A força de um entusiasmo

29 Abr

Há alturas na vida em que somos levados por um entusiasmo. É como se alguma coisa pegasse fogo dentro de nós e ficássemos apaixonados por um certo aspecto da vida. Pode ser um projecto que nos cativa, uma pessoa que nos atrai ou uma ideia que nos fascina. É uma sensação maravilhosa.

Passado algum tempo, o que normalmente acontece é que o entusiasmo começa a diminuir, e as dificuldades multiplicam-se.
O projecto que nos cativava afinal tem mil obstáculos, a pessoa que nos atraía tem defeitos que nos incomodam e a ideia que nos fascinava já não parece assim tão interessante.
Quando o entusiasmo começa a pesar nas costas, o que costumamos fazer é largá-lo e partir à procura de um próximo. Pode ser que o próximo nos realize mais do que este. Pode ser que nos deixe mais tempo entusiasmados. Vamos assim de experiência em experiência sempre à procura de mais entusiasmo. Viajamos para imensos países, lemos muitos livros, sobrecarregamos agendas com programas e temos mais paixões do que podemos recordar. Mas nada disso nos satisfaz.
inesperado.org - a força de um entusiasmo
Estamos convencidos que quanto mais entusiasmados nos sentirmos, mais estamos a viver. Mas nem sempre é assim.
Chegamos a achar que uma coisa que não nos entusiasma não tem valor ou não vale a pena.
Mas quem diz que aquele trabalho que parece uma seca não vai ser uma boa surpresa? Quem diz que aquela pessoa que não valorizamos pode-se tornar num dos nossos melhores amigos? Quem diz que aquele projecto que achamos ridiculo não pode ser a nossa grande vocação?

Queremos sempre entusiasmos fáceis, sem complicações e cheios de gratificação. Fazemos birra quando alguma coisa nos custa ou traz alguma adversidade, e acabamos por nos portar como crianças que querem sempre um brinquedo novo.

A verdade é que é uma ingenuidade querer estar sempre entusiasmado. O entusiasmo é uma parte maravilhosa da vida, mas não é a vida. O entusiasmo é um extra. Não vivemos para estar sempre entusiasmados. O entusiasmo é um bónus que nunca sabemos quando vai chegar.

A maior parte das vezes, enquanto procuramos um novo entusiasmo, temos um trabalho inacabado em cima da secretária que já devia estar terminado. Há alturas em que temos é que trabalhar e amar, mesmo que não apeteça nada.

A autenticidade de um entusiasmo não se descobre nos momentos extraordinários, mas na vida do dia a dia. Só quando descobrirmos quanto estamos dispostos a sacrificar por um entusiasmo é que sabemos a verdadeira força que ele tem.

Podemos ficar numa atitude infantilóide de quem quer uma vida cheia de entusiasmos, ou então podemos crescer, arregaçar as mangas, e fazer alguma coisa com o que temos pela frente.

Se por acaso optarmos por levar cada entusiasmo até ao fim, com toda a tenacidade e criatividade, bem para lá do ponto em que o chamamos entusiasmo, então aí estaremos em condições de largar o que já não nos faz sentido, ou quem sabe… deixar-nos surpreender por um novo entusiasmo que surge de onde menos esperávamos.

8 Respostas to “A força de um entusiasmo”

  1. 3 de Dezembro de 2014 às 23:40 #

    Este texto fez-me lembrar, no fundo, aquela ideia da ilusão. Achamos que sabemos e conhecemos o caminho que estamos a pisar, mas, algures nele, perdemo-nos e deixamo-nos vencer pelas dificuldades que o mesmo nos apresenta. Mesmo a parte das dificuldades, penso que é isso que mais distingue as pessoas umas das outras. Tudo depende da motivação, a intensidade com que um objetivo e uma meta estão inculcados numa pessoa, sendo que quanto maior a mesma (intensidade) for, menos a pessoa desvia o olhar do objetivo e mais preparada, posteriormente, se torna, de forma a conseguir encarar as dificuldades de uma outra perspetiva.
    Muito obrigado pelas palavras. Uma reflexão muito bem conseguida.

  2. November 3 de Maio de 2014 às 15:49 #

    Reblogged this on Cold November Rain.

  3. Sandra Branco 29 de Abril de 2014 às 16:32 #

    A catapulta para a realização nem sempre está lá quando a caminhada é em piso recto.

  4. Ana 29 de Abril de 2014 às 9:23 #

    Adoro esta vossa escrita descomplicada e tão real. Por vezes, por estarmos embrenhados nesta vida caótica e nesta sociedade cheia de falsos moralismos, esquecemos-nos de parar, respirar, pensar e refletir. Mas depois, à terça-feira, lá vem mais um post que nos ajuda com esse trabalho.
    Obrigada.

  5. Ana 29 de Abril de 2014 às 8:18 #

    Palavras que digo muitas vezes: “…então podemos crescer, arregaçar as mangas, e fazer alguma coisa com o que temos pela frente.”
    Arregaçar as mangas!
    Nem mais!

    Obrigada por esta leitura, logo pela manhã!!!

  6. Luisa 29 de Abril de 2014 às 8:16 #

    Fantastico texto(como sempre) para refletir
    logo pela manha que e o melhor do começo dos dias..

    Fantastica reflxão,,talvez porque nunca em tao pouco me revejo nestas palavras..

    Pois,,e que isto de ser feliz ou la como lhe queiramos chamar ..dá trabalho,,então assim comá assim..bora la aproveitar o entusiasmo que tera menos efeitos colaterais ..(ou nao) ::)
    Obrigada pela partilha,

  7. maria mundo 29 de Abril de 2014 às 2:14 #

    Boa noite!
    “Quando o entusiasmo começa a pesar nas costas, o que costumamos fazer é largá-lo e partir à procura de um próximo. Pode ser que o próximo nos realize mais do que este.” Grande realidade!
    Já me ri com o que aqui se diz. É que na verdade muitas são as vezes que mais parecemos crianças que facilmente se aborrecem dos brinquedos.
    Mais uma vez, adorei a reflexão.
    Talvez devido ao adiantado da hora, faltam-me as palavras, mas este V/sentir resume bem o que é necessário fazer quando por vezes nos falta o entusiasmo:”Há alturas em que temos é que trabalhar e amar, mesmo que não apeteça nada.”
    Obrigada por esta boa partilha.
    abraço
    maria

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  1. Work in progress << Da vida e do que (podemos) fazer para a vivermos bem #3 | Por Outras Palavras… - 30 de Abril de 2014

    […] que quanto mais entusiasmados nos sentirmos, mais estamos a viver. Mas nem sempre é assim. Chegamos a achar que uma coisa que não nos entusiasma não tem valor ou não vale a pena. Mas quem diz que aquele trabalho que parece uma seca não vai ser uma boa surpresa? Quem diz que […]

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