A despedida do inesperado

6 Jun

A despedida do inesperado.org
Queridos amigos leitores,

A vida surpreende sempre.
Todos os dias acontecem coisas que não esperávamos, coisas que levam a vida para onde não imaginávamos. E ainda bem que assim é.
Acontece que assim, depois de 111 artigos, o inesperado despede-se.

Tal como um dia começou esta história, também hoje termina.
Termina a história que começou com um simples desejo. Um desejo de olhar a vida de forma diferente, com mais esperança e com mais alegria. E esse desejo não parou até se tornar realidade. Uma realidade que cresceu semana a semana, artigo a artigo, palavra a palavra. Que cresceu porque tanta gente diferente se juntou ao caminho.

Pessoas que criticaram e pessoas que elogiaram. Pessoas a quem alguma ideia interessou, irritou ou cativou. Pessoas que não ficaram indiferentes.
E se isso aconteceu… foi porque os últimos anos foram passados à procura de respostas.
O que fazer com as surpresas da vida? Como lidar com a dor que vem ter connosco? Como viver melhor?

Com fragilidade e determinação, tornou-se obrigatório levar a sério estas perguntas. Perguntas que nunca deram tréguas.
E assim foi. Semana a semana, fizémos caminho juntos. Um caminho longo e difícil. Um caminho com muito cansaço, muitas dúvidas, muitas dificuldades. Mas que valeu a pena.
Tornou-se e torna-se claro que há apenas um caminho que vale a pena: manter a esperança acesa em nós, e nos outros. De mil maneiras diferentes, em mil dias diferentes.
Acreditar que todos as surpresas e que todos os imprevistos são uma porta para uma vida nova. Uma vida melhor.

O desejo de olhar a vida de forma diferente, com mais esperança e com mais alegria mantém-se aceso. Mas hoje, segue outros rumos.
Queridos amigos, que nunca nos falte a confiança, que nunca nos falte a esperança, que nunca nos falte o amor.

Um obrigado sentido a todos os fiéis leitores, que sempre inspiraram a escrever melhor, a pensar melhor, a viver melhor.
Com confiança que nos veremos de novo em breve…

Um abraço com muita gratidão e alegria,
O inesperado

As armadilhas dos consensos

3 Jun

Todos os dias recebemos uma dose generosa de coisas para fazer. Coisas como organizar a loiça numa prateleira, preparar um documento no trabalho ou escolher onde se vai passar férias. Muitas vezes são coisas que dependem apenas de nós, outras vezes são coisas que têm que ser decididas em conjunto.
Acontece que é muito comum querer gerar um consenso no que fazemos.
No caso de ser uma decisão a tomar sozinhos, queremos garantir que o que quer que escolhamos – os sapatos que vamos comprar, a viagem que vamos fazer, ou a mudança de carreira que queremos fazer – tem a aprovação de toda a gente. No caso de ser uma decisão conjunta, queremos garantir que toda a gente está alinhada e acha que certo caminho é o melhor.

Acontece que gerar um consenso, isto é, ter a concordância da maioria das pessoas, apesar de aparentar ser a decisão mais madura, mais democrática e mais equilibrada, pode esconder várias armadilhas. Vamos ver quais são e como evitá-las:

Armadilha 1: Querer que toda a gente pense como nós.
Muitas vezes temos a pretensão de achar que o mundo seria extraordinariamente melhor se toda a gente pensasse como nós. Por isso procuramos gerar consensos, mas que no fundo sejam à nossa maneira. Há certos tipos de consenso que mais se parecem com ditaduras, porque se está a forçar outras pessoas a pensar como nós.
Sobre o pretexto de gerar consensos começa-se assim a praticar uma violência permanente e silenciosa: manipular as coisas e as pessoas para que concordem com a nossa opinião. Mas acontece que o que não nos agrada tem direito a existir. Uma opinião diferente da nossa tem também direito a vingar.
O objectivo não pode ser persuadir – com mais ou menos força – toda a gente a pensar, ou a fazer como nós, mas antes ver como em conjunto podemos chegar a um entendimento mais profundo e a uma decisão mais justa. Num verdadeiro consenso é necessário estar disposto a abdicar de coisas que gostaríamos, para juntos, ganharmos mais.
É como se fosse andar de trotinete a 3, temos que estar alinhados para não nos espatifarmos.
armadilha do consenso
Armadilha 2: Agradar a toda a gente.
Há muitas pessoas que escolhem o caminho do consenso pela simples razão de querer agradar a toda a gente. Acontece que não só isso é tolo como é impossível.
Por exemplo, se no trabalho a definir um projecto quisermos agradar a toda a gente, estamos seguramente a garantir que o que vai sair dali é um Frankenstein que acabará por não agradar a ninguém. Em certos contextos é necessário assumir uma liderança e defender uma posição, mesmo que outras pessoas não concordem. Um pai não pode querer sempre agradar ao filho. Ora tomemos um pai que pergunta ao filho:
– Querido, o que gostavas de ter como presente nos anos?
– Pai, gostava de ter uma motoserra para brincar com os meus amigos.
– Isso não vai acontecer, ( e depois explica calmamente) porque gasta muita gasolina, ainda aleija alguém e limpar o sangue da alcatifa é uma chatice.

