É possível viver por alguém?

8 Abr

É possível viver por alguém?
É possível dedicar a vida a alguém, especialmente quando esse alguém não somos nós?

E será possível dedicar a nossa vida a alguém, se antes alguém não tiver dedicado a sua vida a nós? Ou ainda, é possível dar alguma coisa que não tenhamos recebido?

Se repararmos, é surpreendente a quantidade de coisas que gastamos connosco. O dinheiro que gastamos, as energias que gastamos, o tempo que gastamos. Tempo dedicado às nossas coisas, às nossas actividades, às nossas vontades. Se alguém nos tira tempo que era suposto ser para nós, é bom que nem nos apareça à frente.

As coisas acabam por girar apenas em nossa função: os nossos horários, os nossos tempos livres, os nossos programas, as nossas preocupações, os nossos problemas. O trabalho serve para nos dar dinheiro, as férias para nos darem descanso, as relações para nos darem amor. Parece que olhamos apenas para nós e não reparamos sequer em quem está ao nosso lado.
inesperado.org - dedicação
Vivemos assim com uma vontade permanente de nos conservarmos. Somos, sem o notarmos, realmente conservadores (de nós próprios). Ninguém se quer entregar demasiado a outra coisa que não seja a si mesmo. Ninguém se quer apagar para que o outro brilhe. Ninguém se quer sacrificar demasiado por outra pessoa.

Mas novamente, será possível o inverso? É possível viver por alguém que não nós próprios? É possível que alguém prescinda do seu tempo, para que o outro fique melhor? Que alguém se apague, para que o outro tenha luz?

Na realidade é bem possível… não é por acaso que as mães dão à luz. Os pais entregam a sua vida para que os filhos vivam uma vida melhor. Se alguém prescindiu do seu tempo, foram os pais… Quantas mais viagens podiam ter feito? Quantas mais coisas podiam ter comprado? Quantas mais pessoas podiam ter conhecido? A quantas mais festas podiam ter ido? Mas deixaram tudo isso de lado, para que nós estivéssemos aqui. Agora mesmo.

Se alguém já lucrou com a vida entregue de outra pessoa…
fomos nós.

Neste sentido, temos muito a agradecer, e muito também a dar.
As boas notícias é que não nos faltam formas de dar: podemos dar o nosso tempo, o nosso dinheiro, a nossa energia. E também não faltam pessoas a quem entregar a nossa vida. Não tem que ser apenas às famílias, aos pais e aos filhos. Não poderá ser a pessoa a quem nos dedicamos um amigo? Um desconhecido? Um cliente?
Porque não entregamos a nossa vida às pessoas que naturalmente fazem parte do nosso dia?

Quando tentamos guardar a vida apenas para nós, parece que a perdemos. Quando a damos a alguém, parece que a ganhamos. E talvez não seja só o que parece. Talvez seja assim mesmo.
Mas só há uma forma de descobrir: tornar este o dia em que vamos viver dedicados a outra pessoa.

8 Respostas to “É possível viver por alguém?”

  1. dcfc 12 de Abril de 2014 às 14:03 #

    Reblogged this on A Idade do Céu.

  2. maria mundo 8 de Abril de 2014 às 13:43 #

    LINDA, LINDA, esta reflexão! “Quando tentamos guardar a vida apenas para nós, parece que a perdemos.” A empatia é algo que a usar nos permite, além de nos ajudar a entender melhor o “outro”, a caminhar de mãos dadas com “ele”. Obrigada por mais esta reflexão. É sempre bom termos consciência o quanto por vezes caminhamos pela vida sofrendo de um certo autismo. Abraço

