividades percebemos que não estamos inteiros em nenhuma.
Estamos no jantar da prima a pensar na estreia do filme que vamos ver, no filme estamos a pensar na despedida de solteiro, e na despedida de solteiro a pensar… bem, na despedida não pensamos em grande coisa.

Ao querer ser tudo para toda a gente, acabamos por ser nada para ninguém.

A realidade é que não conseguimos corresponder a todos os pedidos e solicitações. O tempo não estica, tal como um cobertor não estica. Se puxarmos muito de um lado, ficamos com os pezinhos de fora, deixando sempre algum lado com mais frio. O que interessa é perceber qual o lado que importa manter quente.

matador

Sendo assim, qual o nosso papel no meio de tantas ocupações e distracções?
O nosso papel é sermos matadores. Sim, o nosso papel é matar.
Matar tudo o que está a mais, sem qualquer piedade. Matar todas as actividades que não são essenciais, matar tudo o que ocupa tempo e espaço que não podemos ceder. Caso não o façamos, todas essas actividades e distracções vão invadir as poucas coisas essenciais da nossa vida que não podemos prescindir. Apenas matando o que está a mais é que conseguimos deixar viver as coisas que realmente importam.

Temos que ser irrepreensíveis na matança porque as distracções, os convites e as ninharias, nunca vão parar de chegar. E se não nos está a custar matar várias actividades interessantes, então é porque estamos a deixar ficar viva demasiada treta.

Para cada sim que damos, temos que dar 10 nãos. É difícil dizer um não, mas é a única forma de conseguir dizer um sim convincente. Não às horas perdidas a fazer coisas que não interessam a ninguém, não à energia gasta a tentar impressionar os outros, não ao tempo investido em coisas desnecessárias. Sim às ideias que valem a pena, às relações que interessam, ao trabalho que importa.

Teremos sempre a liberdade de escolher o que fazer com o nosso tempo, mas se queremos aproveitá-lo bem e investir no essencial, vamos ter que tomar uma decisão: ou matamos ou não matamos.
Podem tentar manter as aparências… mas por aqui preferimos a matança.

Consumir ou não consumir?

16 Set

Um dos nossos defeitos de fabrico é a necessidade de consumir coisas.

Consumir roupas, acessórios, livros, gadjets, telemóveis e por aí fora.
Coisas que nem sempre precisamos, mas que normalmente deixam a carteira com frio.
Como saber então que consumir ou não consumir? Como evitar comprar tralha desnecessária? Como evitar aquela sensação de termos gasto mais dinheiro do que podíamos?

Apesar da ideia que aí vem ser desagradável para quem está com aquele impulso maroto de fazer uma compra nova… o melhor é esperar.

A sério, fechar a carteirinha, dar meia volta e ir para casa. (sim, para te consolares podes ver uma série no sofá)

Há várias boas razões para esperar, especialmente em compras que envolvem algum dinheiro:

1. Esperar faz o desejo aumentar.
Esperar ajuda a preparar-nos para o que desejamos. Podemos informar-nos bem sobre o que queremos comprar, e ter a certeza que é realmente uma boa compra. Dá muito mais gozo estudar bem o que queremos, fazer uma encomenda e esperar que chegue, do que passar numa loja e comprar logo à bruta o que nos apetece.
2. Poupar é melhor que usar crédito.
Por vezes para satisfazer uma necessidade de consumo, usamos crédito para termos logo o que queremos. O problema  é que ao usar crédito satisfazemos a necessidade imediatamente, mas ainda não a pagámos. Ficamos a pagar em maravilhosas suaves prestações, que duram bem mais do que o tempo que gozamos o que comprámos. Se esperarmos, temos tempo de poupar, e depois usar dinheiro que temos, sem precisar de pedir crédito.
3. Despistar para não ser despistado.
Se sentimos aquela necessidade matadora de consumir, podemos despistá-la com outras compras que nos “saciem”, mas que saem mais baratuxas. Comprar uma comida boa para nos mimar, um disco novo, coisas mais em conta. Talvez nos apercebamos que queríamos apenas um miminho e assim não nos despistámos com nenhuma extravagância.
inesperado.org - consumir ou nao consumir 17.9.13

Os economistas adoram dizer que temos necessidades ilimitadas, e recursos limitados. E têm razão. Por isso, para os nossos escassos recursos e necessidades ilimitadas, temos que saber fazer melhores escolhas.

E para isso ajuda não só esperar como fazer algumas perguntas antes de consumir:

Preciso realmente disto? Quanto tempo me vai durar?  Em média quantas vezes por semana vou usar isto?  Isto serve para outras pessoas ou só para mim?

Bem melhor que o alívio de satisfazer uma necessidade imediata de consumo, é a satisfação de saber esperar e comprar uma coisa que realmente queremos.