Armadilha 3: Pedir opiniões sem as ouvir.
Ao criar consensos gostamos de pedir opinião a outras pessoas. Mas isto de nada serve se não houver uma capacidade real de influenciar a decisão final. Consideremos um casal que está a pensar onde irá passar férias:
– Querida, onde gostavas de ir passar férias este ano?
– Gostava mesmo de ir apanhar sol para as Maldivas.
– Ah que boa ideia, mas já comprei bilhetes e vamos fazer um safari para o Quénia. Excelente não é?

Mais vale nem sequer pedir opinião se ela não for levada a sério. As pessoas sentem-se enganadas e manipuladas.
Mas isto não quer dizer que nunca se deva pedir opiniões. Há vezes em que a decisão já está tomada mas é saudável pedir opiniões, mas explicando isso com clareza: O orçamento para este projecto já está fechado, mas o que achas que poderíamos fazer diferente da próxima vez?

Haverá certamente mais armadilhas a evitar e mais coisas a dizer, mas a certo ponto é preferível fazer o que temos a fazer… e deixar de lado os consensos que tínhamos imaginado.

Produtivo como um calão

27 Mai

Ninguém gosta de ser chamado preguiçoso.
Ninguém gosta de ser considerado um calão que não faz nada do que devia.

Passamos décadas a ouvir dizer que temos que estudar, que temos que trabalhar, que temos que fazer coisas. O que até faz sentido, porque ficar na cama não paga aquelas facturas em cima da secretária.

No trabalho ensinam-nos a ser produtivos resolvendo muitos problemas e fazendo muitas coisas. E isso faz sentido. Se pelo contrário não fizermos nada, então oferecem-nos um par de patins e um empurrão encosta abaixo. O que também faz sentido.

Mas o problema é quando começamos a achar que tudo na vida são problemas para resolver, e que somos uns inúteis se não estivermos sempre a produzir.
Já não basta ter que fazer aquelas tarefas habituais – pagar facturas, tratar da casa, ir às compras – como tudo o que há para fazer se torna uma tarefa. A vida fica reduzida a uma to do list:
Jantar com a família. Check
Ir beber uma cerveja com um amigo. Check
Ir ao cinema ver aquele filme. Check
Fazer desporto. Check
Ler um bom romance. Check

Enchemos a vida de coisas que em si são óptimas, mas fazemo-las pelas razões erradas E no fim, sentimos apenas um vazio.
Parece que em nós há alguma coisa sempre inquieta, que se alimenta de problemas, e não pára de nos chatear se não estamos a fazer coisas. É aquela comichãozinha que sentimos se chegamos a casa e não fazemos nada de útil. Se passamos o fim de semana sem fazer algum programa fantástico, se andamos 10 minutos a pé sem fazer um telefonema.
inesperado.org produtivo como um calao
Tudo se torna num problema a ser resolvido, numa tarefa a ser feita. Nada nos descansa, nada nos basta. Como dar a volta a isto?
Talvez a resposta esteja na forma como um calão faz as coisas (ou deixa de as fazer). Vamos ver:

O calão vê divertimento, não vê chatices.
O calão encara a vida de uma forma radicalmente diferente: Ele está aqui para desfrutar e para se divertir. Tudo é uma festa, tudo é um divertimento.O que vier depois, resolve-se depois, agora é para curtir.

O calão está tranquilo.
Ele não se pre-ocupa com os problemas que irá ter. Ele está tranquilo como o esquilo. Na boa como a meloa. Ele ri-se dos problemas e anda sereno porque não fica minimamente aflito com o que não controla. O agora é para aproveitar, e se no futuro surgirem contratempos, então no futuro vão-se resolver.

O calão vive bem cada tempo.
O calão não divide a vida em tempos mortos e tempos úteis. Ele sabe que se não tiver tempo morto, acaba ele morto. O calão é especialista em tarefas inúteis. Em coisas que não dão retorno imediato. Fica horas a contemplar um quadro. Passeia sem destino pelas ruas da cidade. Fica noites a conversar com os amigos.

