Podes gostar de mim sff?

25 Mar

O que nos faz gostar de uma música?
O que nos faz gostar de um livro, de um sítio, de uma comida?

É difícil dizer o que é. Podemos tentar mergulhar na nossa infância, pensar na influência dos pais, reflectir em experiências marcantes, mas nunca percebemos inteiramente o porquê. Simplesmente gostamos.

Ao mesmo tempo que gostamos de algumas coisas, também não gostamos de todas as coisas.
Não se gosta de todos os livros, não se gosta de todos os sítios, não se gosta de todas as músicas. Há sempre algum que preferimos. E para quem diz “Ah, eu gosto de todos os tipos de música”, basta fechar essa pessoa numa cave durante 2 horas a dar punk gótico aos berros, para ver quem gosta de tudo.

Há por isso coisas que gostamos mais, e outras de que não gostamos. Isso é natural. Isso não nos causa confusão. Contudo, é curioso ver como isto muda quando falamos de pessoas.

Há quem sinta uma aflição quando percebe que não gosta de alguém. Isto porque achamos que a coisa mais natural é gostar espontâneamente de toda a gente, e quando isso não acontece, sentimos que alguma coisa está errada. Mas não está.

Tal como não gostamos de todos os tipos de literatura, não gostamos de todas as pessoas. Não temos que nos preocupar com isso. E não temos que nos preocupar porque não gostar de uma pessoa não quer dizer tratá-la mal. Podemos não gostar de alguém e tratá-la bem na mesma. Aliás, isso é um alívio especial no mundo do trabalho: não precisamos de gostar de toda a gente (nem do chefe chato, nem da Sónia da contabilidade). Mas isto não quer dizer que não sejamos bons profissionais.

Na realidade, o mundo ficaria a perder se apenas tratássemos bem as pessoas que gostam de nós. Curiosamente, na maior parte das vezes, as pessoas mais difícieis de gostar são as pessoas que mais precisam.
inesperado.org - gostar de mim sff
Contudo, o oposto também acontece. Há pessoas que não gostam de nós. Não é preciso serem pessoas com a mania da conspiração. Simplesmente não gostam de nós, com a mesma naturalidade com que não gostam de puré de batata.

Há quem fique verdadeiramente incomodado quando percebe isso… ainda para mais porque puré de batata não é assim tão desagradável. O que normalmente acontece é tentar agradar a todo o custo à outra pessoa – quase implorando que goste de nós – ou ficar tremendamente indignado com o facto de não sermos gostados… Como é que eu, ser humano magnífico, não tenho a adulação desta pessoa! Ahhh escândalo!

Mas nada feito. Apesar de todos os esforços ou irritações, o outro simplesmente não gosta de nós. O que podemos então fazer?
A resposta é simples: devemos ficar muito agradecidos.

Se formos o que é suposto sermos – com toda a autenticidade e radicalidade que isso implica – vamos necessariamente chocar com outras pessoas. Vamos ser diferentes do que elas gostariam que fôssemos. Vamos ter visões diferentes do mundo e vamos fazer escolhas diferentes.

E isso é motivo para estarmos agradecidos. Não só porque a diversidade é uma riqueza, mas porque é uma coisa terrível ser alguém de quem toda a gente gosta. Porque para isso acontecer é preciso estar sempre a mudar para agradar a toda a gente. É preciso ter 100 máscaras diferentes. É preciso deixar de ser autêntico e passar a ser um personagem inventado. Personagem que por ser inventado não consegue ser feliz.

Da próxima vez que não gostarmos de alguém, da próxima vez que alguém não gostar de nós… não nos vamos preocupar.
Vamos antes ficar agradecidos… tanto que certamente haverá alguém que gosta de puré de batata.

10 Respostas to “Podes gostar de mim sff?”

  1. Anónimo 26 de Março de 2014 às 20:08 #

    eu gosto de puré de batata!

    • Cat 27 de Março de 2014 às 15:57 #

      eu tb gosto de puré de batata! com almôndegas!!!

  2. Anónimo 25 de Março de 2014 às 23:25 #

    Bom texto!
    Acho que agora a questão que surge, no seguimento do que foi dito, é: Como saber quem é que nós realmente somos? Ou seja, será que não gosto MESMO de puré de batata ou só assim é porque toda a gente me diz que é mau? Será que não gosto MESMO de “punk gótico aos berros”, ou na verdade é a cena mais fixe de sempre, e digo que não gosto porque é censurado pelos meus amigos todos?

