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As armadilhas dos consensos

3 Jun

Todos os dias recebemos uma dose generosa de coisas para fazer. Coisas como organizar a loiça numa prateleira, preparar um documento no trabalho ou escolher onde se vai passar férias. Muitas vezes são coisas que dependem apenas de nós, outras vezes são coisas que têm que ser decididas em conjunto.
Acontece que é muito comum querer gerar um consenso no que fazemos.
No caso de ser uma decisão a tomar sozinhos, queremos garantir que o que quer que escolhamos – os sapatos que vamos comprar, a viagem que vamos fazer, ou a mudança de carreira que queremos fazer – tem a aprovação de toda a gente. No caso de ser uma decisão conjunta, queremos garantir que toda a gente está alinhada e acha que certo caminho é o melhor.

Acontece que gerar um consenso, isto é, ter a concordância da maioria das pessoas, apesar de aparentar ser a decisão mais madura, mais democrática e mais equilibrada, pode esconder várias armadilhas. Vamos ver quais são e como evitá-las:

Armadilha 1: Querer que toda a gente pense como nós.
Muitas vezes temos a pretensão de achar que o mundo seria extraordinariamente melhor se toda a gente pensasse como nós. Por isso procuramos gerar consensos, mas que no fundo sejam à nossa maneira. Há certos tipos de consenso que mais se parecem com ditaduras, porque se está a forçar outras pessoas a pensar como nós.
Sobre o pretexto de gerar consensos começa-se assim a praticar uma violência permanente e silenciosa: manipular as coisas e as pessoas para que concordem com a nossa opinião. Mas acontece que o que não nos agrada tem direito a existir. Uma opinião diferente da nossa tem também direito a vingar.
O objectivo não pode ser persuadir – com mais ou menos força – toda a gente a pensar, ou a fazer como nós, mas antes ver como em conjunto podemos chegar a um entendimento mais profundo e a uma decisão mais justa. Num verdadeiro consenso é necessário estar disposto a abdicar de coisas que gostaríamos, para juntos, ganharmos mais.
É como se fosse andar de trotinete a 3, temos que estar alinhados para não nos espatifarmos.
armadilha do consenso
Armadilha 2: Agradar a toda a gente.
Há muitas pessoas que escolhem o caminho do consenso pela simples razão de querer agradar a toda a gente. Acontece que não só isso é tolo como é impossível.
Por exemplo, se no trabalho a definir um projecto quisermos agradar a toda a gente, estamos seguramente a garantir que o que vai sair dali é um Frankenstein que acabará por não agradar a ninguém. Em certos contextos é necessário assumir uma liderança e defender uma posição, mesmo que outras pessoas não concordem. Um pai não pode querer sempre agradar ao filho. Ora tomemos um pai que pergunta ao filho:
– Querido, o que gostavas de ter como presente nos anos?
– Pai, gostava de ter uma motoserra para brincar com os meus amigos.
– Isso não vai acontecer, ( e depois explica calmamente) porque gasta muita gasolina, ainda aleija alguém e limpar o sangue da alcatifa é uma chatice.

Armadilha 3: Pedir opiniões sem as ouvir.
Ao criar consensos gostamos de pedir opinião a outras pessoas. Mas isto de nada serve se não houver uma capacidade real de influenciar a decisão final. Consideremos um casal que está a pensar onde irá passar férias:
– Querida, onde gostavas de ir passar férias este ano?
– Gostava mesmo de ir apanhar sol para as Maldivas.
– Ah que boa ideia, mas já comprei bilhetes e vamos fazer um safari para o Quénia. Excelente não é?

Mais vale nem sequer pedir opinião se ela não for levada a sério. As pessoas sentem-se enganadas e manipuladas.
Mas isto não quer dizer que nunca se deva pedir opiniões. Há vezes em que a decisão já está tomada mas é saudável pedir opiniões, mas explicando isso com clareza: O orçamento para este projecto já está fechado, mas o que achas que poderíamos fazer diferente da próxima vez?

Haverá certamente mais armadilhas a evitar e mais coisas a dizer, mas a certo ponto é preferível fazer o que temos a fazer… e deixar de lado os consensos que tínhamos imaginado.