O calão desenrasca-se quando é preciso.
O calão sabe que às vezes não há volta a dar. Que é preciso trabalhar duro e resolver um problema. Mas ele sabe que na hora da verdade, ele fará o que é preciso. Terá a criatividade para resolver o que vier, terá a força para suportar o que acontecer e terá ainda o humor para fazê-lo com alegria.

O calão sabe o que vale.
Ele não precisa de fazer muitas coisas para achar que tem valor. Não precisa de resolver muitos problemas para ser importante ou para achar que é útil. Ele sabe o que vale, independentemente do que faz.

Com certeza que ao longo da vida teremos muitas tarefas pela frente, muitos problemas para resolver e muitas coisas para fazer, mas na altura em que dermos por nós demasiado preocupados com a produtividade… mais vale escolher ser produtivo como um calão.

A guerra pelo poder

20 Mai

Estamos sempre em guerra.
E é bom que assim seja.

Há sempre alguma coisa em nós que não nos deixa em paz. Alguma coisa com que lutamos, alguma coisa que não temos e que queremos conquistar.

À medida que vamos crescendo as nossas batalhas vão mudando. Desde conquistar protecção, aprovação social, segurança, etc… mas quando entramos na arena do trabalho, onde passamos décadas da nossa vida, a luta é pelo poder.

O poder é a capacidade de determinar o destino de uma coisa. Quer essa coisa seja pequena ou grande. É determinar que livros vão sair da estante, ou que pessoas vão sair da empresa. O poder envolve coisas a que dificilmente somos indiferentes. Reconhecimento, autoridade, estatuto, influência, respeito.

Até que ponto podemos lutar pelo poder? Até que ponto é uma luta saudável ou uma luta doentia?
Há 2 extremos que convém evitar para se conseguir travar uma guerra saudável pelo poder:

Extremo 1: fugir do poder
Às vezes fugimos do poder como se achássemos que é uma coisa má, ou como se só fosse possível ser verdadeiramente livre se não tivéssemos qualquer tipo de responsabilidades. Chegamos até a achar que essa radicalidade é uma espécie de heroísmo, mas na maior parte das vezes é apenas uma infantilidade.
É necessária mais força de vontade para conviver sistematicamente com esse desejo de poder, do que querer viver uma vida sem a tentação do poder. Precisamos de aprender a conviver com o desejo que temos, não como uma coisa má da qual devemos fugir, mas como uma coisa que pode ser usada ao serviço do que mais valorizamos.

Extremo 2: desejar apenas o poder
Há muitas pessoas que vivem verdadeiramente enamoradas pelo poder. E o que é que faz um apaixonado?
Um apaixonado só pensa na sua amada. Não descansa enquanto não está com ela. Faz o que for preciso para se aproximar dela. Fica ciúmento se existe mais alguém a desejá-la. O problema é que quem permanece sempre na paixão acaba por ignorar coisas também importantes, simplesmente porque está vidrado no seu objectivo. Os apaixonados vivem com um medo sempre crescente de perder o poder que já conquistaram. E secretamente – na sua paixão infinita – querem sempre mais poder (que nunca será saciado). Os apaixonados precisam de educar o seu desejo para o serviço aos outros, em vez de pensarem apenas em si.
inesperado.org - a guerra pelo poder
A luta tem que ser travada com uma consciência cada vez mais afinada sobre as nossas motivações. Qual o fim para que queremos o poder?
Para podermos exercer influência nos outros? Para ganhar reconhecimento e admiração? Para melhorar o nosso estatuto, a nossa carreira, a nossa vida? Ou para usá-lo ao serviço dos outros?

Mas interessa não só o fim para que se luta, mas também os meios que se usam.
Há preços a pagar que são demasiado elevados. E não estamos apenas a falar de horas excessivas de trabalho e de enormes sacrifícios familiares e pessoais, estamos a falar de coisas que não se podem comprometer, independentemente da luta em que se está. O respeito pelos outros, a verdade e a honestidade não podem ser dobrados em função dos nossos interesses, por mais nobres que sejam.

Talvez o poder mexa tanto connosco porque gostamos muito da ideia de nos auto determinarmos. De termos controlo da nossa vida. E quando vemos que não conseguimos determinar tudo na nossa vida, é bom ter algumas coisas que estão sobre o nosso controlo, que são feitas à nossa maneira. Há de facto pessoas que querem ter muito poder, simplesmente porque não sentem poder nenhum nas suas vidas.

