Coitadinho do crocodilo e as marcas de roupa

10 Abr

No outro dia estava frio. E por baixo do casaco e da camisola, tinha vestido um polo da Lacoste.
Dei por mim a pensar: “Olha que raio, uma marca com tanto prestígio, e eu nem a mostro?
Ainda pensei em tirar as camadas de cima, para ficar com o pequeno crocodilo à mostra, espalhando sorrisos para os lados, mas preferi não apanhar a pneumónica.

Isto fez-me lembrar aquela anedota:


Estava a selva com demasiados animais e o rei da selva – o leão – decidiu que tinham que matar alguns. (gosto deste preâmbulo, como se esta situação fosse uma coisa razoável).
O rei da selva convocou todos os animais e disse que como eram muitos, teve que arranjar um critério para eliminar uma espécie de animal, e escolheu que teria de morrer o animal com a boca maior.
De seguida ouve-se o hipopótamo a fazer beicinho e boca pequenina e a dizer: coitadinho do cocodilo…

Pois bem, nós acabamos por ser este hipopótamo. Um bocado risível e a escapar-se da sua responsabilidade. Porque usamos roupa de marca? Para mostrar ou porque nos sentimos bem?
Sem dúvida que o crocodilo é confortável, e de boa qualidade. Mas é igualmente caro.
O que me leva a pensar quanto estou disposto a pagar por certas coisas? E geralmente a resposta é: pouco.

Mas depois é engraçado ver como em alguns casos entra ali num lado emocional, “eu preciso desta camisola e também destas calças . AGORA”.E aqui tiro o chapéu (ou o polo), ao trabalho que algumas marcas fazem. Marcas que conseguem vender uma garrafa de água a 20 euros ou um relógio a 30mil euros. Trabalham incansavelmente a percepção que nos tornaremos melhores ou mais bonitos se comprarmos aquela marca específica. Se uma marca de papel higiénico consegue ser sexy tudo é possível. (Já agora, não esquecer para que serve o papel higiénico, e onde acaba).

Precisamos mesmo tanto das últimas botas da Timberland, ou das novas calças da Levis?
(A sensação que tenho é que a maioria das mulheres já largou o artigo a meio. É desconfortável bem sei. Homens, continuemos.)
Atenção! Acho que há coisas boas que valem apena. Há casacos e sapatos que duram uma vida. Há investimentos que valem a pena. Mas custa-me a ideia de desperdiçar dinheiro, especialmente numas calças que temos absolutamente que comprar agora, para usá-las daqui a 8 meses, numa festa (de máscaras).

Tendo 5 euros ou 100 euros no bolso para gastar em roupa há perguntas que ajudam:
Quantas vezes conto usar nos próximos 2 meses esta roupa?
Sendo muito sincero comigo, isto é assim tão essencial para mim?
Tenho realmente dinheiro para gastar nisto, ou já me sinto fora de pé?

Que venham antes os polos nikie e tudo o mais. O cavalo da Ralph Lauren duplicado e com ar atrofiado e tantos outros bonitões. E que venham também as marcas com igual dose de consciência do que podemos gastar e do que valorizamos cada coisa.

Estes são tempos que exigem de nós criatividade. É bom ver pessoas com pinta. Especialmente uma pinta low cost. Afinal é mais sexy encontrar uma boa oportunidade e ter imenso gozo nela, do que esbanjar dinheiro em necessidades que não são reais.

Nota ao leitor:
O polo referido da Lacoste foi comprado em 2ª mão e por 5 euros. Uso-o naturalmente com o dobro do orgulho. Já está meio esfarelado. Afinal, coitadinho do crocodilo.

17 Respostas to “Coitadinho do crocodilo e as marcas de roupa”

  1. Francisca Lopes Pinto 17 de Abril de 2012 às 9:22 #

    João, nao estou a perceber porque é que me chamaste de homem neste artigo só por o ter lido até ao fim! Não abuses

  2. Vera Ferreira 12 de Abril de 2012 às 14:19 #

    :) :) Só passei mesmo para te dar os parabéns :) :) É uma barrigada de riso sempre que passeio por aqui…***

  3. Miguel Bandeira 10 de Abril de 2012 às 21:54 #

    ahah joão, já mandei umas gargalhadas à custa do post. A minha imaginação já voava bem alto na altura do papel higiénico sexy, quando me cortaste completamente as vasas. Mas quem não gostaria de ouvir isto seria o presidente da Renova, que disse há uns tempos numa entrevista que li, que queria fazer do papel higiénico Renova um objeto de desejo tal como é o iPad, por exemplo. Vejamos como isto evolui..
    abraço

    • Inesperado.org 12 de Abril de 2012 às 10:02 #

      Pois é Miguel! E não duvides que vão conseguir, eles são excelentes a trabalhar o Marketing!

