Vais ficar sozinho. E isso é bestial

12 Nov

Gastamos muita energia para tentar garantir que não ficamos sozinhos. Queremos ter a certeza que vai lá estar sempre alguém para nos compreender e animar. O que faria todo o sentido, não fosse um pequeno pormenor: isso é impossível.

Quer seja durante 1 hora ou 1 década, vamos ficar sozinhos. O problema não é esse. O problema é o que significa ficar sozinho na nossa cabeça.

Estar sozinho assusta porque sugere que vamos ficar desamparados. Como se ninguém se preocupasse connosco. Fazemos muitas coisas para não nos sentirmos assim: começar uma relação sem futuro, comprar um cão, passar horas na internet, ou culpar outros…mas nada disso vai ao fundo da questão.

Na realidade o que nos assusta não é uma coisa exterior a nós. O que nos assusta somos nós. É o que vamos pensar e sentir quando estivermos apenas connosco. Se não estamos com ninguém, estamos condenados a passar tempo connosco. E como muitas vezes não gostamos de nós próprios… fazemos tudo para não estar sozinhos.

Ficar sozinho pode ser uma coisa bestial, precisamente porque nos força a estar bem connosco. Essa aprendizagem – por muito longa ou dolorosa que possa parecer – não tem comparação com a liberdade, força e coragem que vamos ganhar.
Quem evita estar sozinho vive sempre em medo. Tem medo do pode vir a acontecer e de como se vai sentir. E caso tenha alguém, vai estar sempre com medo de perder essa pessoa. Por outro lado quem está bem consigo, está bem com toda a gente: saber estar a sós consigo mesmo, muda a forma como se está com qualquer pessoa.

Vais ficar sozinho

Estar sozinho, mesmo quando gostariamos de estar acompanhados, não tem que ser um drama.
Querias estar a ver filmes com a pessoa de quem gostas, e não estás. So what?
Querias ter companhia a dar um passeio ou almoçar fora, e não tens. So what?
Querias poder falar do teu dia e como te estás a sentir, e não podes. So what?

Basta de dramas. O que fazemos com o tempo que nos é dado? Lamentamos-nos do que não temos e como ninguém nos compreende, ou fazemos alguma coisa em relação a isso?

Os problemas enfrentam-se, não se evitam. Temos que aprender a viver a nossa vida, sozinhos. Não porque não podemos confiar em ninguém, ou porque o mundo é mau, mas porque mais ninguém o vai fazer por nós. Há coisas que vamos sempre viver sozinhos quer seja porque naquele momento não há ninguém, ou porque não podemos falar, ou simplesmente porque não adianta nada partilhar.

Claro que ninguém quer estar sempre sozinho, nem sentir-se abandonado. Mas nos momentos em que ficamos a sós connosco, ou os aproveitamos ou não. Seguramente já experimentámos momentos em que estamos sozinhos e estamos óptimos. Momentos em que vivemos o que temos e aproveitamos isso ao máximo. Viver assim é uma escolha nossa: se ninguém cuida de nós, então cuidamos nós.

Só uma coisa é garantida: vamos ficar sozinhos. E isso vai ser bestial.

37 Respostas to “Vais ficar sozinho. E isso é bestial”

  1. Marta Ferreira 29 de Março de 2015 às 13:24 #

    Um texto simplesmente fantastico. Levei tempo a entender por mim que estar sozinho nao e mau porque nunca estamos sozinhos, estamos sempre com nos mesmo! E so a vantagens , porque vemos a mudanca em nos mesmo e na vida ao redor.

  2. dcfc 9 de Maio de 2014 às 13:06 #

    Reblogged this on A Idade do Céu.

  3. Sonia Enes Silva 6 de Fevereiro de 2014 às 23:10 #

    GOSTEI, especialmente da “troca” de ideias entre a Ana e o PAF!