Como nos sentiríamos se perdêssemos toda a nossa influência, toda a nossa autoridade, todo o nosso respeito?
O que restaria? O que ficaria no fim de tudo isso? Continuaríamos a gostar de nós próprios se perdêssemos todo o poder que temos?

As perguntas estão lançadas. As respostas vêm na luta.
Que comece a guerra.

Prestai atenção seus medíocres!

12 Mai

A todos vós, seus medíocres. A todos vós, que sois medianos. A todos vós, que nada sois de especial!
Prestai atenção!

Bem sabeis quão poucas capacidades tendes. Bem sabeis quão pouco fascinante é a vossa vida. Bem sabeis quão pouco impressionantes são os vossos feitos. Ou pior ainda, nada disto sabeis!
Tudo o que dizem de vós, todos os impropérios, todas as ofensas, todas as críticas pela vossa tremenda vulgaridade, pesa comunicar-vos, são absolutamente legítimos! Escutastes bem: a vossa miséria é absolutamente real e terrivelmente verdadeira.
A vossa incapacidade de ser magnificamente bem sucedidos em qualquer empreendimento da vida é de facto uma característica da qual não vos podeis livrar.

Escutai e prestai atenção!
Há em vós uma incapacidade crónica de fazer algo de glorioso, de fazer algo brilhante, algo absolutamente notável. Por muito que vos esforceis, por muito que tenteis, nunca ireis brilhar como brilham os grandes, nunca sereis admirados como os poderosos, nunca sereis aplaudidos nas praças e nas ruas.
Não vos venho adular com falsas cortesias nem com palavras agradáveis ao vosso ouvido. Nada disso! Venho dizer-vos com toda a verdade: estais condenados a uma vida regular, a uma vida vulgar, a uma vida terrivelmente normal. Nunca sereis famosos e nada alcançareis de glorioso.

Mas não vos ireis contra mim, sou apenas um mensageiro! Não demonstreis mais uma vez, com essa vossa reacção, a tradicional banalidade a que nos tendes habituado. Não me fazeis assim ver novamente como nada sois de especial?
Tende paciência e aguardai.
Porventura sabeis as razões que movimentam o mundo? Porventura conheceis os recantos mais profundos do vosso ser?
Porventura podeis garantir que uma existência tão comum não tem riquezas desconhecidas?
inesperado.org_prestai atenção!
Escutai as minhas palavras e segui o meu conselho!
Não ambicioneis a vida dos grandes e magníficos. Não invejeis as taças de prata de onde bebem os seus vinhos. Não desejeis os cordeiros gordos com que se saciam. Não cobiceis o seu poder e o seu sucesso. Não granjeeis os aplausos que eles recolhem.

Acaso conseguis sondar os seus corações? Sabeis o que eles sentem quando se fecham as cortinas? Sabeis os fardos que carregam em segredo?

Não queirais ser como os inteligentes. Trazem consigo o peso da vaidade e a solidão de serem incompreendidos.
Não queirais ser como os poderosos. Vivem aterrorizados de perderem os seus domínios e a sua autoridade.
Não queirais ser como os belos. Caminham assustados pois a sua aparência está destinada a ser passageira.

Alegrai-vos antes pela vossa vida normal e pelas vossas capacidades perfeitamente medianas.
A vossa incapacidade é uma benção. A vossa vulgaridade é um privilégio. A vossa normalidade é um dom.
Esquecei o que se diz de vós. A vossa vida comum não é uma vida inferior!

Aprendei a apreciar uma vida simples. A desfrutar de uma existência serena e sem ambições.
Tereis sempre a força que necessitais para enfrentardes as dificuldades, e as capacidades para fazer um trabalho honesto. Cuidai daqueles que vos são confiados e vivei com alegria e gratidão.

Vereis então que no meio da normalidade da vossa vida revelar-se-á tudo o que é verdadeiro, tudo o que é grande, tudo o que é belo.

A importância dos conflitos

6 Mai

Todos os dias e a toda a hora acontecem todo o tipo de conflitos. Guerras, confrontos ou simples discussões tomam lugar entre desconhecidos e conhecidos. Entre amigos, colegas e casais.

Poderíamos idealizar um mundo sem conflitos, mas faríamos apenas isso: idealizar. Os conflitos – de maior ou menor escala – acontecem porque temos interesses diferentes. Eu quero isto assim, e tu queres de outra maneira. Esta divergência de interesses pode trazer stress, desconfiança ou ressentimento, mas também pode ajudar a ir ao fundo das coisas, a melhorar relações e aproximar pessoas.
Desta forma, o conflito em si não é uma coisa má, mas que pode ser bem ou mal usada.