    • Marina 17 de Maio de 2013 às 5:23 #

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  4. Virgínia Cardoso 10 de Abril de 2012 às 14:39 #

    heheeheheheh….eu não parei ao meio!!!!!!! Se bem que há algo a ressaltar com a questão das marcas que é a percepção de qualidade associada ao produto….se eu preciso de uma camisa, hei-de querer uma que possa usar por um bom tempo e, nesse raciocínio uma marca as vezes trás essa garantia de bom e durável. No entanto, creio que as vezes que se atinge um ponto de não procurar o bom/qualidade, passando-se a procura da marca pelo status que ela dá. Acho que há sempre um trade-off nestas escolhas…

    • Inesperado.org 12 de Abril de 2012 às 10:01 #

      Olá Virgínia, concordo contigo – um bom ponto de vista económico ajuda :) ou seja, há sempre trade-offs e balanceamento de escolhas!

  5. Anónimo 10 de Abril de 2012 às 13:37 #

    João, não fazia mal nenhum o Polo ser original. Caíste na esparrela do teu artigo de quereres mostrar o contrário. Gostaste de mostrar que o polo que parece fino afinal foi barato :-D
    Um grande abraço
    Jam

    • Inesperado.org 10 de Abril de 2012 às 13:47 #

      Obrigado pela dica João! O que queria mostrar é que no fundo é possível misturar o melhor dos 2 mundos, boas marcas a preço baixo. Usando criatividade :)

      • Filipa 11 de Abril de 2012 às 15:55 #

        Curiosamente, só é possível misturar o melhor dos 2 mundos porque há pessoas que não querem, por nada deste mundo, sair do mundo das boas marcas e entrar no mundo dos preços baixos. Se não tivesse nascido o senhor que comprou o polo da Lacoste (por qualquer que tenha sido a razão) ou o tivesse usado até ficar tão ruço que se rasga na próxima lavagem, não terias escrito sobre o coitadinho do crocodilo. Já viste o que perdíamos? Um post inesperado e tu num polo de alta qualidade.

  6. Mariana 10 de Abril de 2012 às 11:45 #

    Há de facto- como dizes e bem- investimentos que valem a pena. Bem posso comprar uns sapatos na Seaside que uns mesinhos depois já nem sola têm. Mas umas botas da Timberland fazem uma estação, e podem ser usadas em todo-o-terreno, completamente à bruta… Quando as marcas são de qualidade, valem a pena.
    …Quando não são, valem a pena na nossa cabeça. Outra pergunta: porque se vende maquilhagem? A maquilhagem é um monte de químicos, colorantes, resinas, etc etc. Mas como disse um dia o CEO duma marca de cosmética,“In the factory we make cosmetics. In the drugstore we sell hope.”. Pode questionar-se tudo isto; mas a verdade é que as pessoas precisam de comida para a autoconfiança- mesmo que acabem por a pagar cara… (Se isso está bem ou não é que já é outra conversa!)

  7. Anónimo 10 de Abril de 2012 às 11:37 #

    Aderi ao inesperado porque achei ser uma lufada de ar fresco na forma de “dizer”. Gosto, gosto muito, mas hoje… ah!, aquela das mulheres deixarem de ler o artigo a meio… não se faz, ou melhor, não se escreve. Vou continuar a receber no mail as vossas conversas e a divertir-me com as coisas sérias ditas a brincar. Obrigada.

    • Inesperado.org 10 de Abril de 2012 às 12:41 #

      Obrigado pelo comentário “Anónimo”. Como deves calcular era apenas uma brincadeira porque as mulheres têm tendência a comprar mais roupa, e talvez um artigo destes não agradasse a essas compras :) Não tem nada a ver com as mulheres “serem menos inteligentes” ou lerem menos!
      Espero que continues a aparecer, e ler até ao fim :)

      • Anónimo 11 de Abril de 2012 às 9:44 #

        Ok, está feito. Decididamente estou fã. É curioso este bichinho da conversa online, vim de propósito verificar se havia alguma coisa nova e encontrei a resposta ao meu comentário. Ah , é verdade, não sou anónima, chamo-me Maria (que é quase o mesmo).

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