As vantagens e o veneno de perdoar

24 Dez

perdoarTodos temos razões para estar lixados com alguém.
Quer tenha sido alguma crítica, discussão, mentira ou traição, o mais provável é que todos tenhamos um portfolio de pessoas que nos magoaram e nos causaram dor. Ficamos ressentidos e sinceramente não nos apetece particularmente perdoar quem nos fez sofrer. Mas o que será que torna tão difícil perdoar quem nos magoou?

Muitas vezes achamos que ao perdoar estamos a deixar passar em branco uma injustiça. Estamos a deixar a outra pessoa sair incólume, mesmo quando nos causou tanto sofrimento. Contudo… que justiça é manter-nos agarrados à dor? Que espécie de castigo queremos infligir ao outro com a nossa intransigência?

Outras vezes, achamos que é preciso acontecer alguma coisa extraordinária para perdoar outra pessoa. É preciso alguma inspiração ou intuição caridosa para avançar. Mas mais vale puxar uma cadeirinha para nos sentarmos, porque tais impulsos altruístas demoram a chegar.

Temos ainda um gosto especial em desempenhar o papel de vítima. Tendo sido magoados, por vezes retiramos alguma espécie de gozo da autocomiseração e do sentimento de impotência. Preferimos o conforto de ter razão ao desconforto da reconciliação.

Mas olhando objectivamente…a irritação, a dor e o ressentimento não alcançam nada. Só nos impedem de viver melhor. Ficar agarrado ao ressentimento é como comer um prato de veneno e esperar que faça mal à outra pessoa. Quem sofre não são as pessoas que nos magoaram, somos nós.

A forma de nos libertarmos desse ressentimento é simplesmente – e difícilmente – perdoarmos quem nos magoou. Largar a dor, largar a culpa, largar o ressentimento, e perdoar. Para começar um ressentimento são precisas duas partes, para terminá-lo basta apenas uma.

Ao perdoar outra pessoa, libertamo-nos. Ficamos livres do passado – do que nos magoou e fez sofrer – e ficamos abertos ao presente, a tudo o que pode acontecer de surpreendente e fascinante. É uma espécie de dieta imediata: perdemos quilos e quilos de sofrimento que trazíamos a mais.

Perdoar também liberta a outra pessoa. Não só a outra pessoa pode sentir-se melhor ao estar connosco, como ela ganha capacidade de perdoar outros. Quem faz a experiência de ser perdoado tem mais facilidade em perdoar outras pessoas.

Contudo perdoar não implica esquecer a dor que os outros nos provocaram, nem que seja porque o que esquecemos ou não, depende pouco da nossa vontade. O que depende de nós é deixar de lado as culpas e ressentimentos, e perdoar.

Há quem ache que o perdão é uma coisa utópica ou infantil, mas não podia estar mais longe disto. O perdão não é para meninos nem para quem vive em mundos de fantasia. É para pessoas com maturidade e com coração magnânimo. É para quem quer uma vida melhor.

É altura de largar o peso desnecessário que andamos a carregar. É altura de perdoar.

Um Feliz Natal para todos!

16 Respostas to “As vantagens e o veneno de perdoar”

  1. ze carvalho 7 de Fevereiro de 2014 às 16:56 #

    Perdoar não é, definitivamente para meninos. É dificil. É difícil libertarmo-nos de raivas e de ressentimentos

  2. João Delicado 27 de Dezembro de 2013 às 8:27 #

    TAU! Texto directo, incisivo, sem espinhas. Muito bom! Parabéns!

    Por ter estado recentemente com alguém que sofre profundamente com uma situação de injustiça dei por mim a fazer mais ou menos essa reflexão. A minha imagem não era a de comer um prato de veneno mas era a de guardar comida estragada – que não nos pertence – no nosso frigorífico! :)

    Na conversa com essa pessoa, disse-lhe duas coisas: 1) nem ela merecia continuar nesse sofrimento, nem as pessoas à sua volta mereciam ser privadas da sua melhor versão; 2) não havia mais nada a fazer senão perdoar, largar esse sofrimento, largar o sentimento de ter sido tratada de forma tão injusta.

    Enfim, quer queiramos quer não, perdoar deve ser dos desafios mais difíceis da vida. Não é por acaso que não conseguimos tirar essa comida estragada do frigorífico ou deixar de comer esse veneno… Dizes isso tão bem! – “preferimos o conforto de ter razão ao desconforto da reconciliação”. No fim de contas, é uma opção que podemos fazer ou não. Mas, como dizia alguém, cada um que carregue o seu morto! :)

    ABRAÇO!