Se repararmos só há conflitos onde há relações entre pessoas. Não vemos 2 objectos a discutir um com o outro. Olha a almofada a ter uma discussão com o sofá, que engraçado. Nem há conflitos entre pessoas e objectos: eu não tenho uma discussão com a minha televisão (apesar de cenas semelhantes terem lugar). Há sim conflitos entre pessoas.

Raramente um conflito nos deixa indiferentes porque mexe connosco e com a nossa autoestima. Sentimos que alguma parte de nós está a ser posta em causa, e isso é incómodo. Se não tiver a ver connosco, não há problema: ninguém se chateia tremendamente se alguém não gosta de um filme que gostámos. Mas se alguém não gosta de nós, aí temos chatice.
inesperado.org - os conflitos
Ora bem, para compreender melhor os conflitos, podemos dramatizar dois tipos de pessoas:
1. Os que fogem do conflito
É extraordinário ver o que estas pessoas estão dispostas a fazer para evitar um conflito: fogem de cena quando sentem a tensão a subir ou pedem desculpa mesmo quando têm razão. Evitam o confronto a qualquer custo (mesmo a um custo superior ao do próprio conflito). Isto pode acontecer por uma mistura de motivações. Tanto pode ser por insegurança esta pessoa vai deixar de gostar de mim ou tenho medo que me ataquem; como por orgulho: tenho razão e nem estou para me explicar a esta pessoa, ela que perceba. De qualquer forma estas pessoas são altamente cuidadosas nos conflitos em que se envolvem, e têm uma esperança ingénua que alguns problemas se resolvam sozinhos.

2. Os que procuram o conflito
Pelo contrário, há pessoas que se alimentam de conflitos. São pessoas que retiram energia e motivação dos conflitos e que se agigantam perante um confronto. Pessoas que conseguem tirar algo positivo – um sentido de certeza, energia e satisfação – de um confronto. Daí haver casalinhos que adoram discutir e chefes que adoram gritar. É comum as pessoas que gostam de conflitos serem pessoas que gostam mais de falar do que ouvir. Estas pessoas metem-se na arena antes sequer de avaliar as consequências. Acham que nada se resolve se elas não entrarem em acção.

Mas na realidade nenhum destes dois tipos de pessoa é inteiramente eficaz a lidar com os conflitos. De facto, cada um dos tipos tem a aprender com o outro. Os que fogem do conflito têm que arranjar formas inteligentes de tirar gozo e motivação de um conflito, bem como perceber que por vezes é melhor pegar um toiro pelos cornos do que fugir dele (porque o toiro vai acabar por voltar ainda mais enfurecido). Pelo contrário, os que procuram o conflito a todo o custo têm que aprender a ser prudentes e cuidadosos, bem como a saber ouvir o outro lado e evitar confrontos desnecessários.

Apesar de tudo, há conflitos que por uma razão ou outra são insanáveis. Em que os interesses não são conciliáveis. E não há problema com isso, desde que as pessoas sejam sempre tratadas com cuidado e respeito. Contudo, a maior parte dos conflitos podem ser resolvidos eficazmente, se os diferentes interesses forem comunicados de forma clara. E para isso pode ajudar:
1. Criar empatia
Ser capaz de sentir o que o outro sente. Desenvolver para isso uma escuta activa, pôr-se no lugar do outro e escutar com cuidado quais os seus interesses e como os podemos servir.
2. Atacar ideias, não pessoas
É importante criar um espaço seguro onde as ideias possam ser brutalmente atacadas, mas nunca as pessoas. Assim, torna-se possível criar o hábito de criticar livremente as ideias, mas sem julgar as pessoas.
3. Ser assertivo
Em vez de comunicar de forma agressiva, atacando a outra pessoa, ou por outro lado, ser passivo, não comunicando nada, podemos escolher antes a assertividade. Dizer o que se tem a dizer com frontalidade mas também com elegância.
Tudo isto ajuda se soubermos mostrar o nosso ponto de vista sem atacar ninguém. É diferente dizer “és uma louca obsessiva que não me pára de me controlar” do que “percebo que queiras saber por onde ando querida… mas sinto-me pressionado quando me perguntas demasiadas vezes. O que podemos fazer para resolver isto?”

Naturalmente cada conflito resolve-se de forma diferente, porque cada relação é diferente. Resolver um conflito num namoro é diferente de resolver um conflito no trabalho. Mas temos uma hipótese maior de resolver bem cada conflito se reaprendermos a empatia, a capacidade de distinguir ideias de pessoas e a assertividade.
Desta forma o conflito deixa de ser uma ameaça a procurar ou a evitar a todo o custo, mas antes uma oportunidade de crescimento conjunto.

