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A importância dos conflitos

6 Maio

Todos os dias e a toda a hora acontecem todo o tipo de conflitos. Guerras, confrontos ou simples discussões tomam lugar entre desconhecidos e conhecidos. Entre amigos, colegas e casais.

Poderíamos idealizar um mundo sem conflitos, mas faríamos apenas isso: idealizar. Os conflitos – de maior ou menor escala – acontecem porque temos interesses diferentes. Eu quero isto assim, e tu queres de outra maneira. Esta divergência de interesses pode trazer stress, desconfiança ou ressentimento, mas também pode ajudar a ir ao fundo das coisas, a melhorar relações e aproximar pessoas.
Desta forma, o conflito em si não é uma coisa má, mas que pode ser bem ou mal usada.

Se repararmos só há conflitos onde há relações entre pessoas. Não vemos 2 objectos a discutir um com o outro. Olha a almofada a ter uma discussão com o sofá, que engraçado. Nem há conflitos entre pessoas e objectos: eu não tenho uma discussão com a minha televisão (apesar de cenas semelhantes terem lugar). Há sim conflitos entre pessoas.

Raramente um conflito nos deixa indiferentes porque mexe connosco e com a nossa autoestima. Sentimos que alguma parte de nós está a ser posta em causa, e isso é incómodo. Se não tiver a ver connosco, não há problema: ninguém se chateia tremendamente se alguém não gosta de um filme que gostámos. Mas se alguém não gosta de nós, aí temos chatice.
inesperado.org - os conflitos
Ora bem, para compreender melhor os conflitos, podemos dramatizar dois tipos de pessoas:
1. Os que fogem do conflito
É extraordinário ver o que estas pessoas estão dispostas a fazer para evitar um conflito: fogem de cena quando sentem a tensão a subir ou pedem desculpa mesmo quando têm razão. Evitam o confronto a qualquer custo (mesmo a um custo superior ao do próprio conflito). Isto pode acontecer por uma mistura de motivações. Tanto pode ser por insegurança esta pessoa vai deixar de gostar de mim ou tenho medo que me ataquem; como por orgulho: tenho razão e nem estou para me explicar a esta pessoa, ela que perceba. De qualquer forma estas pessoas são altamente cuidadosas nos conflitos em que se envolvem, e têm uma esperança ingénua que alguns problemas se resolvam sozinhos.

2. Os que procuram o conflito
Pelo contrário, há pessoas que se alimentam de conflitos. São pessoas que retiram energia e motivação dos conflitos e que se agigantam perante um confronto. Pessoas que conseguem tirar algo positivo – um sentido de certeza, energia e satisfação – de um confronto. Daí haver casalinhos que adoram discutir e chefes que adoram gritar. É comum as pessoas que gostam de conflitos serem pessoas que gostam mais de falar do que ouvir. Estas pessoas metem-se na arena antes sequer de avaliar as consequências. Acham que nada se resolve se elas não entrarem em acção.

Mas na realidade nenhum destes dois tipos de pessoa é inteiramente eficaz a lidar com os conflitos. De facto, cada um dos tipos tem a aprender com o outro. Os que fogem do conflito têm que arranjar formas inteligentes de tirar gozo e motivação de um conflito, bem como perceber que por vezes é melhor pegar um toiro pelos cornos do que fugir dele (porque o toiro vai acabar por voltar ainda mais enfurecido). Pelo contrário, os que procuram o conflito a todo o custo têm que aprender a ser prudentes e cuidadosos, bem como a saber ouvir o outro lado e evitar confrontos desnecessários.

Apesar de tudo, há conflitos que por uma razão ou outra são insanáveis. Em que os interesses não são conciliáveis. E não há problema com isso, desde que as pessoas sejam sempre tratadas com cuidado e respeito. Contudo, a maior parte dos conflitos podem ser resolvidos eficazmente, se os diferentes interesses forem comunicados de forma clara. E para isso pode ajudar:
1. Criar empatia
Ser capaz de sentir o que o outro sente. Desenvolver para isso uma escuta activa, pôr-se no lugar do outro e escutar com cuidado quais os seus interesses e como os podemos servir.
2. Atacar ideias, não pessoas
É importante criar um espaço seguro onde as ideias possam ser brutalmente atacadas, mas nunca as pessoas. Assim, torna-se possível criar o hábito de criticar livremente as ideias, mas sem julgar as pessoas.
3. Ser assertivo
Em vez de comunicar de forma agressiva, atacando a outra pessoa, ou por outro lado, ser passivo, não comunicando nada, podemos escolher antes a assertividade. Dizer o que se tem a dizer com frontalidade mas também com elegância.
Tudo isto ajuda se soubermos mostrar o nosso ponto de vista sem atacar ninguém. É diferente dizer “és uma louca obsessiva que não me pára de me controlar” do que “percebo que queiras saber por onde ando querida… mas sinto-me pressionado quando me perguntas demasiadas vezes. O que podemos fazer para resolver isto?”