  3. TRT 26 de Dezembro de 2013 às 10:42 #

    Sem dúvida grandes verdades nestes parágrafos…perdoar faz bem sobretudo a quem perdoa…todos nós erramos e magoamos, consciente ou inconscientemente e a diferença está naquilo que fazemos a partir daí…a vida não deve ser vivida num suplício, em sofrimento…é a maior benção que temos e devemos vivê-la plenamente…não podemos deixar que sejam os ressentimentos, a dor a vivê-la por nós! Vale a pena pensar nisto ;)

  4. Anónimo 25 de Dezembro de 2013 às 23:03 #

    …mt bom ler aquilo que sei mas não consigo dizer nem pôr em prática…mt bom saber não sou diferente ;) que é possível alcançar a paz ;) acredito q é tudo uma questão de tempo e …só falta o conseguir ;)

  5. Ana 25 de Dezembro de 2013 às 22:29 #

    Não podia estar mais de acordo. Podemos perdoar e sentirmo-nos livres e em paz e sem ressentimentos..mas quando entramos num ciclo de magoar/perdoar, acabamos por nos destruir lentamente, perdemos auto-estima..e acreditem, para os mais fracos..até se pode chegar ao ponto de acreditar que tudo aquilo já é normal e não há melhor.
    Que o ano novo que aí vem sirva de partida para muitas pessoas que se deixam abater por perdoar demasiado. Bjinhos

  6. Cristina Pereira 25 de Dezembro de 2013 às 18:41 #

    “Perdoa os outros, não porque eles merecem perdão, mas porque tu mereces paz” Boas Festas! BP

  7. Sofia 25 de Dezembro de 2013 às 12:20 #

    Gostei muito do texto e estou de acordo. Mas quando o ciclo “ferir/perdoar” se transforma em modo de vida, então, optamos por desistir e por nos destruirmos lentamente. Viva a vida de perdão, sim, mas de liberdade e alegria sempre, e sem ciclos destrutivos… Feliz Natal!

  8. Sonia 24 de Dezembro de 2013 às 15:21 #

    Traição não se perdoa…e vindo de membros da família ainda menos. Magoa-me mais ver que as pessoas não entendem ou não querem perceber o mal que causaram e ainda por cima têm o descaramento de se fazer de vítima. Sinto-me mais livre se cortar definitivamente relações com essas pessoas do que manter uma amizade hipócrita. Mas não somos iguais e respeito aqueles que sabem perdoar. Um Santo Natal!

    • Anabela 25 de Dezembro de 2013 às 12:59 #

      Concordo, Sónia…o incrível é quando a dor se mistura com a mágoa e se continua… se tenta esquecer e se renova com o passar dos dias…
      Feliz Natal!

    • João Delicado 27 de Dezembro de 2013 às 8:32 #

      O perdão é largar um sentimento negativo que nos prende. Mas não me choca nada que implique também largar as pessoas que nos provocam esses sentimentos. Uma coisa é sermos chão para os outros, outra coisa é sermos espezinhados!

      • João Delicado 27 de Dezembro de 2013 às 10:34 #

        E daí… não sei… :)
        Fiquei a pensar se Jesus na Paixão teria sido chão ou se se teria deixado espezinhar, levando a situação para o extremo do abandono absoluto às circunstâncias. Seja como for, ele escolheu ser livre de qualquer rancor, ressentimento ou o que fosse e escolheu deixar-se levar por aquela gente. Espezinhado tornou-se chão para nós.

        • Sonia 27 de Dezembro de 2013 às 11:32 #

          Cada um é como é… e devemos respeitar as vontades e as escolhas das outras pessoas :-)

  9. Vanessa 24 de Dezembro de 2013 às 12:52 #

    Um Feliz Natal!… Obrigada pela enorme utilidade daquilo que escreve… :) Já faz parte da minha Vida aguardar pela 3ª feira! ;)

  10. Maria José Santos 24 de Dezembro de 2013 às 12:12 #

    Muito grata por essa “seta que acerta sempre no Centro do Alvo – o coração”

  11. Ana 24 de Dezembro de 2013 às 11:35 #

    Adoro ! Vocês escrevem tão bem.
    Fantástico. Belo presente de Natal para os vossos leitores :)

  12. Sara 24 de Dezembro de 2013 às 11:01 #

    Obrigada…muito obrigada por tudo o que escreveu…hoje precisvaa de ler isto

    Feliz Natal

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