  4. Débora Rodrigues 12 de Janeiro de 2014 às 15:43 #

    Bem, precisava de “ouvir” isto. Excelente post, está a ajudar-me imenso na luta que eu quis empreender: viver sozinha, por opção própria, mas não por muito tempo, espero. :)

    • Tiago 23 de Maio de 2014 às 17:16 #

      Ola

      • Philipe Serra 23 de Maio de 2014 às 23:49 #

        Olá Tiago – Parece que ficaste sem palavras. Tenho 57 anos e estou sózinho no Porto à bastante pouco tempo. A solidão custa bastante, mas podemos ultrapassá-la. Se estiveres perto e quiseres falar, tomar café, passear então conta com um amigo. É só marcares….

  5. ac 18 de Dezembro de 2013 às 14:47 #

    Tudo um pouco relativo. Estar sozinho sim é importante, conhecer-nos sim é bastante importante, a necessidade de estar sozinho para nos conhecer-mos é importante. No entanto, valorizar o estar sozinho ao ponto de ser quase uma necessidade, parece-me um pouco exagerado.
    É necessário entender que estar sozinho é extremamente diferente de ausência de relações sociais. Não me entra na cabeça de forma alguma que a ausência de relações sociais poderá contribuir positivamente em algum aspecto na vida de um ser dependente de outros a todos os níveis. Sim, necessitamos da certeza que vai existir sempre alguém que de alguma forma nos valoriza. Estar sozinho é importante no sentido em que ajuda a auto-valorização, ajuda repito, porque a maior parte das situações em que nos sentimos bem com nós próprios provém de situações relacionadas com terceiros. Entendo perfeitamente o ponto de vista aqui apresentado e acho, sem dúvida, de todo o interesse, principalmente como forma de reflexão para todos nós. Afirmo apenas que, quem passa realmente por momentos de solidão (não me refiro a estar sozinho), seja por motivos profissionais ou pessoais, com certeza não consegue pensar exactamente de forma positiva.

    Momentos a sós SIM, mas q.b.

  6. ana nunes 30 de Novembro de 2013 às 19:06 #

    Ah mas eu adoro cães e gatos! e não vejo porque isso tem que ser associado a solidão

    • Inesperado.org 3 de Dezembro de 2013 às 9:58 #

      Olá Ana!

      É verdade ! Não há problema nenhum em comprar um cão desde que não seja pelas razões erradas, i.e, uma pessoa não saber estar sozinha.
      E por sinal há cães bem bonitos ;)

  7. Mariana 14 de Novembro de 2013 às 15:08 #

    Nem sei o que diga, parece que este post foi feito para mim e na altura certa! Vim para a faculdade em Lisboa e estou a viver sozinha, eu que venho de uma terra pequena e familia grande, em que a casa estava sempre cheia e havia sempre sitios para ir, tudo era a pé de tudo. Já estava naquela fase: “preciso de ir viver sozinha”, estava ansiosa por ganhar a minha propria liberdade, poder convidar quem quisesse sem ter que justificar, ser dona de mim própria. E no entanto tem sido a pior fase da minha vida, entusiasmei-me demasiado e agora sinto-me completamente perdida. Vivo longe de tudo, não tenho carta de condução e é muito difícil conseguir que me visitem porque estou numa zona quase que isolada, pouquissimos transportes, ou gasto imenso dinheiro em táxis ou tenho que fazer por tudo para estar em casa antes do anoitecer por ser uma zona perigosa também. É horrivel e muito disso deve-se ao facto de, como percebi agora, não gostar de mim e por isso ter medo de ficar só comigo, acho que a excessiva convivência comigo me leva a pensar que não tenho mais ninguém senão eu mesma, e realmente não gosto disso. Tudo o que escreveu no inicio deste post é exactamente como me sinto. Melhor, como me sentia. Muito obrigado, do fundo do coração. Vou aprender a gostar de mim e de estar comigo, cuidar de mim.