A importância dos conflitos

6 Maio

Todos os dias e a toda a hora acontecem todo o tipo de conflitos. Guerras, confrontos ou simples discussões tomam lugar entre desconhecidos e conhecidos. Entre amigos, colegas e casais.

Poderíamos idealizar um mundo sem conflitos, mas faríamos apenas isso: idealizar. Os conflitos – de maior ou menor escala – acontecem porque temos interesses diferentes. Eu quero isto assim, e tu queres de outra maneira. Esta divergência de interesses pode trazer stress, desconfiança ou ressentimento, mas também pode ajudar a ir ao fundo das coisas, a melhorar relações e aproximar pessoas.
Desta forma, o conflito em si não é uma coisa má, mas que pode ser bem ou mal usada.

Se repararmos só há conflitos onde há relações entre pessoas. Não vemos 2 objectos a discutir um com o outro. Olha a almofada a ter uma discussão com o sofá, que engraçado. Nem há conflitos entre pessoas e objectos: eu não tenho uma discussão com a minha televisão (apesar de cenas semelhantes terem lugar). Há sim conflitos entre pessoas.

Raramente um conflito nos deixa indiferentes porque mexe connosco e com a nossa autoestima. Sentimos que alguma parte de nós está a ser posta em causa, e isso é incómodo. Se não tiver a ver connosco, não há problema: ninguém se chateia tremendamente se alguém não gosta de um filme que gostámos. Mas se alguém não gosta de nós, aí temos chatice.
inesperado.org - os conflitos
Ora bem, para compreender melhor os conflitos, podemos dramatizar dois tipos de pessoas:
1. Os que fogem do conflito
É extraordinário ver o que estas pessoas estão dispostas a fazer para evitar um conflito: fogem de cena quando sentem a tensão a subir ou pedem desculpa mesmo quando têm razão. Evitam o confronto a qualquer custo (mesmo a um custo superior ao do próprio conflito). Isto pode acontecer por uma mistura de motivações. Tanto pode ser por insegurança esta pessoa vai deixar de gostar de mim ou tenho medo que me ataquem; como por orgulho: tenho razão e nem estou para me explicar a esta pessoa, ela que perceba. De qualquer forma estas pessoas são altamente cuidadosas nos conflitos em que se envolvem, e têm uma esperança ingénua que alguns problemas se resolvam sozinhos.

2. Os que procuram o conflito
Pelo contrário, há pessoas que se alimentam de conflitos. São pessoas que retiram energia e motivação dos conflitos e que se agigantam perante um confronto. Pessoas que conseguem tirar algo positivo – um sentido de certeza, energia e satisfação – de um confronto. Daí haver casalinhos que adoram discutir e chefes que adoram gritar. É comum as pessoas que gostam de conflitos serem pessoas que gostam mais de falar do que ouvir. Estas pessoas metem-se na arena antes sequer de avaliar as consequências. Acham que nada se resolve se elas não entrarem em acção.

Mas na realidade nenhum destes dois tipos de pessoa é inteiramente eficaz a lidar com os conflitos. De facto, cada um dos tipos tem a aprender com o outro. Os que fogem do conflito têm que arranjar formas inteligentes de tirar gozo e motivação de um conflito, bem como perceber que por vezes é melhor pegar um toiro pelos cornos do que fugir dele (porque o toiro vai acabar por voltar ainda mais enfurecido). Pelo contrário, os que procuram o conflito a todo o custo têm que aprender a ser prudentes e cuidadosos, bem como a saber ouvir o outro lado e evitar confrontos desnecessários.

Apesar de tudo, há conflitos que por uma razão ou outra são insanáveis. Em que os interesses não são conciliáveis. E não há problema com isso, desde que as pessoas sejam sempre tratadas com cuidado e respeito. Contudo, a maior parte dos conflitos podem ser resolvidos eficazmente, se os diferentes interesses forem comunicados de forma clara. E para isso pode ajudar:
1. Criar empatia
Ser capaz de sentir o que o outro sente. Desenvolver para isso uma escuta activa, pôr-se no lugar do outro e escutar com cuidado quais os seus interesses e como os podemos servir.
2. Atacar ideias, não pessoas
É importante criar um espaço seguro onde as ideias possam ser brutalmente atacadas, mas nunca as pessoas. Assim, torna-se possível criar o hábito de criticar livremente as ideias, mas sem julgar as pessoas.
3. Ser assertivo
Em vez de comunicar de forma agressiva, atacando a outra pessoa, ou por outro lado, ser passivo, não comunicando nada, podemos escolher antes a assertividade. Dizer o que se tem a dizer com frontalidade mas também com elegância.
Tudo isto ajuda se soubermos mostrar o nosso ponto de vista sem atacar ninguém. É diferente dizer “és uma louca obsessiva que não me pára de me controlar” do que “percebo que queiras saber por onde ando querida… mas sinto-me pressionado quando me perguntas demasiadas vezes. O que podemos fazer para resolver isto?”

