Estás a ficar para trás.

13 Nov

Há alturas na vida em que sentimos que estamos a ficar para trás.
Que os outros já nos ultrapassaram. Que vão lá à frente, e que para nós resta apenas um caminho sem grandes oportunidades.

Este sentimento acaba por nos tocar de tantas maneiras diferentes:
Estás numa corrida – literalmente – e não consegues acompanhar o resto do grupo. Atenção que isto começa nas aulas de ginástica do secundário quando a malta do tabaco fica sempre para o fim.
Deixaste cadeiras para trás na Universidade. Os teus colegas do primeiro ano já estão de curso feito (e barba feita) e tu ainda andas a pedir apontamentos emprestados a malta com menos 5 anos que tu (e sim, tens a barba por fazer).
Nunca mais começas a trabalhar. Já anda o resto da malta a cavalgar as consultoras com salários que te fazem corar, e ainda andas a acabar umas cadeiras e a procurar trabalho.
Já tudo saiu de casa dos pais, e andas tu, já perto dos 30, a pegar-te todos os dias com os teus pais, por não teres deixado a cozinha arrumada (e também não apagaste a luz do corredor).
Elas já estão casadas e tu não. Sabes bem o que é isto porque já começas a ir a muitos casamentos do teu grupo de amigas, e vês que não há nenhum príncipe à tua espera para dançar contigo na pista.

Ora bem. Não apetece nada, mas esta sensação bate a muitas portas. E pode moer o juízo, como aquelas campainhas que não se calam:
“Olha para elas, têm namorado e tu não tens ninguém.”
“Estou atrasado 3 anos no curso.”
“Tenho um trabalho desinteressante e não faço o que sinto que sou bom a fazer.”
“Está tudo em forma e eu só ganho peso.”

Este é o discurso habitual da nossa cabeça, e o que nos andam a dizer por aí. Vamos antes aproveitar para ver a coisa de uma perspectiva inesperada. Vamos ver 9 vantagens de quem fica para trás:

1. Espreitar bem para a frente
Se estás atrás, podes ver melhor o que quem está à frente faz. Hmm, interessante… ele fez aquela escolha de carreira e não resultou. Eles já têm 2 filhos mas têm que abdicar de tempo para aquilo… Ele já acabou o curso, e teve aquelas dificuldades…
Podes aprender muito com o percurso dos outros. Não pegues já na catana para desbravar a selva se há um trilho melhor.

2. Mudança de direcção
Se estivesses na aula de ginástica e o prof. dissesse que agora a meta é no início do percurso, tu estarias mais perto do final. Às vezes o jogo muda de um dia para o outro, e o sítio onde estás, e a tua experiência, pode ser o melhor que te podia acontecer. De último, passaste a primeiro.

3. Maior liberdade para correr riscos
Não tens assim tanto a perder. Ainda não conquistaste uma grande carreira, nem tens grande coisa a fazer-te sombra. Podes surpreender e correr riscos que mais ninguém é capaz de correr. Lança a tua ideia marada, vai falar com a morena que está ao balcão ou vai correr às 6 da manhã.

4. Confiança à grande
Se estás para trás e tens plena consciência disso, para avançares tens que ter uma grande confiança que as coisas vão melhorar, ou que tu vais melhorar. Vais confiar que as coisas boas chegam para todos. E isso faz-se passo a passo numa ginástica diária de confiança. E isso torna-te um Chuck Norris da confiança. E sabes bem que o Chuck é forte. Muito forte.

5. Eu percebo isso
Se já ficaste para trás na carreira, sabes bem o que dizer a quem se sente assim. Ao teres uma experiência difícil, e sabendo lidar com ela, tornas-te um expert e tens uma compreensão que vai ajudar muita malta. Fala lá das cadeiras que deixaste para trás na faculdade com o teu primo que está à rasca. Fala dos 10 quilos que perdeste e como o fizeste. Esse “eu percebo isso”, vai ajudar muita gente.