    • João F. 18 de Dezembro de 2013 às 15:54 #

      Olá, de que terra é proveniente? passei exactamente o mesmo, e senti exactamente o mesmo, embora hoje a situação seja um pouco diferente a solidão por vezes instala.se aliando-se à tristeza, mas é mesmo uma questão de habito e de adaptação, nao fez amigos na faculdade?
      cumprimentos

  8. Ana 13 de Novembro de 2013 às 12:36 #

    Será? Pergunto eu. Será que tememos a solidão porque temos medo de nós próprios?
    Olhando para mim, que sou apenas mais uma exemplar da espécie humana, devo admitir que sim, a solidão assusta-me. Mas será que me assusta a solidão por eu não gostar de mim e ter medo de olhar para mim própria? Acredito que não. Até porque, questionemos-nos, o que são os nossos espelhos? Serão os espelhos da casa de banho em frente aos quais nos penteamos todas as manhãs? Ou serão as pessoas com quem interagimos no quotidiano e cujas construções (dialógicas, simbólicas, afetivas, etc. e tal) partilhamos ainda que parcelarmente com outras pessoas. Estamos numa rede! (Não, não é no facebook!!!) Estamos numa rede social e nós somos apenas um fragmento dessa rede. E, enquanto seres humanos, precisamos, até biologicamente, de estar conectados a outras pessoas. É uma perspetiva organicista? Ok, é. Mas deixemos a ciência e o pensamento sociológico de parte, sim? Foquemo-nos em nós. O que somos nós se não fizermos parte de um qualquer grupo social? Que identidade teremos? O que é um EU desconectado de qualquer atividade social? Seremos auto-suficientes? Conversaremos connosco próprios sobre mil e um temas até debatermos todos os pontos de vista possíveis para chegarmos a uma conclusão? Olharemos para nós próprios sob todos os pontos de vista possíveis até nos conhecermos profundamente? Mas que ideia é essa de que os humanos vivem bem sozinhos? Não tem qualquer cabimento.

    Somos profundamente interdependentes de outros a várias escalas – desde a satisfação das nossas necessidades básicas (não se enganem, a comida é produzida por outros e a sanita também) até à satisfação das necessidasdes de realização pessoal (sim, estou a pensar na piramide de Mazlow). Como nos conseguiremos sentir realizados sem partilhar essa realização com quem nos rodeia? Não partilhamos todos os dias inúmeros acontecimentos com colegas de trabalho, colegas de escola, amigos, namorados e maridos, pais ou avós, primos ou vizinhos ou com o Sr. TalTal da mercearia do bairro? Podemos, sim, chegar a casa e não lá estar ninguém para além de nós próprios. Mas até lá chegarmos há um sem número de gente que nos reflete no seu olhar e nas suas palavras e são esses os espelhos a partir dos quais construimos a nossa imagem pessoal. E, outra vez, não se enganem – não é preciso falar para interagir e suscitar um espelho nosso noutrem – basta sair de casa e trocar um olhar com alguém, basta entrar no autocarro e entrar num jogo de linguagem não-verbal intenso com as inúmeras pessoas que lá estão, basta sentar no café ou no bar da escola/trabalho e, sozinhos, ouvirmos a conversa da mesa ao lado e emitirmos silenciosamente o nosso juízo (de facto ou de valor) sobre o tema em questão… basta sermos gente, estarmos vivos e não vivermos numa cápsula negra.

    Ora, a razão que julgo ser motivo de medo na solidão é difusa. Tem, provavelmente, que ver com a ausência de espelhos mais íntimos, nos quais possamos depositar a confiança de mostrar o que está para além da fachada social. Terá, certamente, que ver com a nossa necessidade de afeto, que nem sempre se obtém em doses adequadas nas interações “de rua” (no trabalho, na escola, no autocarro ou no café do bairro). Tem, provavelmente, que ver com a nossa necessidade de construir laços amicais, amorosos, conjugais, parentais, etc. e tal… É que, na grande rede social em que estamos inseridos, há vários grupos aos quais queremos pertencer. E vá, não sejam pretensiosos ao ponto de argumentaram que não, não precisam de pertencer a grupo nenhum. É que, nessa posição, pertencem ao “grupo” dos que não querem pertencer a mais grupo nenhum, e provavelmente estarão a partilhar traços identitários com essas pessoas, vossos similares, mesmo que não as conheçam ainda. E, se algum dia as conhecerem, é provável que sintam uma identificação mútua que sustentará um processo de aproximação e construção de laços…