A força de um entusiasmo

29 Abr

Há alturas na vida em que somos levados por um entusiasmo. É como se alguma coisa pegasse fogo dentro de nós e ficássemos apaixonados por um certo aspecto da vida. Pode ser um projecto que nos cativa, uma pessoa que nos atrai ou uma ideia que nos fascina. É uma sensação maravilhosa.

Passado algum tempo, o que normalmente acontece é que o entusiasmo começa a diminuir, e as dificuldades multiplicam-se.
O projecto que nos cativava afinal tem mil obstáculos, a pessoa que nos atraía tem defeitos que nos incomodam e a ideia que nos fascinava já não parece assim tão interessante.
Quando o entusiasmo começa a pesar nas costas, o que costumamos fazer é largá-lo e partir à procura de um próximo. Pode ser que o próximo nos realize mais do que este. Pode ser que nos deixe mais tempo entusiasmados. Vamos assim de experiência em experiência sempre à procura de mais entusiasmo. Viajamos para imensos países, lemos muitos livros, sobrecarregamos agendas com programas e temos mais paixões do que podemos recordar. Mas nada disso nos satisfaz.
inesperado.org - a força de um entusiasmo
Estamos convencidos que quanto mais entusiasmados nos sentirmos, mais estamos a viver. Mas nem sempre é assim.
Chegamos a achar que uma coisa que não nos entusiasma não tem valor ou não vale a pena.
Mas quem diz que aquele trabalho que parece uma seca não vai ser uma boa surpresa? Quem diz que aquela pessoa que não valorizamos pode-se tornar num dos nossos melhores amigos? Quem diz que aquele projecto que achamos ridiculo não pode ser a nossa grande vocação?

Queremos sempre entusiasmos fáceis, sem complicações e cheios de gratificação. Fazemos birra quando alguma coisa nos custa ou traz alguma adversidade, e acabamos por nos portar como crianças que querem sempre um brinquedo novo.

A verdade é que é uma ingenuidade querer estar sempre entusiasmado. O entusiasmo é uma parte maravilhosa da vida, mas não é a vida. O entusiasmo é um extra. Não vivemos para estar sempre entusiasmados. O entusiasmo é um bónus que nunca sabemos quando vai chegar.

A maior parte das vezes, enquanto procuramos um novo entusiasmo, temos um trabalho inacabado em cima da secretária que já devia estar terminado. Há alturas em que temos é que trabalhar e amar, mesmo que não apeteça nada.

A autenticidade de um entusiasmo não se descobre nos momentos extraordinários, mas na vida do dia a dia. Só quando descobrirmos quanto estamos dispostos a sacrificar por um entusiasmo é que sabemos a verdadeira força que ele tem.

Podemos ficar numa atitude infantilóide de quem quer uma vida cheia de entusiasmos, ou então podemos crescer, arregaçar as mangas, e fazer alguma coisa com o que temos pela frente.

Se por acaso optarmos por levar cada entusiasmo até ao fim, com toda a tenacidade e criatividade, bem para lá do ponto em que o chamamos entusiasmo, então aí estaremos em condições de largar o que já não nos faz sentido, ou quem sabe… deixar-nos surpreender por um novo entusiasmo que surge de onde menos esperávamos.

As vantagens de ser um falhado

22 Abr

Vamos encarar os factos: nós somos uns falhados. Podemos não o dizer a ninguém, podemos esconder de nós próprios, mas não conseguimos evitar aqueles pensamentos marotos:
Nenhuma relação que tenho bate certo.
No trabalho só faço asneira.
Sinto-me a ficar para trás.
Tenho vergonha da minha forma física.

Rapidamente nos consideramos um falhanço monumental, e a verdade é que o somos. Apesar de nos babarmos só a imaginar uma vida de suposto sucesso – família perfeita, carreira respeitável, dinheiro abundante e aparência invejável – a verdade é que a nossa vida está cheia falhanços desastrosos.

As boas notícias é que há várias vantagens em ser um falhado:
1. Só não falha quem não tenta.
Normalmente quem é um falhanço é porque tentou alguma coisa. Quer tenha sido lançar uma empresa, começar uma relação, candidatar-se a um trabalho, só o acto de tentar já é memorável. Tudo o que vale a pena fazer, vale a pena falhar a tentar. Só não falha quem não tenta.