Naturalmente cada conflito resolve-se de forma diferente, porque cada relação é diferente. Resolver um conflito num namoro é diferente de resolver um conflito no trabalho. Mas temos uma hipótese maior de resolver bem cada conflito se reaprendermos a empatia, a capacidade de distinguir ideias de pessoas e a assertividade.
Desta forma o conflito deixa de ser uma ameaça a procurar ou a evitar a todo o custo, mas antes uma oportunidade de crescimento conjunto.

A força de um entusiasmo

29 Abr

Há alturas na vida em que somos levados por um entusiasmo. É como se alguma coisa pegasse fogo dentro de nós e ficássemos apaixonados por um certo aspecto da vida. Pode ser um projecto que nos cativa, uma pessoa que nos atrai ou uma ideia que nos fascina. É uma sensação maravilhosa.

Passado algum tempo, o que normalmente acontece é que o entusiasmo começa a diminuir, e as dificuldades multiplicam-se.
O projecto que nos cativava afinal tem mil obstáculos, a pessoa que nos atraía tem defeitos que nos incomodam e a ideia que nos fascinava já não parece assim tão interessante.
Quando o entusiasmo começa a pesar nas costas, o que costumamos fazer é largá-lo e partir à procura de um próximo. Pode ser que o próximo nos realize mais do que este. Pode ser que nos deixe mais tempo entusiasmados. Vamos assim de experiência em experiência sempre à procura de mais entusiasmo. Viajamos para imensos países, lemos muitos livros, sobrecarregamos agendas com programas e temos mais paixões do que podemos recordar. Mas nada disso nos satisfaz.
inesperado.org - a força de um entusiasmo
Estamos convencidos que quanto mais entusiasmados nos sentirmos, mais estamos a viver. Mas nem sempre é assim.
Chegamos a achar que uma coisa que não nos entusiasma não tem valor ou não vale a pena.
Mas quem diz que aquele trabalho que parece uma seca não vai ser uma boa surpresa? Quem diz que aquela pessoa que não valorizamos pode-se tornar num dos nossos melhores amigos? Quem diz que aquele projecto que achamos ridiculo não pode ser a nossa grande vocação?

Queremos sempre entusiasmos fáceis, sem complicações e cheios de gratificação. Fazemos birra quando alguma coisa nos custa ou traz alguma adversidade, e acabamos por nos portar como crianças que querem sempre um brinquedo novo.

A verdade é que é uma ingenuidade querer estar sempre entusiasmado. O entusiasmo é uma parte maravilhosa da vida, mas não é a vida. O entusiasmo é um extra. Não vivemos para estar sempre entusiasmados. O entusiasmo é um bónus que nunca sabemos quando vai chegar.

A maior parte das vezes, enquanto procuramos um novo entusiasmo, temos um trabalho inacabado em cima da secretária que já devia estar terminado. Há alturas em que temos é que trabalhar e amar, mesmo que não apeteça nada.

A autenticidade de um entusiasmo não se descobre nos momentos extraordinários, mas na vida do dia a dia. Só quando descobrirmos quanto estamos dispostos a sacrificar por um entusiasmo é que sabemos a verdadeira força que ele tem.

Podemos ficar numa atitude infantilóide de quem quer uma vida cheia de entusiasmos, ou então podemos crescer, arregaçar as mangas, e fazer alguma coisa com o que temos pela frente.

Se por acaso optarmos por levar cada entusiasmo até ao fim, com toda a tenacidade e criatividade, bem para lá do ponto em que o chamamos entusiasmo, então aí estaremos em condições de largar o que já não nos faz sentido, ou quem sabe… deixar-nos surpreender por um novo entusiasmo que surge de onde menos esperávamos.