6. Corredor de fundo
Há por aí malta que parece que está muito à frente mas depois estoira cedo. Como aqueles putos que vão para a Maratona do Tejo e vão a sprintar a 25 de Abril toda. Chegam ao fim da ponte, e já os Quenianos estão a passá-los.
Não andes aí aos sprints malucos. Se estás atrás, guarda energia para as corridas de fundo. Tal como na vida.

7. Humildade
Vais voltar ao teu tamanho real. Não andes aí feito pavão. Não tentes estar à frente em todas as áreas da vida. Vais ficar mal. Estares atrasado na Faculdade vai-te trazer uma noção de humildade. Ao não trabalhares num sítio invejável, tens uma melhor aproximação ao teu tamanho. Ao estares atrás tens uma oportunidade gloriosa de tornares mais humilde.

8. Alguém espera por ti
Se ficares para trás, vais poder ver com quem contas. Aquelas pessoas incríveis que te dão o braço, que te levantam quando já não acreditas, que te empurram para ir mais longe. Por estares atrás, vais reparar como há pessoas especiais que esperam por ti, e te vão levar mais longe. A malta que te empresta os apontamentos, que te motiva para o trabalho, que te desafia para ires correr.

9. Comeback kid
Everyone loves a comeback kid! Toda a gente gosta de uma história inspiradora. Alguém que contra todas as adversidades foi capaz de se reinventar e conquistar o jogo. Um exemplo vivo que nos faz querer ir mais longe. Precisamente por estares atrás e isso te fazer doer o coração, tu podes ser o comeback kid.


Estás a ficar para trás. Mas não és o único. 
O Steve Jobs ficou para trás. Nelson Mandela, Oprah Winfrey, Silvester Stallone, Winston Churchill.
Vamos juntar-nos aos crescidos, e sermos uma inspiração também.

25 Respostas to “Estás a ficar para trás.”

  1. ze carvalho 7 de Fevereiro de 2014 às 16:41 #

    Texto inspirador, parabéns

  2. dcfc 5 de Fevereiro de 2014 às 13:27 #

    Reblogged this on A Idade do Céu.

  3. Filipa 15 de Janeiro de 2014 às 14:11 #

    Como me identifico nas tuas palavras. Ao longo do meu pequeno curso na vida (27 anos precisamente), com bastantes altos e baixos. A entrada na faculdade aos 21 anos, desistir, entrar noutro curso, desistir, mudar de faculdade, desistir, mudar outra vez de faculdade, continuar. Com isto passou-se 5/6 anos e cá estou eu, com colegas de faculdade com quase uma década de diferença de idades, com amigos que trabalham, com vidas mais ou menos organizadas, casamentos, alguns com filhos, e eu, na casa dos pais, sem curso, sem casamento e com algumas angustias, muitas dificuldades, medos, inseguranças, etc. O pensamento “não consigo, vou desistir” sempre presente. Mas continuo aqui. E com isto quero agradecer as tuas palavras. É mais uma força para continuar

    Sinceramente

    Obrigada

  4. Mary 5 de Janeiro de 2014 às 17:12 #

    Concordo com quase tudo o que li. Já me senti assim, aliás penso que a maior parte das pessoas vivencia essa sensação algures no percurso sinuoso da vida. Só tenho pena que o inesperado, seja tão pouco inesperado no facto de “só as mulheres quererem casar”, ou quererem ter uma relação amorosa recíproca, de “só os homens serem infiéis e olharem para a mulher do vestido encarnado”…enfim. Compreendo que é escrito por um homem, mas o público que lê é de ambos os sexos, parece-me já um pouco “batido”, além de inverosímil esse tipo de discurso…!
    Sugiro que seja dada uma atenção maior a esse aspeto – talvez entrando mais no mundo feminino, e ficarão artigos bem mais próximos de todos nós, melhores ainda!
    Parabéns!