    Por outro lado, sim, é verdade: o exercício de estar só, por momentos ou fases na vida, é profícuo e pode auxiliar-nos no processo de maturação identitária. Pode ser sinal de independência e de autonomização emocional. Mas, a longo prazo, pode ser um fator de débil saúde mental, um despoletador de uma espécie de falta de inteligência social ou até de uma qualquer sociofobia que nos impeça de socializar com outras pessoas e nos amarre a uma espiral de solidão e isolamento. Não se enganem, portanto, os que julgam que a solidão é benéfica. Não é por acaso que as sociedades mais individualistas têm mais elevadas taxas de suicídio ou de depressão. Os sorrisos, os abraços, os beijos, as carícias, as gargalhadas com amigos, os rituais de tomar o café ou ir jantar fora, os conflitos (os saudáveis, diria eu), assim como a competição, a cooperação, a solidariedade e entreajuda, são coisas que fazem de nós humanos. E, disso, não podemos fugir. É por isso, parece-me, que estar só nos assusta. Já que sabemos que, em última instância, não podemos contar apenas connosco próprios para sorrir, acariciar, ser solidário ou conflitar. Qual é piada disso? Vão sentar-se em frente ao espelho o resto da vida cada vez que vos apetecer um beijo, um sorriso ou merecerem um puxão de orelhas? Vão beijar-se a vocês próprios e puxar as vossas próprias orelhas? Vão fazer amor convosco próprios para sempre? Vá lá, aceitem que não há mal nenhum em não gostar de estar só, e que não há nada de errado em sentir a solidão como algo assustador. É assustador porque nos entristece. E a tristeza prolongada tem efeitos nefastos na nossa saúde e estrutura psicológica. O que é perfeitamente humano. E não tem nada de bestial.

    • MSG 13 de Novembro de 2013 às 16:45 #

      Penso que não foi nada disto que o inesperado quis dizer, mas sim que a verdadeira aprendizagem é saber estar com os outros (em relações profundas e vrdadeiras) E AO MESMO TEMPO (não é mutuamente exclusivo) saber estar sozinho sem medo. São absolutamente necessárias as duas coisas, o que, podendo paracer uma contradição, não o é de todo.

      • Ana 13 de Novembro de 2013 às 17:43 #

        Resume-se tudo ao amor próprio e à relação que este estabelece com o feedback dos outros (dito grosseiramente, sim). Do que discordo é de sermos capazes de ter e manter amor próprio se não estivermos em relação com outros (sejam as relações de que tipo forem). Mais uma vez, nós vemo-nos através dos espelhos que são as outras pessoas, e da nossa capacidade reflexiva e crítica sobre nós próprios. Mas essa só se consegue em relações maduras com outras pessoas (sejam as relações de que tipo forem). Se não tivermos relações enriquecedoras, dificilmente teremos amor próprio, e dificilmente estaremos bem connosco próprios (sozinhos ou não).