    Como nos defini-mos a nós próprios? E será assim tão fácil definir, para uma vida inteira, a minha pessoa? “Eu não gosto de laranjas, é uma cena minha, nunca vou gostar”. Quem sabe que daqui a uns anos a minha ideia sobre o sabor da laranja vai mudar?

    Escrevo isto só para chamar a atenção de que a definição de uma pessoa é mais complicada do que pode parecer, e que não devemos ficar tão “agarrados” aos ideais que fomos criando ou que foram implementados nas nossas cabeças. A melhor maneira penso que é ouvir pensamentos, ideias, afirmações e negações de amigos, familiares ou desconhecidos, com sentido crítico MAS NÃO “censurador” logo à partida, porque o mais provável é estarmos errados!!

    E penso também que a perfeita definição pessoal nunca é atingida (até porque ninguém é perfeito!), vamos é percebendo com a idade e a experiência quem é que cada um de nós realmente é…

    (PS: Não, não sou um fã de punk gótico aos berros!)

  3. Ana 25 de Março de 2014 às 16:01 #

    Loved it! Como sempre, como sempre sempre. Ana Ulrich

  4. Cristina Soares 25 de Março de 2014 às 14:39 #

    Amo a vossa escrita.
    Para alguém como eu, que tem na leitura e escrita, uma presença assídua e delas retiro momentos de prazer (às vezes mais, outras vezes menos – em concordância com o post de hoje); sinceramente, tiro-vos o chapéu!
    Numa linguagem simples e percetível, mas bastante correta e cuidada, dão “voz” e registo às emoções e pensamentos que todos nós, estamos sujeitos a experimentar, uma e outra vez.
    Parabéns! Mesmo!
    Uma seguidora atenta…

  5. maria 25 de Março de 2014 às 11:23 #

    Ora nem mais “Da próxima vez que não gostarmos de alguém, da próxima vez que alguém não gostar de nós… não nos vamos preocupar.”
    Sermos autenticos é algo que tem o seu preço, mas o não o sermos tem um preço muitíssimo mais alto – a nossa integridade. Pegando de empréstimo o que alguém já disse e adaptando a este contexto, diria que se não gostarmos de alguém pelo menos não lhe façamos mal/prejudiquemos. É que gostar ou não gostar é algo que nos assiste a todos. Já o prejudicar alguém baseado nesse sentir não deixa de ser diabólico.
    Obrigada por mais esta reflexão.

  6. Anónimo 25 de Março de 2014 às 1:08 #

    mais uma vez gostei! texto fresco e estimulante.

  7. Anónimo 25 de Março de 2014 às 1:07 #

    As pessoas não são para serem gostadas, são para serem amadas e só o facto de não se partir desta premissa tudo se explica. Pensem nisto ;)

    • Anónimo 25 de Março de 2014 às 10:16 #

      É bom ler-vos. Obg:) :)

      • Teresa Afonso 26 de Março de 2014 às 13:19 #

        Estou a tomar conhecimento destas “doses semanais de esperança” e agradeço sinceramente a uma amiga que me fez o grande favor de me enviar este “Podes gostar de mim sff?” Não foi gostar apenas, foi algo que me deixou a pensar e me fez questionar sobre a realidade de como é “saudável” e não “doença” o facto de chocarmos com algumas pessoas ao longo das nossas vidas! A frontalidade acarreta esses sentimentos pela parte dos outros! Sim, podíamos ignorar, ficar calados mas isso seria contrariar, no caso, aquilo que eu mais admiro numa pessoa …o ser genuína, a franqueza, a coragem de dizer o que pensa sem a tal “hipocrisia”! Isso é que eu considero amizade e que na maioria das situações é interpretado como “falta de sensibilidade”, “crueldade” etc.! NÃO! A minha experiência da vida permite-me dizer que, mais cedo ou mais tarde, pode ser esse o ponto de partida para uma amizade sólida! As relacções humanas são muito complexas todos sabemos! Mas são um enorme desafio para todos nós e que encaro com muita alegria todos os dias! Gostei muito deste belo momento de leitura e estarei atenta todas as semanas! Obrigado!
        Teresa Afonso

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