As vantagens de ser um falhado

22 Abr

Vamos encarar os factos: nós somos uns falhados. Podemos não o dizer a ninguém, podemos esconder de nós próprios, mas não conseguimos evitar aqueles pensamentos marotos:
Nenhuma relação que tenho bate certo.
No trabalho só faço asneira.
Sinto-me a ficar para trás.
Tenho vergonha da minha forma física.

Rapidamente nos consideramos um falhanço monumental, e a verdade é que o somos. Apesar de nos babarmos só a imaginar uma vida de suposto sucesso – família perfeita, carreira respeitável, dinheiro abundante e aparência invejável – a verdade é que a nossa vida está cheia falhanços desastrosos.

As boas notícias é que há várias vantagens em ser um falhado:
1. Só não falha quem não tenta.
Normalmente quem é um falhanço é porque tentou alguma coisa. Quer tenha sido lançar uma empresa, começar uma relação, candidatar-se a um trabalho, só o acto de tentar já é memorável. Tudo o que vale a pena fazer, vale a pena falhar a tentar. Só não falha quem não tenta.

2. Quem não falha não tem amigos.
Ninguém é muito amigo de uma pessoa que nunca falha. As pessoas invulneráveis, seguras de si e cheias do seu sucesso não dão espaço para mais ninguém. Pelo contrário, é natural sentirmo-nos próximos de alguém que confessou um seu falhanço: Ah ele também passou por isto? Que engraçado eu também… Ah ele fez aquilo?… curioso como fiz uma coisa parecida…
Partilhar os nossos fracassos, mostrar vulnerabilidade, é um caminho aberto para relações genuínas.
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3. Muitos falhanços fazem um humilde.
Apesar de ser uma chatice, o caminho mais seguro para quem quer ser humilde é ser humilhado muitas vezes. E para se sentir humilhado nada como uma boa dose de falhanços. Eles magoam o nosso orgulho e vaidade mas devolvem-nos a nossa justa dimensão. Muitas vezes as pessoas mais humildes são as que sabem que muito falharam.

4. Cresce-se mais a falhar.
As alturas de maior crescimento na nossa vida não são quando fazemos tudo bem, mas quando falhamos e temos consciência da razão pela qual falhamos. Curiosamente, quando as coisas correm bem nem sempre crescemos muito, porque nem nos damos ao trabalho de pensar no que fez as coisas correr bem. Pelo contrário, o falhanço é um reality check muito mais persuasivo: obriga-nos a encarar de frente o que fizemos e como o poderíamos ter feito melhor. O crescimento mais eficaz pode vir quando damos um espalho monumental.

5. Um falhado pode arriscar mais.
As pessoas que fazem tudo bem, costumam ter muitas coisas a que se agarrar. E por terem muitas coisas, têm também muito a perder. Pelo contrário, os falhados têm pouco a perder, e por isso, podem arriscar mais. No trabalho, por exemplo, a reputação de quem arrisca muitas vezes e vence algumas, será provavelmente melhor do que quem tem medo de falhar e tenta apenas coisas seguras. Os falhados podem arriscar mais, e por isso mesmo têm muito mais a ganhar.

6. Os falhados têm mais humor.
Uma pessoa até pode ter convicções opostas às nossas, mas se tiver sentido de humor até nos entendemos. Com o sentido de humor conseguimos fazer coisas extraordinárias. Acontece que os falhados confrontam-se regularmente com as suas figuras rídiculas, com surpresas desastradas e com acontecimentos inesperados, e isso já é meio caminho andado para se ter mais sentido de humor. Os certinhos acabam por ser tremendamente aborrecidos, e os falhados… ao menos esses são bem mais divertidos.

7. Ninguém espera muito dos falhados.
Os holofotes costumam estar virados para as pessoas bem sucedidas. Isso acaba por ser uma tremenda vantagem para os falhados – porque estão fora do radar – e por isso têm muito mais liberdade para surpreender toda a gente. Ninguém espera grande coisa de um falhado, tal como ninguém quer apostar no cavalo mais lento. Mas são esses falhados que podem surpreender tudo e todos aparecendo do nada com uma ideia revolucionária, com uma relação fabulosa ou com um projecto maravilhoso.

Por estas e por outras razões o falhanço tem-se tornado uma ocupação cada vez mais nobre.
Mas para se ser bem sucedido nesta ocupação… é preciso ser um verdadeiro falhanço.

