Desistir ou resistir?

21 Mai

Desde já convém dizer que quem escreve estas linhas é um notável praticante dos comportamentos descritos de seguida…

Ui que sono
Ui estou estoirada
Ui não me apetece nada
Ui isto já não dá pica
Ui afinal é uma seca

Estes pensamentos parecem pipocas a saltar. As nossas cabeças andam esgazeadas, estoiradas, moídas e os desafios que quisémos há uns tempos, já estão a cobrar a sua factura. Está a ser difícil e queremos largar os compromissos que assumimos. Metemos-nos em missões, projectos e ideias  – todos bestiais – mas depois falta-nos a força para os levarmos até ao fim.

O namoro começa a dar chatice, saltamos fora
A tese já pede umas olheiras e apagamos a luz
O excel pede mais umas células e já estamos a fechar o PC
O cliente pede mais uma coisa e assobiamos para o lado

Sim, sim, ao início era tudo brilhante e promissor. Agora damos por nós e estamos nas trincheiras.
Uma gritaria, confusão, tudo escuro e muita lama. Namoros, trabalhos, amizades, testes, ideias, todos acabam por sugerir em voz mansa: se calhar é melhor desistir…

Pois bem. Então qual o problema?
O problema é que deixa lastro.
Achamos que não, mas a malta à nossa volta, percebe que andamos a saltar de compromisso em compromisso. Percebe que não podemos ser levados a sério, porque não levamos as coisas até ao fim.
Olha lá vai aquela que muda de namorado a cada estação.
Olha lá vai aquele que muda de curso todos os anos.
Olha lá vai aquela que está no seu 14º estágio profissional
Deixamos um lastro de descrença à nossa volta.

Qual o problema?
O problema é que deixamos de acreditar em nós.
Estamos a deixar ruínas cá dentro. Coisas que ficaram a meio, que não levámos até ao fim. Ninguém lá fora sabe, mas nós -  por muito sonsos que sejamos connosco – sabemos o que  não cumprimos. Sabemos que não honramos a nossa palavra. Que estamos a deixar cair a toalha sem dar tudo por tudo.
Fazemos tantas promessas a nós mesmos -  vou correr 2 vezes por semana, vou cuidar do meu namorado, vou ser mais disponível para a minha família – que simplesmente não cumprimos. E por quebrar tantas vezes as nossas promessas, já nem acreditamos na nossa própria palavra. Duvidamos da nossa capacidade de levar uma coisa até ao fim.

Qual o problema?
O problema é que é um vício.
Voltamos à idade do triciclo. Todas as semanas queremos uma coisa nova. Mais gira, mais brilhante, mais gratificante. Com mais açúcar sff. Quando começa a não ter graça, damos um chuto no balde, e siga para a próxima Vanessa.
O que assumimos ao inicio como uma coisa que queíiamos apostar- um projecto social, uma tese, uma ideia, uma amizade, uma viagem – agora é rapidamente substituído por uma ideia nova, bem mais promissora. E ficamos infantilmente viciados em novidades.

Toda esta conversa não quer dizer que as circunstâncias, as prioridades e as pessoas mudem… Mas simplesmente acaba por acontecer que deixamos muitas vezes as coisas a meio, e raramente as levamos até ao fim.

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Porquê continuar a lutar?
É que quando as coisas parecem impossíveis, quando nada parece resultar, normalmente estamos a uns milímetros de fazer a coisa acontecer!
Uma curta diferença de atitude perante este desafio, pode fazer uma grande diferença no longo prazo. É como dar uma tacada de golfe, em que basta a diferença de uns milímetros agora mesmo ao acertar na bola, para a diferença ser de dezenas de metros lá à frente. Milímetros aqui dão dezenas de metros lá à frente.

Daqui a 5 anos, lembramos-nos das coisas que levámos até ao fim ou das que foram ficando pelo caminho?
Orgulhamo-nos das coisas em que metemos todo o coração e todo o esforço, ou das coisas que fomos desistindo?
É que não é de espantar que nos apeteça desistir. Há altura que temos o corpo e a cabeça moída de tanta pancada. De tanto insistir e nada correr como planeado. O desvario apetece sempre mais que a fidelidade.

Mas pode ser que aquilo que tanto queremos – e que tanto nos foge – esteja aí mesmo a aparecer em grande. Basta pôr mais uma hora, mais um dia, mais uma semana. Mais entrega, mais sangue, mais lágrimas.

A água ferve aos 100 graus. Aos 99 não passa nada. Basta mais um grau.
Esta ideia pode ser aquela que vai mudar esta macacada toda.

(E mesmo que não seja… estamos a tornar-nos em pessoas que nunca antes fomos.)

Não percebes nada

14 Mai

Temos imensos conhecimentos. Sabemos nomes de pessoas, curiosidades, histórias e sítios.
Sabemos medir as coisas. Temos métricas, critérios e opiniões. Sabemos compreender as coisas. Fazemos análises, explicações e lógicas. Aprendemos a fazer muitas coisas diferentes, desde escrever um email a temperar uma salada.