        • PAF 13 de Novembro de 2013 às 19:08 #

          Olá Ana,
          Não sei se é o primeiro artigo que lê do inesperado, mas outros posts abordam exactamente esses temas, e este post aparece (não digo na sequência) mas construtivamente sob um trabalho de fundo que já vem de outros posts anteriores. Mas não quero alongar e responder em nome do autor, mas a minha interpretação é que em todo o caso, muito do que a Ana diz é verdade, mas o desafio que é lançado neste post é conta-ponto da sua discórdia “sermos capazes de ter e manter amor próprio se não estivermos em relação com outros” não de uma forma permanente, (porque não se quer a solidão), mas que devemos preparar para momentos em que vamos estar apenas connosco e tentar perceber que isso também tem algo de bestial – eu tomar consciência de mim mesmo é relacionar com mim próprio – para depois voltarmos às interacções fora do meu eu, com outros … O inesperado até diz no final – “Claro que ninguém quer estar sempre sozinho, nem sentir-se abandonado. Mas nos momentos em que ficamos a sós connosco, ou os aproveitamos ou não” –
          Resumindo: Ninguém esta a dizer que não tem mal escolher ficar sozinhos, o que se esta a tentar dizer é que podemos ficar (circunstancialmente) sozinhos e não temos que ter medo disso – porque pode ser bestial. E uma ressalva, a atitude/visão do post não incide sobre potenciais circunstancias mais traumáticas, onde sim, precisamos de facto da nossa rede de pessoas.

          • Ana 14 de Novembro de 2013 às 10:33 #

            Olá PAF,
            Sim, foi o 1ºpost e 1ª vez que li o inesperado! Entretanto já li outros posts e acho-os todos bastante interessantes e instigadores de debate e reflexão!

            Repare só que eu não quis impor a minha visão do tema. O meu comentário foi longo, sim, mas só porque me dispus a refletir um pouco sobre a questão, e porque, embora o post tenha uma atitude positiva (que me soou certeira à 1ª leitura), fiquei com a sensação de que era positiva demais em determinadas circunstâncias e que, em certas afirmações, impõe sobre os nossos ombros uma certa “culpabilização” por temermos a solidão (quando o autor diz, algures, que tememos a solidão porque tememos ficar connosco próprios e que isso acontece porque não gostamos de nós). Creio que, neste ponto, é precisa alguma prudência, só isso. Ficar a sós e olhar para dentro é absolutamente positivo em certas circunstâncias, diria até que é necessário numa sociedade que está sempre a bombardear-nos de modelos identitários, mas temer estar só é também algo normal. E é aí que termino o meu argumento, porque é sobre esse ponto que acho que deve incidir uma certa cautela. Estar só é bom, circunstancialmente e por vontade própria, acrescentaria. Estar só porque, apesar de queremos, não temos ninguém com quem partilhar a vida ou certos dos seus momentos, pode ser problemático se for uma coisa prolongada. E também me parece que a ressalva deve recair noutro ponto – estar só será tão ou mais bestial quanto melhor estivermos nas nossas relações, pois são elas que nos alimentam a auto-estima e auto-confiança e nos dão uma sensação de bem-estar mesmo quando estamos sós (é claro que nem todas as relações produzem esse efeito, mas diria que quanto mais adultas e amadurecidas forem, mais o conseguirão). Só isso. Portanto, estar só pode ser bestial, desde que não seja norma, nem seja uma afirmação de que somos emocionalmente auto-suficientes (nem dependentes, por outro lado, claro!). E sim, nos momentos “traumáticos” (que não referi no texto) precisamos indubitavelmente da nossa rede de pessoas, concordo plenamente. Embora, e veja só outro lado (já o 3º!) desta moeda: quanto mais traumáticos forem os acontecimentos, mais os sentiremos de forma individualizada, mais tenderemos a pensar que ninguém à face da terra nos compreenderá (porque nos tocam profundamente). E, aí, por muitas e boas pessoas e relações que tenhamos, esses acontecimentos obrigar-nos-ão a olhar para nós próprios e a viver a sós sentimentos que são apenas nossos… Mas isso daria mais um debate! :)

        • PAF 14 de Novembro de 2013 às 11:53 #

          Ana,
          Continuo a perceber a sua interpretação, e o alcance da mesma, e é óptimo porque ajuda a perceber ainda melhor o propósito deste post. A prudência que refere é uma em que certas afirmações procuram trazer “responsabilização” (que é uma atitude) e não de “culpabilização” (que é um sentimento) – i.e.: ter uma atitude ativa e não passiva perante a solidão – aqui não é conseguir ignorar a solidão ou assumindo-a negativamente, mas assumi-la de uma forma que exige gostar mais de mim. O Inesperado por vezes exemplifica os seus temas com uma exigência por vezes sobre-humana, precisamente para que o objectivo máximo não seja atingido, mas que o ponto abaixo seja igualmente bom. É como um discurso de motivação a jogadores por parte do treinador – “se vão entrar no jogo com essa atitude digo-vos já que o jogo nem começou e já estão a perder por 1-0.”