Naturalmente cada conflito resolve-se de forma diferente, porque cada relação é diferente. Resolver um conflito num namoro é diferente de resolver um conflito no trabalho. Mas temos uma hipótese maior de resolver bem cada conflito se reaprendermos a empatia, a capacidade de distinguir ideias de pessoas e a assertividade.
Desta forma o conflito deixa de ser uma ameaça a procurar ou a evitar a todo o custo, mas antes uma oportunidade de crescimento conjunto.

É possível viver por alguém?

8 Abr

É possível viver por alguém?
É possível dedicar a vida a alguém, especialmente quando esse alguém não somos nós?

E será possível dedicar a nossa vida a alguém, se antes alguém não tiver dedicado a sua vida a nós? Ou ainda, é possível dar alguma coisa que não tenhamos recebido?

Se repararmos, é surpreendente a quantidade de coisas que gastamos connosco. O dinheiro que gastamos, as energias que gastamos, o tempo que gastamos. Tempo dedicado às nossas coisas, às nossas actividades, às nossas vontades. Se alguém nos tira tempo que era suposto ser para nós, é bom que nem nos apareça à frente.

As coisas acabam por girar apenas em nossa função: os nossos horários, os nossos tempos livres, os nossos programas, as nossas preocupações, os nossos problemas. O trabalho serve para nos dar dinheiro, as férias para nos darem descanso, as relações para nos darem amor. Parece que olhamos apenas para nós e não reparamos sequer em quem está ao nosso lado.
inesperado.org - dedicação
Vivemos assim com uma vontade permanente de nos conservarmos. Somos, sem o notarmos, realmente conservadores (de nós próprios). Ninguém se quer entregar demasiado a outra coisa que não seja a si mesmo. Ninguém se quer apagar para que o outro brilhe. Ninguém se quer sacrificar demasiado por outra pessoa.

Mas novamente, será possível o inverso? É possível viver por alguém que não nós próprios? É possível que alguém prescinda do seu tempo, para que o outro fique melhor? Que alguém se apague, para que o outro tenha luz?

Na realidade é bem possível… não é por acaso que as mães dão à luz. Os pais entregam a sua vida para que os filhos vivam uma vida melhor. Se alguém prescindiu do seu tempo, foram os pais… Quantas mais viagens podiam ter feito? Quantas mais coisas podiam ter comprado? Quantas mais pessoas podiam ter conhecido? A quantas mais festas podiam ter ido? Mas deixaram tudo isso de lado, para que nós estivéssemos aqui. Agora mesmo.

Se alguém já lucrou com a vida entregue de outra pessoa…
fomos nós.

Neste sentido, temos muito a agradecer, e muito também a dar.
As boas notícias é que não nos faltam formas de dar: podemos dar o nosso tempo, o nosso dinheiro, a nossa energia. E também não faltam pessoas a quem entregar a nossa vida. Não tem que ser apenas às famílias, aos pais e aos filhos. Não poderá ser a pessoa a quem nos dedicamos um amigo? Um desconhecido? Um cliente?
Porque não entregamos a nossa vida às pessoas que naturalmente fazem parte do nosso dia?

Quando tentamos guardar a vida apenas para nós, parece que a perdemos. Quando a damos a alguém, parece que a ganhamos. E talvez não seja só o que parece. Talvez seja assim mesmo.
Mas só há uma forma de descobrir: tornar este o dia em que vamos viver dedicados a outra pessoa.

Não basta ser. É preciso parecer

31 Mar

Ligar às aparências é uma coisa tonta.
Não devemos perder tempo com isso. Devemos fazer o que queremos, sem pensar no que os outros vão achar.
O que interessa é o que cada um sente e pensa, e pouco importa o que os outros vêem nisso.