Mas apesar de sabermos tanta coisa, por vezes não percebemos puto do que acontece connosco. Não percebemos uma dor de coração, não percebemos o que realmente nos faz felizes nem para onde estamos a ir.
Muitas coisas permanecem misteriosas apesar de ficarmos horas a olhar para elas.

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E isto chega a ser violento porque é difícil aceitarmos que não percebemos nada. Temos a ambição de saber tudo, sobre tudo. Temos uma secreta vaidade de ter uma opinião sobre tudo. Uma certa arrogância ao ter certezas sobre as coisas. Gostamos de compreender porque é que os outros fazem aquelas coisas. E nós estas.

No meio deste terreno de dúvida e ausência de respostas, algumas ideias amigas podem trazer consolo:

Ir mais fundo.
É bom procurar muito. Ter muitas perguntas. Querer saber mais da nossa realidade e da dos outros.
Esta ausência de respostas, obriga-nos a ir ao fundo. Redescobrir quem somos, o que queremos, e em que direcção estamos a andar. Ter perguntas e não ter respostas obriga-nos a viver de forma mais empenhada e fundamentar bem os nossos gestos.

Estar mais atento.
A Simone Weil dizia que a atenção é a forma mais pura de generosidade. Não compreender algumas coisas ajuda-nos a estar atentos. A estar à espera, em silêncio com olhos muito abertos. Como um pescador que está atento ao mar. A olhar para a superfície, sabendo que há em movimento no interior que não vê nem compreende.

Suspender o julgamento.
Somos uns chefes tramados connosco próprios. Pomos prazos impossíveis para resolver certos assuntos. Pomos prazos de validade na nossa vocação, nas relações, nos trabalhos. (E todos os prazos estão a caducar.)
O resultado tem que estar em cima da secretária naquele dia.O problema tem que estar resolvido.
Devíamos antes aprender a suspender o julgamento sobre o significado de certas coisas. Devíamos ser menos precipitados na interpretação do significado das coisas.

No meio deste terreno em que tanta coisa fica por compreender, precisamos sobretudo de aprender a ser muito mais pacientes connosco próprios. Precisamos de confiar muito. Confiar que há o bigger picture da bigger picture e que o sentido das coisas leva tempo a ser compreendido.
Só compreenderemos com nova verdade a nossa vida se tivermos uma paciência que supera a impaciência. Se vivermos com uma esperança para além do que se podia esperar.

Direito à insegurança

7 Mai

Falamos muito de segurança.

Segurança rodoviária, segurança no trabalho, segurança emocional e até fazemos descontos para a segurança social…

Mas e se falássemos antes da insegurança? Se falássemos antes das coisas que nos assustam, nos deixam vulneráveis e  inseguros?

Tomar melhores decisões V.

30 Abr inesperado, decisão, discernimento, coragem, escolher, mudança

A saga chegou ao fim. A loucura de escrever 5 artigos sobre as decisões que tomamos já está a deixar malta sem dormir noites seguidas, apenas à espera que isto acabe.  Parece aquelas séries que têm longos episódios até chegarem ao grand finale. Mas aqui não há final épico. Há só mais 3 ideias e um pontapé no rabo do leitor. Mas vamos de qualquer forma aproveitar o balanço, e ver como podemos tomar decisões menos cretinas:

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Dormir que nem um anjinho (tomar melhores decisões IV)

23 Abr

Embarcámos numa saga um pouco doentia para compreender melhor a nossa forma de tomar decisões. Já explorámos o que nos motiva a tomar decisões e também os critérios que podemos usar para decidir. Mas não vamos ficar por aí. Vamos ainda tentar arranjar formas de tomar melhores decisões, especialmente para evitar ficar com aquela sensação de “será que tomei a decisão certa?”. Ou seja, como podemos tomar decisões e ficar com a consciência tranquila?

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Kit Combate: melhores decisões parte III

16 Abr inesperado, combate, kit, coragem, mudança, reflexão, decisão

No último artigo vimos que não ajuda tomar decisões apenas para agradar aos outros. E isso despertou muitas perguntas secretas na cabeça dos amigos leitores:
“oooh sim está bem visto não querer agradar a todos, mas então que fazer para além disso?”
“iiih faz sentido, mas que critério uso nas minhas decisões?”
“aaah que interessante, mas que ferramentas há para decidir melhor?”

Vamos então criar uma espécie de Kit de Combate para conseguirmos tomar melhores decisões. Especialmente para quando tivermos à rasca.

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Tomar melhores decisões II

9 Abr inesperado, mudança, discernimento, critérios, coragem

No último artigo falámos sobre como tomar melhores decisões.
Na realidade ninguém falou, é uma força de expressão. Alguém escreveu umas palavras num teclado e outras pessoas leram esses disparates nalgum lado, talvez num cybercafé com música indiana a tocar.

Falámos sobre como escolher é dizer um sim e muitos nãos, sobre como não decidir é em si uma decisão, e por fim, como cada escolha abre sempre um futuro novo. Mas hoje vamos antes ver como melhorar o critério das nossas escolhas.

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