  3. Lipton 8 de Abril de 2014 às 11:37 #

    Muito bom texto, cheio de grandes verdades.
    Acho que se olharmos bem ao nosso redor, temos vários exemplos de pessoas que vivem pelas outras, e nem sempre pais a fazer sacrifícios pelos filhos (no entanto, isso é o que se calhar conseguimos evocar melhor). Mas também o inverso, perante uma doença, num determinado momento ou para a vida, filhos que viram os seus mundos para dar aos seus entes maior conforto e qualidade de vida.
    Se nos referirmos a relações amorosas/amizade aí é mais difícil. Cada vez menos as pessoas procuram outra pessoa para dividir uma vida, uma história conjunta, mas antes para ter alguém que possa admirar a sua própria vida, que possa estar lá sempre para ela, nos bons e momentos, alguém que faça sacrifícios por ela… mas não reparam que do outro lado também está uma pessoa, alguém que necessita de ser amado, acarinhado. Contudo, quando questionadas ou confrontadas com o pouco interesse que às vezes demonstram no parceiro/a a visão não é clara e evocam momentos ou atitudes mais que implícitas, mas que na realidade são atitudes banais e, por vezes, ambíguas. Medo de se entregarem? De serem tocados pelos sentimentos do outro? Tudo isso depois mexe connosco, para que quero eu saber do que o outro/a pensa ou sente (apesar de perguntar, mas até a pergunta é retórica… não se espera uma resposta honesta)? Quando me fartar ou quando começar a cobrar muito do meu tempo, arranjo outro/a. Vivemos numa altura em que é mais fácil sair de uma “relação” e ir para outra, do que trabalha-la. “Já discuti 3 vezes com esta pessoa… não é para mim, eu quero alguém que não me dê chatices, pois a minha vida já tem muitas, vou acabar isto”. Narcisismo puro e duro, demonstrada pela frase tão usada “me, myself and i”.
    No entanto tudo tem a sua excepção, conheço várias pessoas que inclusive põem os outros em 1º lugar (o que também é errado), e o que elas sofrem com isso. Encontrar alguém assim e (essencialmente) podermos ser assim com alguém, é a melhor experiência emocional que podemos ter na vida. É a simbiose perfeita, e como a perfeição não existe… o que vemos muitas vezes são homens que andam a mando de mulheres e não tem qualquer tipo de poder de decisão na vida, e vice-versa claro.

    • maria mundo 8 de Abril de 2014 às 13:46 #

      Também gostei da sua reflexão. Obrigada.
      Apesar de tudo, e pegando de empréstimo o que alguém já disse, sejamos a mudança que queremos ver no mundo. Que aqueles que nos “desiludem” nos sirvam de inspiração para agirmos exatamente de forma inversa à deles. Abraço

      • Lipton 8 de Abril de 2014 às 13:57 #

        Muito obrigado pelas palavras.
        Concordo com o que disse, e adiciono: apesar da nossa tendência natural ser, quando magoados, colocar muralhas à nossa volta, impedir pessoas de entrarem e até muita vez, repetirmos com outras pessoas, coisas de que fomos alvo (respostas naturais do ser humano), é importante, embora não fácil, mantermos nos fiéis aos nossos princípios e valores.E, principalmente, sabermos o nosso valor enquanto pessoas e não nos contentarmos com o pouco amor/amizade de que fomos alvo. Seguindo o exemplo da Maria mundo, terminando citando “quando descobrirmos o nosso valor, fica difícil de aceitar migalhas”.

        • maria mundo 8 de Abril de 2014 às 14:35 #

          Pois… posso dizer uma coisa? Ok, então vou dizer:
          UAU! É tão bom quando encontramos pessoas nas quais nos vimos espelhados!!!
          Que mais há a dizer? Apenas que continue com essa sua forma de sentir o mundo e ponha em prática esse seu sentir.
          Abraço do tamanho do MUNDO!

          • Lipton 8 de Abril de 2014 às 14:48 #

            Pode dizer tudo o que quiser!
            Pois, vai-se tentando por em prática… obviamente que a cada facada que vamos levando vai sendo mais difícil continuar a andar para a frente, mas espera-se que se encontre alguém que consiga, e queira (!), fazer os curativos.
            Abraço

    • maria mundo 8 de Abril de 2014 às 14:55 #

      Oh meu caro amigo/a, consigo intuir que foi alvo de “facadas”, mas também quem não o foi?! Aliás, e o que vou dizer não se trata de nenhum cliché mas antes da realidade, os nossos melhores mestres são aqueles que nos fazem bater com a cabeça na parede, dar murros na mesa, and so on :) Pois são eles que nos permitem refletir sobre o que vai “mal” em nós para atrairmos assim pessoas.
      Quando fazemos esse trabalho interno então, com toda a certeza, não atraímos esse tipo de pessoas pois estaremos noutra frequência.
      Have a nice day e NUNCA DEIXE DE SORRIR PARA A VIDA PARA QUE TAMBÉM ELA LHE POSSA SORRIR :)

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