  5. Cátia 17 de Dezembro de 2013 às 23:19 #

    Sinto-me assim: para trás. A vida deu várias voltas no presente ano de 2013 e fiquei para trás. Identifico-me com todos os textos que escreves. A retirar das várias experiências alheias é que a vida não pára de dar voltas e na altura certa a luz aparece lá ao fundo do túnel.

    Obrigada.

  6. Josué 4 de Dezembro de 2013 às 1:54 #

    É… meu amigo! Muito legal o teu texto. Já deixei duas faculdades para começar um curso novo (de Direito) que me apetece bem mais que os que havia feito antes. Encontro-me com 23 p/ 24 anos, e fiquei bem mais tranquilo depois deste texto. A angústia às vezes me pega, confesso. Fico pensando: “E se fizesse diferente há 3, 4 anos atrás. Poderia estar melhor, mais adiantado na vida.” Mas hoje, só eu sei da experiência que ganhei, por isso vou seguindo aqui o meu caminho, na humildade, no trabalho duro e na perseverança… O resultado há de chegar. É só uma questão de tempo.

    Um abraço de desde Juiz de Fora, Brasil.

    • Inesperado.org 4 de Dezembro de 2013 às 15:41 #

      Obrigado Josué pela sua partilha :)
      Parabéns pelo esforço e preserverança, que venham os resultados!

      Tudo de bom!

  7. Andreia 13 de Novembro de 2013 às 0:04 #

    Este post é literalmente a voz da minha consciência nos últimos anos,sem tirar nem por!! Como é bom ser compreendida.

  8. Anónimo 5 de Novembro de 2013 às 1:09 #

    Hoje li pela primeira vez o teu blog, comecei com ‘as 5 coisas que não precisas’ e pensei: ‘alguém me compreende’. Fui lendo e lendo e percebi que o meu pensamento, os meus problemas ou até os mesmo os meus dilemas foram sentidos e escritos por alguém, não sou mesmo a única.
    Obrigado! :)

  9. Catarina Nicolau Campos 24 de Setembro de 2013 às 15:54 #

    João, fantástico. Obrigada pelo bem que me fizeste hoje ;)
    Um beijinho grande

  10. Matilde Paiva 15 de Novembro de 2012 às 18:35 #

    “Se alguém quiser ser o primeiro, há-de ser o último de todos e o servo de todos!” Bjs M

  11. Margarida Vazquez 14 de Novembro de 2012 às 11:31 #

    Muito bom! Há tempos que sigo o teu blog e acho fantástica a forma como consegues aproximar-te de toda a gente. Inspiras e fazes pensar, mas não de uma forma superior ou armado em “carapau de corrida” (expressão que vinha mesmo a calhar), mas fazendo com que nos identifiquemos contigo. Só tenho a agradecer. Continua por favor! ;)

    • Inesperado.org 14 de Novembro de 2012 às 19:12 #

      Ola Margarida,

      Sinto-me honrado pelo teu comentário. Dá-me alegria e força para continuar!

      Obrigado

  12. Pedro Castro 14 de Novembro de 2012 às 2:29 #

    Simplesmente FANTÁSTICO João! Deveras inspirador que diga-se de passagem, numa altura como a que atravessamos, tudo é posto em causa, em tudo se põem em causa e, penso que ainda pior, NÓS nos pomos em causa e as nossas capacidades idem. Obrigado por este post Fantástico! Grande abraço amigo, P.C.

    • Inesperado.org 14 de Novembro de 2012 às 19:11 #

      Grande Pedro, obrigado pelo teu comentário :)
      Concordo contigo, acabamos é no fundo por duvidar muito de nós e acabamos por ficar muito para trás…
      Abraço!

  13. Sofia Ferreira de Lima 13 de Novembro de 2012 às 23:32 #

    Perfeito para ler nesta altura! Gostei muito John, obrigada! beijinho grande , Sofia FL

  14. João Delicado 13 de Novembro de 2012 às 21:17 #

    Grande nível, sim senhor! As ‘9 vantagens’ são um dom espiritual que nos deixas! E parece-me curioso não caíres na tentação de arranjar mais uma, só para fazer 10. A mim sugere-me que as próprias vantagens estão incompletas, em desvantagem, à espera que sejamos nós próprios, cá ‘de trás’, a completar.

