A força do bipolarismo.

4 Jun

1. Distúrbio bipolar: forma de transtorno de humor caracterizado pela variação extrema do humor entre uma fase maníaca, hiperatividade física e mental, e uma fase de depressão,  lentidão para conceber e realizar ideias, e tristeza. (Isto é o que nos ensinam os senhores que trabalham na cabine da wikipedia.)

Mas nós vamos rebentar com esses senhores, e tomar no nosso regaço uma definição mais leviana de bipolarismo: a capacidade de nos alegrarmos muito e de nos entristecermos muito. Tudo isto muito rapidamente. Ou seja, a capacidade de viver nos extremos, no mesmo dia, na mesma hora.

2. Às vezes passamos muito tempo a tentar estar no meio. Viver sem ondas, sem chatices, sem imprevistos. Viver serenamente num estado de limbo, sem tristezas que doem ou sem alegrias que exaltam.  A verdade é que os que estão sempre no meio são uns chatos. Ou então uns resignados. Muitas vezes quem quer uma vida sem exaltações já está meio morto, mesmo sem o saber. Mas para quem vê de fora, é fácil reconhecer um cadáver.

3. Pois bem, parece que o que nos faz falta é um certo bipolarismo. Ou seja, falta-nos a capacidade de estar nos extremos, sem nos assustarmos demasiado com isso. É tão bom ver malta apaixonada. A discutir, a gritar, a fazer disparates. Bem melhor do que aqueles namorados mornos, com sorrisos complacentes e e atitudes moles.

Devíamos ser maníacos. Dançar e gritar de alegria. Ter ataques de riso, e rir dos que se riem de nós.
E também saber estar triste. Levar isso a sério.  Até com fúria. É 100 vezes melhor ver alguém irritado com as coisas que doem no coração e no mundo, do que os indiferentes, já cheios de resignação mal maquilhada.

inesperado.org_força do bipolarismo

4. Isto revela uma certa saúde. Ainda que louca. É bom uma pessoa alegrar-se e entristecer-se genuinamente. Este bipolarismo saudável ajuda a ir libertando a pressão, e a gozar a vida a cada momento. Beber uma cerveja fresca com todo o gozo do mundo, e de seguida levar uma má notícia, com a devida tristeza.

Às vezes a malta quer aguentar ali na estabilidade e tranquilidade demasiado tempo, e depois acaba por acumular tanta pressão, que ao chegar aquele sms ou aquela boca,  pumba liberta-se o monstro! Colega, isso era desnecessário. Bastava ires-te rindo –  sem adiar a alegria que te é dada agora – ou chorando – fazendo luto do que perdeste –  e estarias bem melhor.

5. Fait attention! este bipolarismo nada tem que ver com ser manipuladora, caprichosa e fazer cenas. Nem com malta sempre a mudar de opinião, sem nenhum compromisso de fundo com a vida. Trata-se de ter desportivismo e humor quando se está nos extremos, sem fazer grandes dramas. O bipolarismo não nos impede de tomar decisões consistentes de longo alcance, antes nos traz leveza na forma como encaramos este segundo (o que acabou de passar).

6. O bipolarismo funciona nos 2 sentidos. Às vezes assustamo-nos com a rapidez com que nos vamos a baixo com qualquer coisinha –  tantas vezes coisas que nem percebemos de onde vêm – mas da mesma forma também podemos de repente ficar autenticamente alegres.
Do melhor podemos ir para o pior, mas do pior também podemos ir para o melhor. E isso é bom para não levarmos demasiado a sério nenhum dos momentos. They come and go. 

7. Como dizia o Pablo Neruda: evitemos a morte em doses lentas. Evitemos ser mornos.
Libertemos antes a força bipolar que vive dentro de nós,  para viver com coração todos os momentos que temos, sem dar demasiada importância a dramas.

A vida é uma aventura, e os mornos ficam de fora.

10 Respostas to “A força do bipolarismo.”

  1. Luis 30 de Julho de 2017 às 7:31 #

    Excelente texto . Uma forma inovada de abordar o tema

  2. Mariana 6 de Junho de 2013 às 23:14 #

    No meu caso (não sei se te acontece ou se pensas nisto) racionalizo por vezes demais, ou antes na direcção errada. ultimamente, por algum motivo estranho (ou talvez por uma coisa chamada “maturidade”) estou muito mais atenta aos meus defeitos, às reacções que os outros têm ao que digo ou faço e também à forma como eu própria reajo. às vezes, esta “auto-pressão”, este estado-alerta total para mim mesma, acho que exacerba o que se passa e me leva mais ao extremo, ou seja, vivo numa bipolaridade maior… graças a Deus isto não esta diagnosticado (se calhar ainda ahah). mas de qualquer forma é sempre o primeiro passo estar “atenta aos sinais” não é?

    E no teu ponto 4 acertas mesmo. Eu acumulo pressão duma forma brutal, em épocas de mais stress noto claramente quando me acontece. Há uma espécie de terapia sos que adopto (com algumas nuances que variam). Passeio à fnac, com um chocolate ou um café a seguir, ou o cinema… qualquer coisa que me tire de mim, depois faz-me voltar retemperada. um dia li para uma Cadeira (e não cadeira) que este período de tensão tem um nome qqr na psicologia; é um momento de tensão e “irracionalidade” depois dum conflito, por exemplo, e o tempo que se leva a esfriar depende de pessoa para pessoa. nada que não se soubesse já… mas sempre dá um certo consolo!!

    Mais uma vez parabéns!

    • Inesperado.org 12 de Junho de 2013 às 11:44 #

      Boa Mariana, é fabuloso teres cada vez mais consciência de ti. Mesmo que nos extremos de arrancar cabelos, aha ah

      Concordo, até acho que nos faltam escapes, ou melhor: sabermos onde podemos aliviar a pressão, sem ser preciso dar tiros em almofadas (como no analyze this)!

      • click here 22 de Abril de 2014 às 12:15 #

        You’re a real deep thinker. Thanks for sharing.

  3. sofia 4 de Junho de 2013 às 16:58 #

    cada vez gosto mais deste blog. Sigo a pouco tempo, mas já li praticamente todos os artigos aqui colocados! Alguns até reencaminhei para amigos, para depois saudavelmente discutirmos o assunto!! Dos melhores para mim até hoje, O Desistir ou Resistir parte I e II, pois tem muito a ver com uma fase de vida actual!! Parabéns.

  4. PAF 4 de Junho de 2013 às 16:03 #

    Interessante.. e terapêutico!
    Por isso devemos ambicionar a felicidade extrema, sabendo que no caminho (no ir e vir) tambem poderemos passar por uma tristeza extrema. Mas que o que nos domina deve ser o objectivo não a circunstancia.

    • Mariana 6 de Junho de 2013 às 23:17 #

      O objectivo e não a circunstância… fantástico, gosto disso. Uma espécie de estrela, sempre. Obg, ainda bem que li isto.

    • Inesperado.org 12 de Junho de 2013 às 11:42 #

      Touche. Obrigado noivo

  5. Anónimo 4 de Junho de 2013 às 7:25 #

    Espantosamente verdadeiras, as coisas que disseste aqui!

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