          Eu até concordo com a afirmação do Inesperado “Na realidade o que nos assusta não é uma coisa exterior a nós. O que nos assusta somos nós.”, a minha concordância esta na interpretação que dou à afirmação (não sei se a correta, muito menos se a melhor) – mas vejo-a no sentido de que não devemos ficar assustados com nós próprios (precisamente porque é normal), porque vamos – logo à partida – precisar de nós mesmos para viver o presente e o futuro – para mesmo que fiquemos sós, ficar bem com isso – é estar confortável nessa circunstância (porque tem coisas bestiais [boas]) – e sim, como diz a Ana (e o inesperado) não é porque tem coisas bestiais que depois devemos permanecer nela, mas as vezes podemos e devemos ficar sós mesmo contra a nossa própria vontade – porque depois e mais capazes, o (ainda) melhor é exactamente a expansão do meu eu (gostei muito da frase “estar só será tão ou mais bestial quanto melhor estivermos nas nossas relações”) – e não me parece que o inesperado se contradiga – até porque como dizem o tempo (as vezes prolongado) tem razões que o coração desconhece.

          Por ultimo, o inesperado depois diz “E como muitas vezes não gostamos de nós próprios… fazemos tudo para não estar sozinhos.” – não há problema em fazer de tudo para não estar sozinhos, mas que isso seja uma resposta a outra causa que não o facto de “não gostarmos de nós próprios” – “a cautela” que a Ana pede é a mesma que pede que estejamos atentos à natureza/causa das nossas respostas, e se calhar antes de fazer de tudo para não estar sozinho devo procurar gostar um pouco mais de mim, e de me conhecer melhor, e ai perceber que devo fazer “tudo-X” para não estar sozinho. Esse “-X” é muito valioso e ganhar consciência do “-X” e da sua importância, e de quando usufruir dele é um marco no crescimento nosso e com outros – porque só uma coisa é garantida: vamos ficar (mais vezes do que gostaríamos) sozinhos. E isso vai (pode) ser bestial.

          • Ana 14 de Novembro de 2013 às 18:55 #

            PAF,

            Digo-lhe uma coisa. Tenho a certeza que o Inesperado, assim como eu, está sorridente neste momento. Só o facto do post despoletar tanta reflexão da nossa parte já é motivo de orgulho. E quanto mais plurais as interpretações, melhor! É, pelo menos, sinal que nos dispomos a pensar sobre os temas, quer a sós, quer em diálogo com outros!

  9. Anónimo 12 de Novembro de 2013 às 23:21 #

    O ser humano é e sempre vai ser um ser social! não se fosse bom ficar sozinho penso que as pessoas já se tinham dado conta disso durante tantos séculos… não é saudável! É claro que as pessoas têm que ter um bom autoconceito, mas têm que estar constantemente a receber feedback do exterior, é assim que construímos a imagem corporal e o EU.. Achei bastante interessante este texto, mas parece-me apenas uma desculpa de uma pessoa que se sente bastante sozinha e se apercebe do porquê… não é que necessariamente uma crítica, mas um elogio…!

    • Rute 13 de Novembro de 2013 às 9:26 #

      Uma desculpa??? Por favor… mas alguém precisa de “desculpas” para estar sozinho?
      Quem escreve um texto destes sabe perfeitamente “onde está” (independentemente de “com quem”) e não tem que se justificar perante ninguém!