2. Quem não falha não tem amigos.
Ninguém é muito amigo de uma pessoa que nunca falha. As pessoas invulneráveis, seguras de si e cheias do seu sucesso não dão espaço para mais ninguém. Pelo contrário, é natural sentirmo-nos próximos de alguém que confessou um seu falhanço: Ah ele também passou por isto? Que engraçado eu também… Ah ele fez aquilo?… curioso como fiz uma coisa parecida…
Partilhar os nossos fracassos, mostrar vulnerabilidade, é um caminho aberto para relações genuínas.
inesperado.org
3. Muitos falhanços fazem um humilde.
Apesar de ser uma chatice, o caminho mais seguro para quem quer ser humilde é ser humilhado muitas vezes. E para se sentir humilhado nada como uma boa dose de falhanços. Eles magoam o nosso orgulho e vaidade mas devolvem-nos a nossa justa dimensão. Muitas vezes as pessoas mais humildes são as que sabem que muito falharam.

4. Cresce-se mais a falhar.
As alturas de maior crescimento na nossa vida não são quando fazemos tudo bem, mas quando falhamos e temos consciência da razão pela qual falhamos. Curiosamente, quando as coisas correm bem nem sempre crescemos muito, porque nem nos damos ao trabalho de pensar no que fez as coisas correr bem. Pelo contrário, o falhanço é um reality check muito mais persuasivo: obriga-nos a encarar de frente o que fizemos e como o poderíamos ter feito melhor. O crescimento mais eficaz pode vir quando damos um espalho monumental.

5. Um falhado pode arriscar mais.
As pessoas que fazem tudo bem, costumam ter muitas coisas a que se agarrar. E por terem muitas coisas, têm também muito a perder. Pelo contrário, os falhados têm pouco a perder, e por isso, podem arriscar mais. No trabalho, por exemplo, a reputação de quem arrisca muitas vezes e vence algumas, será provavelmente melhor do que quem tem medo de falhar e tenta apenas coisas seguras. Os falhados podem arriscar mais, e por isso mesmo têm muito mais a ganhar.

6. Os falhados têm mais humor.
Uma pessoa até pode ter convicções opostas às nossas, mas se tiver sentido de humor até nos entendemos. Com o sentido de humor conseguimos fazer coisas extraordinárias. Acontece que os falhados confrontam-se regularmente com as suas figuras rídiculas, com surpresas desastradas e com acontecimentos inesperados, e isso já é meio caminho andado para se ter mais sentido de humor. Os certinhos acabam por ser tremendamente aborrecidos, e os falhados… ao menos esses são bem mais divertidos.

7. Ninguém espera muito dos falhados.
Os holofotes costumam estar virados para as pessoas bem sucedidas. Isso acaba por ser uma tremenda vantagem para os falhados – porque estão fora do radar – e por isso têm muito mais liberdade para surpreender toda a gente. Ninguém espera grande coisa de um falhado, tal como ninguém quer apostar no cavalo mais lento. Mas são esses falhados que podem surpreender tudo e todos aparecendo do nada com uma ideia revolucionária, com uma relação fabulosa ou com um projecto maravilhoso.

Por estas e por outras razões o falhanço tem-se tornado uma ocupação cada vez mais nobre.
Mas para se ser bem sucedido nesta ocupação… é preciso ser um verdadeiro falhanço.

Vista cansada aos 20

15 Abr

É comum ouvir pessoas de 40 ou 50 anos dizerem que têm a vista cansada.
Esse mal óptico é facilmente corrigível pela adequada prótese ocular, e por isso no momento oportuno puxam de uns óculos maravilhosos, que os ajudam a ver o que precisam, quer seja um jogo de palavras cruzadas ou um casaquinho de malha (sim, são estas as grandes ocupações desta geração).

Contudo, bem mais alarmante que essa natural fraqueza ocular, é a vista cansada que nada tem que ver com retinas e demais. Estamos a falar da própria forma como se vê as coisas. Estamos a falar de um olhar cansado: que já não se espanta, que já não se entusiasma, que já não tem esperança. E há quem o tenha desde os 20 anos.
É um olhar desapontado com a realidade: Eu já vivi muito… Eu sei como as pessoas são… Já sei tudo o que preciso saber. Já nada me surpreende…
inesperado
É um olhar que perdeu 3 capacidades:
1. O espanto
O espanto é uma interrupção da realidade. É ser surpreendido por pequenos milagres. Milagres tão simples como sentir pele de galinha, ver uma lua cheia ou receber um abraço inesperado. O espanto é uma capacidade própria dos humildes e das crianças. É próprio de quem se deixa surpreender, próprio de quem não sabe tudo. O espanto é o começo do entusiasmo.