Tu és um sacaninha

28 Jan

inesperado.org - es um sacaninha
Vou-te dizer uma coisa: tu és um sacaninha do pior. Eu sei que não gostas de ouvir isto, mas consegues ser um pequeno estafermo. Não finjas que não é contigo, porque é. Tens dentro de ti um sacaninha que faz todo o tipo de disparates. Sim, sim, aquele tipo de coisas que sabes que não te levam a lado algum: procrastinar eternamente, dizer mal dos outros, pensares só no teu mundinho, fazeres apenas o que te apetece, ignorares todas as pessoas que não te interessam, e por aí fora. É este sacaninha que vive dentro de ti que te faz fazer essas coisas.

Bem sei que é mais fácil culpar coisas fora de ti: o chefe, a sogra, a família… Mas já basta de bodes expiatórios não? Tudo o que te incomoda, perturba e assusta não está nessas pessoas, está em ti mesmo. Basta de culpar os outros – o que te fizeram ou deixaram de fazer – para a tua vida não estar bem. O teu pior inimigo não está lá fora, está dentro de ti. É desse sacaninha que estamos a falar. Continuar a ler

As vantagens e o veneno de perdoar

24 Dez

perdoarTodos temos razões para estar lixados com alguém.
Quer tenha sido alguma crítica, discussão, mentira ou traição, o mais provável é que todos tenhamos um portfolio de pessoas que nos magoaram e nos causaram dor. Ficamos ressentidos e sinceramente não nos apetece particularmente perdoar quem nos fez sofrer. Mas o que será que torna tão difícil perdoar quem nos magoou?

Muitas vezes achamos que ao perdoar estamos a deixar passar em branco uma injustiça. Estamos a deixar a outra pessoa sair incólume, mesmo quando nos causou tanto sofrimento. Contudo… que justiça é manter-nos agarrados à dor? Que espécie de castigo queremos infligir ao outro com a nossa intransigência?

Outras vezes, achamos que é preciso acontecer alguma coisa extraordinária para perdoar outra pessoa. É preciso alguma inspiração ou intuição caridosa para avançar. Mas mais vale puxar uma cadeirinha para nos sentarmos, porque tais impulsos altruístas demoram a chegar. Continuar a ler

Os planos que fizeste vão falhar.

3 Set
Há um momento maroto em que uma ideia nos entra na cabeça para lá ficar durante muito tempo. Uma ideia sobre como a nossa vida deve correr:
Começo a namorar quando encontrar a pessoa ideal: bonita, inteligente, divertida, carinhosa.
Quero-me casar, ter 3 filhos e uma casa grande.
Tenho que ser reconhecido profissionalmente, gostar do que faço, ganhar muito e fazer coisas grandes.
Facilmente juntamos estas 3 ideias, e outras tantas de fácil execução. Mas acontece que apesar de todos os esforços, muitas vezes os nossos planos falham redondamente. 
A vida não corre como esperado. Acontecem mil imprevistos, mil dificuldades, mil alterações. E sentimos dor, porque a vida não corre como gostaríamos.
Estamos muito convencidos que sabemos o que é melhor para nós. Que certas coisas têm que acontecer para sermos felizes.
Mas tantas vezes  a nossa vida quer-nos levar para outro lado.
inesperado.org
Mas será que por isso devemos deixar de fazer planos? Que devemos fazer o que nos dá na gana a cada manhã?
hmmm hoje… sofá, comida e séries. amanhã… sofá, comida e séries. 
NOT. Podemos antes tomar consciência de 3 coisas:
1. Há planos que dependem mais de nós, e outros menos.
Talvez o nosso percurso profissional ou quem nos gostaríamos de tornar, sejam áreas que dependem mais de nós e do nosso esforço.
Talvez o mundo amoroso, namorados, casamentos e filhos fofinhos não dependam tanto.
Mais vale investir e dedicar tempo às coisas que controlamos do que aquelas que não controlamos. Que venham os planos que dependem de nós.
2. Qualquer que seja o plano, que seja com desportivismo.
Mais importante que as estratégias brilhantes que congeminamos para que a nossa vida seja fantástica, é ter consciência que não são assim tão brilhantes, e que de um dia para o outro podem cair por terra. Mais vale encarar os nossos planos com desportivismo, com liberdade interior para os largarmos quando chegar a altura.
Que venha então o fair play quando a coisa dá para o torto.
3. É sempre tempo de renovar planos.
Muitas vezes os planos que temos na cabeça impedem-nos de saborear o que temos pela frente. Acontece que podemos sempre adaptar o plano às circunstâncias reais da nossa vida, ou trocá-lo por um novo. Nunca é tarde para renovar planos.
Teremos sempre toda a liberdade para fazer planos, mas vamos mais longe se soubermos que é normal falharem. 
Quando isso acontecer, que tenhamos a liberdade para criar novos planos, mais próximos da realidade, mais próximos da felicidade.