Isto faria todo o sentido… caso cada um de nós vivesse isolado numa ilha. Uma ilha com areia branca e mar azul turquesa, de preferência. Aí seria mais fácil fazer tudo o que nos desse na gana, porque cada acção teria impacto apenas em nós (e em meia dúzia de palmeiras).
Mas isso não acontece.

O que acontece é que vivemos em sociedade e somos frutos de um contexto. Ninguém nasceu sozinho, ninguém se educou sozinho, ninguém cresceu sozinho. Vivemos numa dependência mútua e neste sentido, cada comportamento nosso tem uma consequência social. Ignorar que as nossas palavras, acções e decisões afectam quem nos rodeia seria uma ingenuidade.

Há um ditado que diz à mulher de César não basta sê-lo, é preciso parecê-lo.
Precisamente porque vivemos em sociedade, não importa apenas o que somos, mas também o que parecemos.
inesperado.org_não basta ser.
É preciso por isso encontrar uma forma de equilibrar o que somos e o que parecemos, sem nos vendermos pelo meio. Para atingir este equilíbrio, entre a aparência e a essência, ajuda evitar 2 extremos:
1. Viver em função do que os outros pensam.
Há quem viva com uma preocupação exagerada pelo que os outros vão achar. Mais dedicado a tentar impressionar do que em ser quem realmente é. Quem vive assim nada lhe satisfaz, porque é impossível corresponder ao que tantas pessoas diferentes pensam. Quem vive em função do que os outros acham, perde-se a si pelo caminho. Contudo, há outro extremo…

2. Não ter em conta o que os outros pensam.
Desprezar inteiramente o que os outros pensam pressupõe que os outros não servem para grande coisa, sendo que a única que realmente interessa… somos nós.
Normalmente não temos em conta o que os outros pensam ou por ingenuidade ou por arrogância. Ingenuidade quando partimos do pressuposto que toda a gente vai perceber ou confiar em nós. Arrogância quando achamos que os outros têm obrigação de perceber as nossas intenções e acções.

Há ainda uma outra desconsideração pela opinião dos outros, disfarçada por uma suposta frontalidade: Faço tudo o que penso, não me interessa o que vão pensar de mim, sou muito frontal.
Não, não és. És como uma criança que não filtra. Experimenta estar numa reunião no trabalho e dizer quero fazer cocó…
Há uma “frontalidade” que é apenas uma bravata exibicionista que nada tem de inteligente ou construtivo.

Há por isso um equilíbrio dinâmico a encontrar, entre estes dois extremos. Hoje pode fazer sentido tomar uma decisão sem levar a sério outras opiniões, mas amanhã pode fazer sentido pensar seriamente no que os outros acham. O equilíbrio passa por ter em conta o que os outros pensam, sem estar dependente disso.

O nosso comportamento deve mostrar o que somos. A nossa aparência deve manifestar a nossa essência. O exterior deve expressar o interior.
Temos que ter em conta que há implicações muito complexas de viver em sociedade. Mas é muito mais interessante viver num mundo em que estamos interligados – com todas as aparências e com todas as confusões que isso implica – do que num mundo em que cada um está isolado e só pensa em si.

As aparências servem então para aparecer, não para parecer. Servem para revelar, não para velar.
Não basta ser, é preciso parecer. E ainda bem que assim é.

Podes gostar de mim sff?

25 Mar

O que nos faz gostar de uma música?
O que nos faz gostar de um livro, de um sítio, de uma comida?

É difícil dizer o que é. Podemos tentar mergulhar na nossa infância, pensar na influência dos pais, reflectir em experiências marcantes, mas nunca percebemos inteiramente o porquê. Simplesmente gostamos.

Ao mesmo tempo que gostamos de algumas coisas, também não gostamos de todas as coisas.
Não se gosta de todos os livros, não se gosta de todos os sítios, não se gosta de todas as músicas. Há sempre algum que preferimos. E para quem diz “Ah, eu gosto de todos os tipos de música”, basta fechar essa pessoa numa cave durante 2 horas a dar punk gótico aos berros, para ver quem gosta de tudo.

Há por isso coisas que gostamos mais, e outras de que não gostamos. Isso é natural. Isso não nos causa confusão. Contudo, é curioso ver como isto muda quando falamos de pessoas.

