Tu és um sacaninha

28 Jan

inesperado.org - es um sacaninha
Vou-te dizer uma coisa: tu és um sacaninha do pior. Eu sei que não gostas de ouvir isto, mas consegues ser um pequeno estafermo. Não finjas que não é contigo, porque é. Tens dentro de ti um sacaninha que faz todo o tipo de disparates. Sim, sim, aquele tipo de coisas que sabes que não te levam a lado algum: procrastinar eternamente, dizer mal dos outros, pensares só no teu mundinho, fazeres apenas o que te apetece, ignorares todas as pessoas que não te interessam, e por aí fora. É este sacaninha que vive dentro de ti que te faz fazer essas coisas.

Bem sei que é mais fácil culpar coisas fora de ti: o chefe, a sogra, a família… Mas já basta de bodes expiatórios não? Tudo o que te incomoda, perturba e assusta não está nessas pessoas, está em ti mesmo. Basta de culpar os outros – o que te fizeram ou deixaram de fazer – para a tua vida não estar bem. O teu pior inimigo não está lá fora, está dentro de ti. É desse sacaninha que estamos a falar.

Vais ter que aprender a defender-te desse sacaninha – que és tu mesmo – porque senão ele vai estragar todas as coisas que mais gostas. A primeira coisa que tens que perceber é que não lhe podes dar margem de manobra. Não lhe podes dar o mínimo espaço para fazer estragos. Ele é manhoso e sabe quais são os pontos mais frágeis da tua muralha, e vai atacar aí mesmo. Ele sabe o que te custa, o que te dói e onde falhas. Ele não tem piedade nenhuma em usar isso tudo para dar cabo de ti. Tens que ser ainda mais esperto que ele e proteger-te de tudo o que pode fazer. Começa por estar com atenção redobrada nos teus pontos mais frágeis.

Não te aches demasiado bonzinho. Não aches que só os outros é que fazem porcaria, porque tu também a fazes, e pior ainda…nem dás por ela. Precisas de ser muito realista. Não sejas complacente contigo mesmo, tens que ser exigente e duro. Não dês espaço ao disparate. Tu mereces mais do que isso.

Cuidado que ele é um grande mágico. Consegue fazer passar por bem, coisas que não o são. Ele transforma as aparências, tornando coisas que não te fazem bem, em coisas que te parecem óptimas. Vai-te parecer muito razoável tomar aquela decisão, criticar aquela pessoa, adiar aquele projecto… mas depois vais ver que era apenas mais uma ilusão do mágico. Vive com prudência, e desconfia quando estiveres sempre a escolher o caminho mais fácil. Cair é igual a voar, até ao momento em que bates no chão.

Não deixes que chegue uma altura difícil para combatê-lo. Aí pode ser tarde demais. Não podes ser ingénuo ao ponto de achar que em qualquer altura tens força e discernimento suficiente para não te espalhares. Tens que combater o sacaninha quando ele é pequeno… se deixas crescer, depois é tramado. Aproveita todas as oportunidades para cortar o mal pela raíz.

Quando ele mandar em ti, vais ver toda a arrogância, destruição e vingança que espalha à sua volta. Vais ver como ele te faz desperdiçar tempo, estragar relações e arruinar oportunidades. Olha com muita atenção para os estragos feitos e aprende com isso. Se o fizeres, da próxima já vais ser mais forte. Mantém a guarda alta, e aprende, aprende rápido.

Vais ter que ter muita confiança. Vez após vez vais ficar frustrado porque ele parece mais forte e só te leva a fazer coisas disparatadas. Não te deixes levar pelo cansaço e desânimo quando as coisas não correm bem. Tu tens sempre a liberdade de escolher o que fazer. Não tenhas medo, porque és mais forte que ele. Troca o medo pela confiança.

Por fim, vais ter que aceitar um facto doloroso: ele vai-te acompanhar o resto da vida. Vais ter que aprender não só a conviver com ele como chegar ao ponto de fazer o inconcebível: começar a gostar dele. Aceitar toda a sua loucura, raiva e infelicidade. E vais ver que se o fizeres – ano aós ano, década após década – ele vai-se transformando em ti. Vai-se tornar cada vez mais na pessoa fantástica que sempre foste.

15 Respostas to “Tu és um sacaninha”

  1. Anónimo 28 de Junho de 2014 às 22:15 #

    Distúrbio de personalidade borderline?

  2. Patrícia Rodrigues 29 de Janeiro de 2014 às 0:33 #

    Wow… adorei !! Nothing left to say….

  3. João Delicado 28 de Janeiro de 2014 às 18:11 #

    Fizeste-me lembrar “A vida de Pi” e aquela batalha sangrenta do rapaz contra aqueles animais (entre os quais, o espetacular tigre de Bengala) que – afinal – são pessoas ou personificações do que ele vive por dentro! Muito bem apanhado.

  4. Anónimo 28 de Janeiro de 2014 às 13:12 #

    Descobri este blog à pouco tempo e rendi-me logo no 1º minuto! Adoro, continuem assim!

    Adorei este texto, parabéns!

  5. Rui Miguel Santos 28 de Janeiro de 2014 às 12:01 #

    Uma bela reflexão sobre aquilo a que se chama EGO ou Mente Egóica – aquele sacana que se não for controlado faz dos seres racionais seres irracionais que só olham para o seu umbigo, seres insatisfeitos, sempre à procura daquila que não encontram.
    Muito inspirado nas 2 magnifícas obras de Eckhart Tolle “O Poder do Agora” e “Um Novo Mundo”.

  6. Marta 28 de Janeiro de 2014 às 11:18 #

    É incrível como acertas sempre na muche!
    Vivo ansiosa pela terça para ver que estalada vou receber…

    Obrigada por me fazeres debater comigo mesma e por me fazeres pensar em como posso ser mais e melhor. :)

  7. Anónimo 28 de Janeiro de 2014 às 11:14 #

    É incrível como acertas sempre na muche. Os teus textos tocam na ferida e fazem-nos crescer.

    Obrigada por todas as terças me dares alento e me fazeres-me debater comigo própria. :)

  8. Cristina Pereira 28 de Janeiro de 2014 às 10:43 #

  9. Ana 28 de Janeiro de 2014 às 2:58 #

    A verdade nua e crua relatada através da simplicidade das palavras certas!!
    Muito bom texto, adorei ;)

  10. Anónimo 28 de Janeiro de 2014 às 0:17 #

    Muitos parabéns pelo texto, está óptimo!

    • Cristina Soares 28 de Janeiro de 2014 às 1:20 #

      Este texto lembrou-me de um livro cujo título é “O impostor que vive em mim”… ambos, muito bons.

  11. Mundo Maria Mundo 28 de Janeiro de 2014 às 0:15 #

    É isso mesmo: nós somos os maiores carrascos de nós próprios!
    Grata pela reflexão!

  12. Anónimo 28 de Janeiro de 2014 às 0:12 #

    É isso mesmo: nós somos os maiores carrascos de nós mesmos.
    Grata pela partilha!
    maria

  13. M. 28 de Janeiro de 2014 às 0:07 #

    :) Maravilhoso!

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