    • PAF 13 de Novembro de 2013 às 10:28 #

      Gostaria que explicasse melhor o que é “um ser social”, porque ainda pode ser que coincida com uma das ideias trazidas no texto que “Quem evita estar sozinho vive sempre em medo.” – e convido também a conhecer melhor as histórias, de por exemplo, os monges que estão em clausura, vivem sozinhos, sem desculpas e não se sentem solitários e até socializam – mesmo no silêncio.
      Assim queria também lhe explicar que, na minha interpretação, o autor do texto quando se refere a situação de “Vais ficar sozinho. E isso é bestial” não esta a querer dizer “solitário”, mas apenas procura explicar que podemos (e vamos estar em mais do que uma ocasião) estar sozinhos, e estar bem com isso, e não temos que ficar reféns da circunstância e desses momentos.

  10. Maria José Santos 12 de Novembro de 2013 às 22:07 #

    omo sempre estava precisando “ouvir” com todos os sentidos , ISTO!
    Inesperado. És sempre Inesperado e acertas bem no meio do coração

  11. Joana Leal 12 de Novembro de 2013 às 18:13 #

    Confesso que quando vi o título fiquei reticente em relação ao que vinha aí, mas como sempre sabes surprender bastante bem!
    Bom artigo devia ser lido e entendido por todos… Já nascemos todos mais do que completos! Muito bom mesmo!

    Continua! =)

  12. Rute 12 de Novembro de 2013 às 16:10 #

    Muito bom!
    Sempre quis viver sozinha e, infelizmente, esse passo foi “forçado” pela vida: fiquei sem a minha grande companhia / amiga / confidente de anos, e companheira de casa, que era a minha mãe. Foi um cancro que a roubou da minha vida e essa foi a minha maior perda até agora (e provavelmente de toda a vida…). Contudo, sim, vivo bem sozinha. Vivo muitíssimo bem comigo! Digo sempre que a minha melhor companhia sou eu :) Há momentos em que a tal perda ganha proporções enormes, mas até nesses momentos ficar sozinha é bom. Basto-me eu. O que vier a mais, é ganho :) para mim e, concerteza, para QUEM vier.
    Obrigada. Adorei!

  13. Matilde Torres Pereira 12 de Novembro de 2013 às 14:39 #

    fantastico artigo à excepcao da parte de comprar um cão! uma pessoa pode gostar de estar sozinha e ser mentalmente saudável e mesmo assim ter um cão! bjs

    • Inesperado.org 12 de Novembro de 2013 às 14:42 #

      Verdade Matilde! Não há problema nenhum em comprar um cão desde que não seja pelas razões erradas :)
      e há cães bem bonitos…

  14. maria 12 de Novembro de 2013 às 14:38 #

    Quantas pessoas vivem e comunhão com alguém e estão sós? (Existem casais que vivem como desconhecidos) deitam-se na mesma cama,já se julgam acompanhados, é realmente muito triste, quando a nossa prisão está no preconceito da sociedade .

    • Óscar Wild 12 de Novembro de 2013 às 16:19 #

      =D

      Naturalmente & que pela ausência de comentários corroborativos e/ou não (…) – é evidente: o “tiro” – no centro, da… “muge”!
      De facto esta é que é a mais miserável, de & nas… “solidões”!

      Muito mais grave do que se comprar, um “cão” – o comprar-se – a companhia… “solitária”!

      Com tanto passado de/no conhecimento – mais ou menos geral – continua-se sistemáticamente, preterindo por e em se… “errar”!
      Naturalmente julgo que – a solidão – anda de sempre parelha com:
      – O ou não… sentimento de posse.

      Daqui partimos para & no da “gula” e pioramos o “estado”…
      – marchamos até ao da “gula” e estragmos a… aguarela.

      Como eles são muitos mais do que sete, vou beber um café – sósinho – mas muito bem… acompanhado!