Dinheiro III

30 Out

Sábado à noite:
– Podes-me emprestar dinheiro para o jantar? Eh pá não trouxe. Desculpa, depois transfiro-te, ok?
– Ok, sem problema, depois envio-te o NIB
Passados 3 dias e enviado o NIB: 
Nada feito.
Passadas 2 semanas e já feito o reminder: 
” Que lata.Este gajo é sempre a mesma coisa.”
Passado um mês: 
“Sempre disse que não se pode confiar nele.”
Passados 2 meses:
“Se o vir nem lhe falo.”

Ora bem, acontece que o dinheiro pode alterar a relação entre as pessoas. Nesta história, o desgraçado do amigo pode apenas ter-se esquecido de devolver o dinheiro, ou nunca ir ao email. Nada por mal, mas a fúria acumulou do outro lado.
Ou mesmo que tenha sido propositado o não pagar – porque andava apertado de dinheiro e queria ver se passava em branco – o mais interessante é ver como isso alterou a relação entre os 2.

O dinheiro tem essa capacidade de distorcer a relação entre as pessoas. 

Não é por acaso que tantos irmãos e famílias se chateiam quando chega a hora das partilhas. Estava tudo ok, entra dinheiro na fotografia e começam as discussões.
Por vezes nem é preciso muito dinheiro. Bastam aqueles 3 euros para imperiais que disseste que pagavas.

Imagino que o dinheiro mexe tanto com a relação entre as pessoas por várias razões:
1. Conceito de justiça: se eu te emprestei, é justo que me devolvas. Mesmo sendo pouco dinheiro. Havendo pessoas muito sensíveis a questões de justiça, pode-se tocar aqui numa corda que as faz trepar paredes.

2. Sobrevivência: há pessoas que andam mesmo aflitas. Sem o conforto financeiro que precisam para sentirem que têm controlo das suas vidas e escolhas. Se entra aqui uma herança dividida, a coisa pode aquecer. Mesmo que sejas meu irmão.

3. Gula: já estou bem mas ainda insatisfeito. Quero mais dinheirinho, ele nunca me basta. Já estou cheio mas ainda vai mais uma perninha de frango. Se tenho um apartamento posso sempre ter mais um. E um carro a acompanhar não vai mal. A fome pode ser insaciável porque estamos a procurar no sítio que não a satisfaz.

4. Confiança: tenho que saber que gostas mais de mim do que do dinheiro. Tenho que poder confiar em ti. E se gostas mais do dinheiro que de mim, não sei se posso.

E não é o dinheiro em si que gera estas situações. É a reacção que ele causa em nós. O dinheiro em si não é bom nem é mau, pode ser utilizado de diferentes formas. Não é ele que nos afasta. Somos nós que não sabemos lidar com ele de forma fixe.

(Cena do filme Wall Street, do qual já falámos aqui, em que o que afastou este casal foi a falta de confiança entre eles, por causa do dinheiro)

Mas vamos focar-nos agora no que podemos fazer para o que o dinheiro não destrua relações que temos:

PRIORIDADES
É mais importante herdar mais uma cómoda ou chatear-me com a minha irmã? Sem rodeios, é bom que esta pergunta tenha uma resposta à altura. Mesmo que não seja uma cómoda.
HONESTIDADE
Se me emprestaram dinheiro, devo devolvê-lo. Mesmo que eu seja um relaxado com as questões do dinheiro o outro pode não ser e levar isso muito a peito. Mesmo que eu pague sempre jantares aos meus amigos, quem me pagou este – porque eu cravei – pode não achar graça nenhuma.
TRANSPARÊNCIA
“Desculpa lá falar-te disto Pedro, mas está-me a fazer falta aquele dinheiro que te emprestei, podes-me transferir? Não quero que isso seja uma questão na nossa amizade.”
“Meus queridos primos, estamos aqui para falar da divisão da herança. Quero que saibam que sou muito sensível a estas questões do dinheiro porque andamos aflitos cá em casa. Quero por isso que as coisas se resolvam da forma mais transparente possível, e não quero que ninguém se chateie com ninguém.”

E como estas haverá tantas outras ideias que nos inspiram a cuidar das nossas relações. Sobretudo gosto da ideia de deixar as regras do jogo muito claras à partida, para todos sabermos com o que contamos. Devemos ser prudentes quando estamos a falar das verdinhas, e perceber que  elas mexem com muitas sensibilidades diferentes.

Mas se o dinheiro é capaz de afastar as pessoas, também não será capaz de as aproximar?

Dinheiro II

23 Out

Há uma cena célebre no filme “Wall Street” de 2010, em que o personagem principal diz ao seu genro, depois de lhe roubar milhões de euros: “You see kid, there’s one thing you never understood. It’s not about the money. It’s about the game between people.

