Lamento, mas vou procurar a liberdade

4 Mar

inesperado.org - liberdadeNaquela tarde tomei uma decisão que ia mudar toda a minha vida. De agora em diante, ia apenas fazer o que me apetecia.

Largar as amarras das responsabilidades, dos deveres e das obrigações. Lutar por um ideal maior: a liberdade de poder escolher o que fazer. Poder determinar o futuro, poder decidir o meu rumo! Escolher o que me apetece, sem ninguém me dizer o que fazer. Tinha que viver essa liberdade! Haverá algo maior que a liberdade individual?

Os primeiros tempos foram inebriantes e as possibilidades infinitas. Como uma folha em branco, podia desenhar a minha vida na direcção e na cor que me apetecesse. Podia partir ou ficar. Fazer ou não fazer. Ir por aqui ou por ali. Mas mais importante é que a folha estava em branco e podia escolher o que me apetecesse.

Mas o que fazer em primeiro lugar?
Com tantas possibilidades, torna-se difícil escolher. Mas como os desejos não faltam, dá-se um pequeno passo numa direcção. Não interessa bem a direcção, desde que se dê esse passo, pequenino e decidido. E depois dele vem outro – talvez noutra direcção, talvez não – e de seguida mais um. E esses pequenos passos começam a traçar um caminho.

Mas para quem quer viver tudo o que deseja, um pequeno passo já não basta. É preciso outro, outro e outro. É necessário perseguir essa liberdade. É necessário levar a sério o desejo. Temos que honrar o que queremos. Vamos avançar, vamos!
Dou por mim e já não ando: corro apenas. Passo atrás de passo, rápido rápido, porque não há tempo a perder. Não posso deixar nada de fora, não posso deixar nada por viver. Trata-se da minha vida, trata-se da minha liberdade, trata-se da minha felicidade. Tenho que ser livre de escolher. Sempre.

Chego a um sítio – e sim ele é bom – mas de seguida lanço-me para outro, sem poder parar. Como posso ficar parado, quando o desejo não dorme? O gozo de cada experiência parece diminuir. Mas o desejo só parece aumentar. O que apenas me faz correr mais.
As pessoas e as situações passam, uma depois da outra. Gosto de todas, mas nenhuma me basta. Tenho que continuar, posso perder alguma coisa que aí vem.
O passado já não me chega. Esqueci o sabor dos abraços demorados, das refeições partilhadas, dos prazeres pequenos.
O presente já não me interessa. A minha senda é pelos grandes desejos, pela grande liberdade do homem, e ela virá no futuro, tem que vir.
O futuro já não me motiva. Corro atrás do Sol para nunca o apanhar. Corro atrás de um amanhã que foge sempre de mim.
Tudo passa cada vez mais rápido, e eu continuo a perseguir a minha liberdade.

E eis que por fim, um cansaço de viver se apodera de mim. Já vi o mundo e o mundo já me viu. Já conheci mais pessoas do que me lembro, e já vivi mais histórias do que conseguiria contar. Sei que ainda haveria mais para ver e mais para viver, mas o meu interior desinteressou-se. Tornei-me indiferente, o fogo do meu desejo arrefeceu, e mais que tudo… a minha alegria desapareceu.

Percebi então que durante anos, corri sempre por mim. Para eu exercer a minha liberdade, para eu poder escolher, para eu poder fazer o que me apetecia. Nada mais que a minha vontade me motivou: mais nenhuma causa me apaixonou, mais ninguém me fascinou, mais nada me cativou. Corri apenas por mim e pelos meus desejos, e cheguei ao final sem nada. Percebi que todos os meus passos – curtos, rápidos, ansiosos – afastavam-me do que eu mais procurava. A liberdade que tanto queria apanhar, era uma sombra que sempre fugiria de mim.

Mas neste dia o Sol nasce de novo – e depois de perseguido todo o desejo, depois de fazer tudo o que me apetecia – resta-me apenas uma vontade: poder voltar àquela tarde, e fazer uma escolha diferente.
Não me digam a mim que viver é fazer o que me apetece. Dêem-me antes algo maior que eu próprio, algo mais fundo que a minha liberdade, e partirei de novo. E desta vez a minha alegria não terá fim.