Vais fazer asneira. E agora?

30 Jul
Caros amigos leitores,
 
Está aí o Verão. O inesperado vai desligar a ficha durante o mês de Agosto, para voltar em Setembro com novidades frescas e mais artigos! Mas antes das lágrimas da despedida, fica aqui um artigo grandote sobre a nossa capacidade espantosa para lixar as coisas… e o que podemos fazer quando isso acontece!
inesperado Verao
Para todos nós que temos 2 olhos na testa, uma cabeça e um coração, fica aqui uma verdade chata: vamos fazer asneira.
Apesar de todas as nossas boas intenções e cuidados, vamos acabar por fazer asneira. Vamos magoar outras pessoas de quem gostamos. E vamos-nos magoar.
Parece que temos dentro de nós uma tendência para aparvalhar. É mesmo. Uma força que nos puxa para o disparate, para a loucura, para a dor. Fazemos o nosso melhor para não deslizar, but we just can’t help it.
Isto significa que somos seres perversos, condenados ao disparate e sem cura possível?
Não. Significa que somos parte da raça humana. Welcome!
Mas o que fazemos nas alturas em que fazemos borrada? Nas alturas em que causamos dor aos outros e a nós?
Culpamos os outros pela nossa asneirada? Culpamos as circunstâncias? Culpamos o nosso passado?
Hmmm… Tem que haver outras alternativas, por uma simples razão: culpar outros – por muito tentador que seja – é apenas arranjar uma desculpa para nós próprios. Não vamos jogar ao jogo de atribuir culpas: cada vez que culpamos outra pessoa ou circunstância, estamos a dar o nosso poder a essa pessoa ou circunstância.  O caminho passa por uma atitude madura de assumir responsabilidade.
Inesperado.org_vais fazer asneira
Então como podemos lidar com um momento de borrada, de forma responsável?
Em primeiro lugar: não desesperar.
Por muito dolorosa que seja a circunstância, por muita dor que tenha causado a outros ou a nós, nada está perdido. Não há nenhuma circunstância de onde não possam nascer coisas boas. Cada disparate traz dentro um convite para uma vida melhor. Não perder nunca essa certeza. Se nos deixamos desesperar é garantido que continuamos a disparatar.
Em segundo lugar: tomar consciência do disparate. 
Por muito absurda que pareça esta ideia… devemos contemplar e saborear a dor que infligimos aos outros e a nós próprios. Olhar de frente para ela, sem pestanejar, sem fugir. Olhar essa verdade violenta sem culpas ou desculpas. Não por masoquismo, mas porque a aprendizagem genuína só surge quando tomamos consciência aguda da dor que provocámos.
E da consciência da nossa asneirada vem também um profunda humildade, porque compreendemos bem quão fabulosamente conseguimos lixar as coisas.
Em terceiro lugar: reparar o que pode ser reparado.
Há coisas que não conseguimos voltar a deixar como estavam. Mas podemos sempre fazer alguma coisa para melhorar a situação. E muitas vezes isso passa por um pedido de desculpas a quem magoámos. Para reparar as feridas que fazemos nos outros e em nós, temos que passar por um processo de reconciliação genuíno, em que as duas partes têm que estar activamente envolvidas.  Uma desculpa esfarrapada é apenas um segundo insulto. Desculpas como “Desculpa SE te magoei…” também não servem de nada. A desculpa tem que ser sentida e vinda do coração. Só com acções assim – puras, genuínas, boas – é que se quebram ciclos de irritação, raiva e dor.
Por fim, devemos aceitar esta ideia simples: o problema não é termos cicatrizes, é termos feridas abertas. 
Vamos então aprender a lidar com as nossas asneiradas para não deixarmos feridas abertas.
E já agora… que as nossas cicatrizes nos lembrem a tratar melhor os outros, e nós próprios!
Com ou sem asneiradas, um excelente Verão para todos!