O mítico Gordon Gekko (Michael Douglas) com o seu fato milionário, o cabelo perfeitamente cortado, e num luxuoso escritório de Londres vai ao coração da coisa.


Se perguntássemos na rua a qualquer pessoa se ela queria um milhão de euros, toda a gente diria que sim. Mas ninguém quer um milhão de papeis com desenhos de monumentos que ninguém conhece.
As pessoas querem um milhão de euros, não pelo papel em si, mas pelo que representa para elas. Pelo que pode trazer.
Não é acerca da mansão gigante que posso comprar. É o que ela diz acerca de mim, e de como posso ser visto pelos outros.

“It’s about the game between the people”
Ou seja, o dinheiro traz consigo aceitação, admiração, reconhecimento, prestigio. Os olhares de tanta gente, os comentários, os elogios, a forma como isso me faz sentir. O acesso a sítios exclusivos, as simpatias e as portas abertas facilmente.
Todo o entusiasmo com o dinheiro vem de alguma forma de relação com pessoas.

E daí o dinheiro ser tão viciante: brinca com dinâmicas interiores grandes demais para serem pegadas à primeira. Não estamos a falar de uma vaca bravia que meia duzia de forcados pegam. Estamos a falar de um toiro mexicano de 600 quilos. Neste caso, o toiro é a aceitação dos outros, o reconhecimento, a segurança. O gostarem de nós. Tudo coisas que passamos a vida a lutar para ter. E o dinheirinho mexe muito com essas coisas todas.

“It’s about the game between the people”
A não ser que sejamos das poucas pessoas do mundo que vivem a partir de trocas…mais tarde ou mais cedo vamos ter dinheiro na carteira, e perceber como isso mexe connosco. E como isso altera a relação com as pessoas que nos rodeiam, e o que fazemos da vida.

O que dá pica é que isto de saber lidar com o dinheiro vai levar tempo. As responsabilidades ao longo da vida variam, por vezes estamos confortáveis, outras vezes com filhos para cuidar… Independentemente, o dinheiro está cá para ficar, e o que no final vai fazer a diferença é a forma como lidamos connosco mesmos. Porque no fundo nada disto tem a ver com dinheiro. É tudo acerca das pessoas.

Dinheiro I

16 Out

Ela nunca teve tanto dinheiro.

Sempre foi poupada, mas nunca tinha tido tanto dinheiro na conta do banco como agora. Era uma sensação estranha.
Durante anos teve uma disciplina firme nos seus gastos: cereais marca branca, meias do supermercado (não das brancas), transportes públicos, levar o almoço de casa, usar roupa das primas mais velhas, férias dentro do país, shampôo de litro e meio e exercício físico ao ar livre.

Ela tinha um certo gozo nesse controlo. Porque cada vez que escolhia prescindir de alguma coisa, sentia que estava a ganhar segurança. Porque verdade seja dita, teve anos com a corda no pescoço, sempre aflita na ultima semana do mês, a pedir pequenos empréstimos aos amigos. E esse sufoco roubava-lhe liberdade.

Queria-se sentir mais segura. Aguentar uns tempos sem grandes problemas de dinheiro. Poder levar uma vida confortável. Agora sim, tinha conseguido, e abria-se uma vida nova:

Massagens ao fim de semana.
Smartphone.
Roupa de marca.
Jantares em sítios in.
Umas jóias.
Viagens nas férias.
Carro novo.

Ao mesmo tempo que pensava nisto, sentia-se mais insegura. Começou a ver que cada uma destas coisas era uma despesa séria. Que já tinha acumulado bastante, mas que não queria perder tudo. Com a segurança do que tinha juntado, cresceu a insegurança de o perder. Quanto mais juntou, mais medo tinha de perder. 

Ela tinha consciência que ainda era um peixinho (dos laranjas), ao pé dos tubarões. Tinha ainda tão pouco. Tinha que ter mais, tinha que ter tanto como os grandes. Ainda não podia ir a hotéis de 5 estrelas, nem férias nas Caraíbas, nem ter o novo modelo de mala da Gucci, nem aqueles brincos novos, nem o último Smartphone.
Tinha que continuar a juntar dinheiro, para depois poder ter toda a liberdade de fazer o que quisesse.

Apesar de nunca ter tido tanto dinheiro, ela nunca se sentiu com tão pouco.

Coitadinho do crocodilo e as marcas de roupa

10 Abr

No outro dia estava frio. E por baixo do casaco e da camisola, tinha vestido um polo da Lacoste.
Dei por mim a pensar: “Olha que raio, uma marca com tanto prestígio, e eu nem a mostro?
Ainda pensei em tirar as camadas de cima, para ficar com o pequeno crocodilo à mostra, espalhando sorrisos para os lados, mas preferi não apanhar a pneumónica.

Isto fez-me lembrar aquela anedota:

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