    O teu texto fez-me lembrar as minhas corridas – que são uma actividade mais gráfica, mais literal para ver logo o tema em andamento. Hoje espanto-me como no 7º ano chegaram a chumbar-me… em Educação Física (!!!), e tive que passar pela vergonha de fazer um exame extra que mais ninguém fez (um vexame, portanto)… Longe estava de imaginar que – anos mais tarde – viria a praticar mais desporto que qualquer dos ‘ídolos desportivos’ daquela minha turma do 7º ano, que viria a participar em provas de Pentatlo Moderno e de Triatlo com muitos momentos de glória mas, sobretudo, de gozo interior. Agora, continuo a correr com regularidade, mas as minhas verdadeiras corridas são outras. E as primeiras dão força às actuais.

    E, quanto a este blogue… não está nada a ficar para trás! Qualquer dia, ê-z-ê, ê-z-ê [ler à Diácono Remédios] quem fica para trás… é a tua humildade! Hahaha.

    • Inesperado.org 14 de Novembro de 2012 às 19:09 #

      Grande Delicado!
      Obrigado pelo que contas. Na realidade tive mesmo para assumir que o 10º era para ser preenchido por cada um, depois deixei passar :) acredito de qualquer maneira que há mais uma multidão de ideias que vão neste sentido!

      Sei bem quanto corres, só não sabia das tuas vergonhas na idade do Secundário, ahah!
      Espero que um dia te tornes num diácono mas sem remédios…
      Abraços

  15. Mariana 13 de Novembro de 2012 às 16:41 #

    Obrigada por este Post, João. Tenho passado muito tempo ultimamente a pensar nisto. Sinto-me a ficar para trás numa área em específico. Acho que estou muito adiantada noutras… Mas aquela em que estou para trás magoa-me bastante. Tenho o pensamento de que “nunca lá vou chegar”. É absolutamente irritante- por mais que me tente convencer de que as pessoas têm timings diferentes. Na minha opinião, o maior erro que se pode fazer numa situação destas é pensar que a culpa é nossa. Que estamos a ficar para trás porque não estamos a correr demasiado depressa. Aí pode acontecer (muito provavelmente) que nos estatelemos e façamos ainda pior figura. A temperança, a fé e a paciência são virtudes de ouro. Que tenhamos provações para que as pratiquemos. Que nos tornemos perfeitos a esperar pelo momento certo, pelo passo certo, pela decisão certa ou pela pessoa certa. Obrigada de novo, inspiraste-me e foste muito claro nos conselhos!

    • Inesperado.org 14 de Novembro de 2012 às 19:07 #

      Ola Mariana!

      É muito bom ler a tua partilha. Acho que tens toda a razão, é bom ver que é neste mesmo caminho que nos transformamos :)

  16. Diogo 13 de Novembro de 2012 às 15:15 #

    Uiii este tema foi um grande risco que tomou seu João! Que coragem abordar um tema tão sensível para muita gente! Li com grande expectativa, angustia quase, ao ver que punha o dedo na ferida, e eu no suspense de saber se haveria uma luz ao fundo do túnel… E heis que nos apresentou logo 9 perspectivas inesperadas e super positivas! Ahaha respiro, alegre e esperançoso!! “Hoje ‘e o primeiro dia, do resto da minha vida” ;) Obrigado!!

    • Inesperado.org 13 de Novembro de 2012 às 15:17 #

      Também eu respiro alegre e com mais esperança.
      Afinal não estamos assim tão para trás…

  17. Anónimo 13 de Novembro de 2012 às 12:37 #

    Muito bom e muito pertinente este post! Mesmo com 28 ou até 18 anos (porque ficaram a fazer melhorias e os amigos já tão todos na faculdade), há sempre pessoas com o sentimento de “ficarem para trás”! Parabéns!

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