12 Respostas to “Lamento, mas vou procurar a liberdade”

  1. Catarina 7 de Março de 2014 às 2:29 #

    É uma experiência rica porque refletida e a conclusão parece muito acertada! A minha liberdade é para me dar! Contudo, sem a experiência de uma liberdade virada para si fica difícil perceber o alcance e a necessidade da doação! Depois de experimentar os frutos “mortais” do egoísmo e do egocentrismo pudemos perceber e desejar sinceramente viver para os outros, e, talvez, só nessa altura, ganhemos a capacidade de sermos verdadeiramente altruístas. Nessa altura, corresponde a um desejo do coração e então todo o ser passa a estar envolvido!
    Também por esta razão é tão importante respeitar a liberdade individual para que se não atrase esse processo de tomada de consciência e de adesão do coração!
    Sempre que surge uma imposição, todo esse processo é interrompido, ao contrário, sempre que há uma sugestão ou uma proposta esse processo é fortalecido e encorajado!
    Gostei muito, fez-me refletir também!

  2. PAF 6 de Março de 2014 às 14:34 #

    Hoje li isto:
    “António cruzou-se com Ana na rua. Estavam fadados a um grande amor. António estava a postar cenas no facebook, Ana estava a percorrer o feed do instagram. Cruzaram-se, mas não se viram. F****-se.”

    Conclusão:
    A nossa liberdade não pode ser “a nossa” individual, senão fará mossa
    A nossa liberdade não deve nos impedir de estarmos atentos aos outros, senão ficaremos presos

  3. Miguel Bandeira 5 de Março de 2014 às 18:18 #

    Fiquei sem palavras! Este tocou fundo. Excelente reflexão, cheia de sabedoria. Acho que encontrar o equilibrio nas nossas vidas entre as coisas que fazemos por nós e aquelas que fazemos pelos outros, ou outra causa maior do que nós, não é nada fácil. Mas precisamos das duas se queremos viver uma vida com sentido e que ao mesmo tempo dê gozo viver. Por isso vale a pena perder tempo a tentar encontrar esse equilíbrio. E nada melhor que ler este texto se temos andado a dedicar demasiado tempo as coisas que começam e acabam em nós mesmos. Obrigado!

  4. Anónimo 4 de Março de 2014 às 17:47 #

    …viagem de Goldmund (em “Narciso e Goldmund” de Hermann Hesse)…

  5. Maria 4 de Março de 2014 às 11:48 #

    Cinco Estrelas!!!!! Devia ser publicado no jornal maior audiência. E, já agora, no Diário da Republica.

  6. Jeremias Banzé 4 de Março de 2014 às 10:54 #

    Optima foto! Onde é?

  7. Mundo Maria Mundo 4 de Março de 2014 às 10:54 #

    “Não me digam a mim que viver é fazer o que me apetece. Dêem-me antes algo maior que eu próprio, algo mais fundo que a minha liberdade, e partirei de novo. E desta vez a minha alegria não terá fim.”
    Linda reflexão esta!
    Muitos de nós define liberdade como fazer o que lhes dá na real gana, passando por cima de tudo e de todos. Mas isso nem de longe significa liberdade, isso é apenas ser prisioneiro daquela parte de nós que nos impede ser quem na verdade somos – o nosso ego – e nos faz viver na maior das ilusões. E quem vive somente a partir do ego não é dono de si próprio, daí nunca poderá viver em liberdade.
    Grata por esta profunda reflexão.
    UM LINDO E IMENSO CÉU AZUL PARA TODOS NÓS

  8. Anónimo 4 de Março de 2014 às 10:42 #

    A linha da liberdade e do compromisso é muito ténue. Também já tive total liberdade para fazer o que queria e quando queria, mas no fim do dia, sentia que faltava sempre algo dentro de mim: um propósito, uma meta, algo ou alguém a quem me dedicar. E foi assim que adoptei o meu cão. A liberdade ainda lá está, mas agora sabe muito melhor.
    :)

    • lotus811 4 de Março de 2014 às 12:47 #

      eheheheh Desculpe mas deu-me vontade de rir o seu comentário. Eu por acaso adoro animais, não tivesse eu dois cães (porque um deles já se foi devido à idade) quatro gatos. Mas gosto deles não como um fim em si. GOSTO DELES porque sim.
      Porque gosto de pessoas com sentido de humor, o meu melhor sorriso para si e, já agora, para o seu cão.
      E, em tom de brincadeira, neste momento só me apetece dizer BAU, BAU :)

      • Anónimo 5 de Março de 2014 às 4:17 #

        Áu Áu, rom rom, e miáu para todos, hahahaha! Conseguiram fazer-me rir quando reflectia sobre o mais de meio século de vida, e o menos de meio século de probabilidades, hahaha! Gostei :D

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  1. O Céu é a Sul #103 - 9 de Julho de 2014

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