Há quem sinta uma aflição quando percebe que não gosta de alguém. Isto porque achamos que a coisa mais natural é gostar espontâneamente de toda a gente, e quando isso não acontece, sentimos que alguma coisa está errada. Mas não está.

Tal como não gostamos de todos os tipos de literatura, não gostamos de todas as pessoas. Não temos que nos preocupar com isso. E não temos que nos preocupar porque não gostar de uma pessoa não quer dizer tratá-la mal. Podemos não gostar de alguém e tratá-la bem na mesma. Aliás, isso é um alívio especial no mundo do trabalho: não precisamos de gostar de toda a gente (nem do chefe chato, nem da Sónia da contabilidade). Mas isto não quer dizer que não sejamos bons profissionais.

Na realidade, o mundo ficaria a perder se apenas tratássemos bem as pessoas que gostam de nós. Curiosamente, na maior parte das vezes, as pessoas mais difícieis de gostar são as pessoas que mais precisam.
inesperado.org - gostar de mim sff
Contudo, o oposto também acontece. Há pessoas que não gostam de nós. Não é preciso serem pessoas com a mania da conspiração. Simplesmente não gostam de nós, com a mesma naturalidade com que não gostam de puré de batata.

Há quem fique verdadeiramente incomodado quando percebe isso… ainda para mais porque puré de batata não é assim tão desagradável. O que normalmente acontece é tentar agradar a todo o custo à outra pessoa – quase implorando que goste de nós – ou ficar tremendamente indignado com o facto de não sermos gostados… Como é que eu, ser humano magnífico, não tenho a adulação desta pessoa! Ahhh escândalo!

Mas nada feito. Apesar de todos os esforços ou irritações, o outro simplesmente não gosta de nós. O que podemos então fazer?
A resposta é simples: devemos ficar muito agradecidos.

Se formos o que é suposto sermos – com toda a autenticidade e radicalidade que isso implica – vamos necessariamente chocar com outras pessoas. Vamos ser diferentes do que elas gostariam que fôssemos. Vamos ter visões diferentes do mundo e vamos fazer escolhas diferentes.

E isso é motivo para estarmos agradecidos. Não só porque a diversidade é uma riqueza, mas porque é uma coisa terrível ser alguém de quem toda a gente gosta. Porque para isso acontecer é preciso estar sempre a mudar para agradar a toda a gente. É preciso ter 100 máscaras diferentes. É preciso deixar de ser autêntico e passar a ser um personagem inventado. Personagem que por ser inventado não consegue ser feliz.

Da próxima vez que não gostarmos de alguém, da próxima vez que alguém não gostar de nós… não nos vamos preocupar.
Vamos antes ficar agradecidos… tanto que certamente haverá alguém que gosta de puré de batata.

Quem será que beija mais?

25 Fev

inesperado.org - beijar mais
Há quem ache que os casalinhos que gostam mais um do outro são os que dão mais beijinhos. Quem der mais abracinhos, quem disser mais não sei viver sem ti, quem der mais beijocas, é quem gosta mais do outro. Sem dúvida, miminhos são bons… Mas será que quem beija mais é quem ama mais?

Será que a mãe que ama mais o seu filho é a que lhe dá mais beijinhos? Então para ser a melhor mãe do mundo bastava não largar a bochecha gorda do pirralho…
Infelizmente as beijocas estão longe de ser a resposta completa para o amor que procuramos e precisamos. Com todo o respeito pela beijoca – que é sempre aprazível – mas ela está sobrevalorizada. O amor pede muito mais que beijocas…

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Estão a conspirar contra ti

18 Fev

inesperado.org - estão a conspirar
Se haver pessoas que conspiram contra outras faz confusão, então se conspirarem contra nós ainda mais perturbador é. Por vezes temos aquela sensação que alguém não gosta mesmo de nós… e que deve estar a fazer alguma coisa contra nós. Não é necessário um enredo maquiavélico, às vezes basta um comentário desagradável, uma crítica ou um olhar, para acharmos que a principal ocupação daquela pessoa é arruinar a nossa vida.