Não percebes nada

14 Maio

Temos imensos conhecimentos. Sabemos nomes de pessoas, curiosidades, histórias e sítios.
Sabemos medir as coisas. Temos métricas, critérios e opiniões. Sabemos compreender as coisas. Fazemos análises, explicações e lógicas. Aprendemos a fazer muitas coisas diferentes, desde escrever um email a temperar uma salada.

Mas apesar de sabermos tanta coisa, por vezes não percebemos puto do que acontece connosco. Não percebemos uma dor de coração, não percebemos o que realmente nos faz felizes nem para onde estamos a ir.
Muitas coisas permanecem misteriosas apesar de ficarmos horas a olhar para elas.

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E isto chega a ser violento porque é difícil aceitarmos que não percebemos nada. Temos a ambição de saber tudo, sobre tudo. Temos uma secreta vaidade de ter uma opinião sobre tudo. Uma certa arrogância ao ter certezas sobre as coisas. Gostamos de compreender porque é que os outros fazem aquelas coisas. E nós estas.

No meio deste terreno de dúvida e ausência de respostas, algumas ideias amigas podem trazer consolo:

Ir mais fundo.
É bom procurar muito. Ter muitas perguntas. Querer saber mais da nossa realidade e da dos outros.
Esta ausência de respostas, obriga-nos a ir ao fundo. Redescobrir quem somos, o que queremos, e em que direcção estamos a andar. Ter perguntas e não ter respostas obriga-nos a viver de forma mais empenhada e fundamentar bem os nossos gestos.

Estar mais atento.
A Simone Weil dizia que a atenção é a forma mais pura de generosidade. Não compreender algumas coisas ajuda-nos a estar atentos. A estar à espera, em silêncio com olhos muito abertos. Como um pescador que está atento ao mar. A olhar para a superfície, sabendo que há em movimento no interior que não vê nem compreende.

Suspender o julgamento.
Somos uns chefes tramados connosco próprios. Pomos prazos impossíveis para resolver certos assuntos. Pomos prazos de validade na nossa vocação, nas relações, nos trabalhos. (E todos os prazos estão a caducar.)
O resultado tem que estar em cima da secretária naquele dia.O problema tem que estar resolvido.
Devíamos antes aprender a suspender o julgamento sobre o significado de certas coisas. Devíamos ser menos precipitados na interpretação do significado das coisas.

No meio deste terreno em que tanta coisa fica por compreender, precisamos sobretudo de aprender a ser muito mais pacientes connosco próprios. Precisamos de confiar muito. Confiar que há o bigger picture da bigger picture e que o sentido das coisas leva tempo a ser compreendido.
Só compreenderemos com nova verdade a nossa vida se tivermos uma paciência que supera a impaciência. Se vivermos com uma esperança para além do que se podia esperar.

Dias em que tudo muda

24 Jul

Há dias em que tudo muda. Dias em que a vida foge-nos completamente das mãos.

Levaste uma tampa.
Ou foste despedido.
Ou morreu a tua avó.
Ou chumbaste no exame de especialidade.
Ou levaste uma desanda do teu chefe.
Ou descobriste que tens uma doença.
Ou o teu negócio está insolvente.

Não, não é como os trailers de cinema com aquela voz profunda e poderosa: “One guy. And the day that changed his life forever”. Não, não é nada com essa voz. E não, não é nada cool.
Parece que fomos ao tapete, como se tivéssemos sido aviados por um Mohamed Ali furioso.

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O que é melhor para nós

15 Maio

Será que sabemos o que é melhor para nós? Valerá a pena termos objectivos na nossa vida, ou simplesmente estar abertos ao que a vida vai trazendo?
Caramba, é que chateamo-nos tanto com o que a vida nos dá. Porque recebi uma nega de emprego ou uma tampa , ou um tupperware? risos… Mas damos por nós a pensar:
Não tive as oportunidades que queria…
Não tenho o emprego que mereço…
Não tenho uma família tão grande como queria…
Não tenho amigos bons…
Não tenho dinheiro para fazer o que quero…
Não tenho o cabelo daquela cor…
Não sou tão alto como queria…

Tantas vezes queremos coisas. E bem à nossa maneira. Continuar a ler

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