      =D

  15. E aos 30 12 de Novembro de 2013 às 14:19 #

    Vai muito de encontro àquilo em que acredito.
    Se me assusta ficar sozinha? Imenso, mais do que gostaria de admitir. Vem talvez de não estar sozinha há 13 anos.
    Mas se esse medo me vai prender a uma relação sem futuro nem sentido? Não.
    Porque já percebi que e preciso crescer, evoluir, e isso tenho que fazer por mim, antes de o poder partilhar com outrém. Como diz a anónima ali em cima, faz-me falta o carinho, faz-me falta o aninhar, e chateia-me ter dificuldade em arranjar companhia para fins-de-semana ou ferias. Mas faz-se, e aproveita-se o melhor de uma situação que não foi prevista, mas aconteceu

    Gostei muto de te ler

  16. Anonim(o) 12 de Novembro de 2013 às 14:15 #

    @Anonima Olha que ainda não te conheces o suficiente para dizeres que estás farta de ser auto-suficiente… Com isso significa que segundo as tuas palavras, precisas de alguém que te complete, e isso não vai existir, porque esse alguém só existirá na tua cabeça… Em relação ao amor, todos temos amor, seja sozinhos ou acompanhados, basta abrir os olhos e o coração, só sentimos o amor se partilharmos o amor, se partilharmos o nosso coração e o que sentimos com o mundo, não é fechar em 1000 paredes, ser auto-suficiente e queixar-se que se está farto de o ser. Sai à rua, partilha o que tens que partilhar, sem vergonha, sem condição que logo logo esse sentimento desaparece, mesmo estando sozinha….

  17. João Delicado 12 de Novembro de 2013 às 10:33 #

    Demorei anos a perceber essa coisa que ouvia sempre de “temos de saber estar sozinhos para sabermos estar com os outros” mas é uma grande verdade. Nós também somos constituídos pelo outro… mas se não há um eu… tornamo-nos uns seres amorfos que vivem em função do exterior. E Deus criou-nos com coluna vertebral! ‘Brigado por mais uma reflexão desafiante!

  18. Filipa Félix Machado 12 de Novembro de 2013 às 9:35 #

    Já não é a primeira vez que o título me deixa de pé atrás mas depois o texto dá completamente a volta e é um verdadeiro abre-olhos, neste caso, abre-corações. Gostei da provocação!

  19. PAF 12 de Novembro de 2013 às 9:15 #

    Muito bom post, e na verdade este post só poderia aparecer um tempo depois do (teu) processo de “maturação” de posts anteriores. Este tema é muito importante para a vida das pessoas, um dos maiores segredos será compreender e saber como estar sozinho.. com outros ao lado – e é também um dos processos de crescimento para a vida adulta mais difíceis e longas.

    Entendi que o teu ponto era que vais ficar sozinho (não necessariamente solitário) e isso é bestial? correcto? Concordo, e até acho que no meio de tanto meios de “partilha” há cada vez mais pessoas a isolarem-se porque pensam que como “já partilhei” – as pessoas já deviam saber de mim!

    Ainda hoje vi o seguinte video: http://vimeo.com/70534716

    continua!

    abraço!

    • João Delicado 12 de Novembro de 2013 às 10:35 #

      Obrigado pelo vídeo! Muito pertinente! A chamar a atenção para os perigos desta espécie de ‘corrida ao ouro digital’!

  20. Anonima 12 de Novembro de 2013 às 2:37 #

    Ficar sozinho não vai ser uma coisa bestial, não mesmo porque ficar sozinho implica não ter neguem que me faça um carinho, que me preste atenção ou me atenda a um desejo que eu gostaria me fosse proporcionado por outro….um carinho, um beijo, uma festa na cabeça, o calor de alguém a meu lado que me ame, que me diga que sim quando preciso de um sim ou que me diga um nao quando eu mereço um nao
    Estou farta de ser auto-suficiente. A auto suficiência em todas as vertentes da vida é contra natura. Consegue se mas não nos enche na plenitude!

  21. Anónimo 12 de Novembro de 2013 às 0:16 #

    Obrigado por comunicares tão bem com o meu ‘eu’ racional!

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