É maravilhosamente tentador achar que o mundo está a conspirar contra nós, porque assim temos a possibilidade de representar 3 papéis que adoramos: Continuar a ler

As vantagens e o veneno de perdoar

24 Dez

perdoarTodos temos razões para estar lixados com alguém.
Quer tenha sido alguma crítica, discussão, mentira ou traição, o mais provável é que todos tenhamos um portfolio de pessoas que nos magoaram e nos causaram dor. Ficamos ressentidos e sinceramente não nos apetece particularmente perdoar quem nos fez sofrer. Mas o que será que torna tão difícil perdoar quem nos magoou?

Muitas vezes achamos que ao perdoar estamos a deixar passar em branco uma injustiça. Estamos a deixar a outra pessoa sair incólume, mesmo quando nos causou tanto sofrimento. Contudo… que justiça é manter-nos agarrados à dor? Que espécie de castigo queremos infligir ao outro com a nossa intransigência?

Outras vezes, achamos que é preciso acontecer alguma coisa extraordinária para perdoar outra pessoa. É preciso alguma inspiração ou intuição caridosa para avançar. Mas mais vale puxar uma cadeirinha para nos sentarmos, porque tais impulsos altruístas demoram a chegar. Continuar a ler

Tenho mais que fazer do que gostar de ti

8 Out

Somos bichos sociais que gostam de receber festinhas. Nem nos importa se são festinhas dadas por amigos ou por estranhos.
Se nos fazem sentir que gostam de nós, então está tudo bem. Queremos passar uma boa imagem e queremos que gostem de nós. Faz parte do nosso fabrico.

Mas a parte engraçada – e perigosa – é quando começamos a representar um papel para gostarem de nós.
Quando diminuímos fraquezas e exaltamos qualidades para sermos bem vistos. Quando começamos a comprometer aquilo que somos e acreditamos para agradar aos outros. Quando nos vendemos a preço de feira.

Chegamos ao ponto de nos irritarmos se alguém não gosta de nós ou não nos trata bem. Achamos que o mundo nos deve uma espécie de consideração permanente pelo simples facto de existirmos.

Contudo, investir tempo a tentar que os outros gostem de nós é tolo por várias razões:
1. O que os outros gostam não está no nosso controlo.
Conseguimos forçar alguém a gostar de um quadro, de uma música ou de uma cidade? Hmm…é tramado. E se estivermos a falar de pessoas… é impossível. O que os outros decidem gostar não depende de nós.

fazer o que tu queres

2. As relações genuínas não têm teatros.
Nós não gostamos dos nossos amigos ou família pelo papel que representam. Não gostamos pelo que parecem ser, gostamos pelo que são. Gostamos pela sua autenticidade, por serem exactamente como são. As relações que mais valorizamos não têm representações.

3. Impressionar outros gasta muita energia.
Arranjamos todo o tipo de histórias para impressionar os outros. Gastamos horas preciosas a congeminar que perguntas fazer, que roupa usar, que frases dizer. Consumimos demasiado tempo e força a tentar convencer os outros, quando às vezes nem nós estamos convencidos…

Mas na realidade, as pessoas têm mais que fazer que gostar de nós. Têm mesmo. Cada pessoa tem uma vida cheia preocupações, desafios e alegrias. Todos vivemos vidas importantes. Demasiado importantes para perdermos tempo assim.

E se optássemos antes por ser autênticos em tudo o que fazemos?
E se usássemos a energia gasta a impressionar os outros para fazer alguma coisa extraordinária?
E se em vez de esperar que gostem de nós, começássemos a gostar dos outros?

Nunca vou ser o que tu queres.

10 Set
Gastamos muitos perdigotos e neurónios a tentar persuadir os outros a serem o que nós queríamos que eles fossem.
 

Apesar das nossas motivações – caprichosas ou altruístas – acabamos por ficar derrotados perante a nossa miserável capacidade de mudar os outros para o que queremos.

Quantos cabelos brancos ganhos para que os outros fossem diferentes! Pais, filhos, namorados, namoradas, patrões e empregados, tudo a querer mudar os outros.
Os filhos nunca têm exactamente os pais que querem. Os empregados nunca têm os patrões que querem. As namoradas não têm os namorados que querem, e os maridos  as mulheres que querem. Todos querem alguém ligeiramente diferente. Mais simpático, responsável, atento, paciente, interessado, interessante…
 
Contudo esta abordagem levanta alguns problemas:
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