2. O entusiasmo
O entusiasmo é uma distorção da realidade. É pegar nela e puxá-la para cima. O entusiasmo põe os olhos a brilhar e faz-nos fazer loucuras. Mas loucuras absolutamente necessárias: ir dançar uma noite inteira depois de um dia de trabalho. Ver o nascer do sol. Mergulhar num mar gelado. Beijar a pessoa de quem se gosta. O espanto é o começo da esperança.

3. A esperança
A esperança é uma superação da realidade. É esperar sempre a coisa maior. É contra todas as evidências, confiar que a vida vai-se expandir em possibilidades nunca antes previstas ou imaginadas. A esperança nada tem que ver com o optimismo, esse copo meio cheio e meio tonto. Ela parte de razões muito mais fundas, que não vacilam mesmo nas dificuldades. Ela permanece, porque está assente na convicção inquebrável que independentemente do que aconteça pode sempre nascer uma coisa melhor das condições presentes.

No fundo, a vista cansada é deixar de se espantar, e por isso deixar de se entusiasmar, e por isso deixar de ter esperança. É perder a capacidade de brincar com a realidade: deixar a reinventar, sonhar e construir. É deixar de se surpreender.

Mas pode uma pessoa ter uma vista cansada e recuperar o seu olhar?
Pode, mas dá trabalho. É preciso deixar tudo o que cansa o olhar: horizontes sem perspectiva, relações sem amor, acções sem sentido.
Mas não basta isso… é preciso descansar o olhar em coisas que valem a pena. Reparar e parar no que anima e no que entusiasma. Acreditar e voltar a acreditar nas coisas pequeninas e nas coisas grandes. Agradecer tudo o que há e tudo o que não há.

E assim aos poucos, podemos recuperar um olhar que se surpreende. Um olhar fresco e um olhar descansado.
Um olhar que ao chegar aos 50 anos até se vai rir… quando reparar nas palavras cruzadas ou no casaquinho de malha que tem ao colo.

É possível viver por alguém?

8 Abr

É possível viver por alguém?
É possível dedicar a vida a alguém, especialmente quando esse alguém não somos nós?

E será possível dedicar a nossa vida a alguém, se antes alguém não tiver dedicado a sua vida a nós? Ou ainda, é possível dar alguma coisa que não tenhamos recebido?

Se repararmos, é surpreendente a quantidade de coisas que gastamos connosco. O dinheiro que gastamos, as energias que gastamos, o tempo que gastamos. Tempo dedicado às nossas coisas, às nossas actividades, às nossas vontades. Se alguém nos tira tempo que era suposto ser para nós, é bom que nem nos apareça à frente.

As coisas acabam por girar apenas em nossa função: os nossos horários, os nossos tempos livres, os nossos programas, as nossas preocupações, os nossos problemas. O trabalho serve para nos dar dinheiro, as férias para nos darem descanso, as relações para nos darem amor. Parece que olhamos apenas para nós e não reparamos sequer em quem está ao nosso lado.
inesperado.org - dedicação
Vivemos assim com uma vontade permanente de nos conservarmos. Somos, sem o notarmos, realmente conservadores (de nós próprios). Ninguém se quer entregar demasiado a outra coisa que não seja a si mesmo. Ninguém se quer apagar para que o outro brilhe. Ninguém se quer sacrificar demasiado por outra pessoa.

Mas novamente, será possível o inverso? É possível viver por alguém que não nós próprios? É possível que alguém prescinda do seu tempo, para que o outro fique melhor? Que alguém se apague, para que o outro tenha luz?

Na realidade é bem possível… não é por acaso que as mães dão à luz. Os pais entregam a sua vida para que os filhos vivam uma vida melhor. Se alguém prescindiu do seu tempo, foram os pais… Quantas mais viagens podiam ter feito? Quantas mais coisas podiam ter comprado? Quantas mais pessoas podiam ter conhecido? A quantas mais festas podiam ter ido? Mas deixaram tudo isso de lado, para que nós estivéssemos aqui. Agora mesmo.

Se alguém já lucrou com a vida entregue de outra pessoa…
fomos nós.

Neste sentido, temos muito a agradecer, e muito também a dar.
As boas notícias é que não nos faltam formas de dar: podemos dar o nosso tempo, o nosso dinheiro, a nossa energia. E também não faltam pessoas a quem entregar a nossa vida. Não tem que ser apenas às famílias, aos pais e aos filhos. Não poderá ser a pessoa a quem nos dedicamos um amigo? Um desconhecido? Um cliente?
Porque não entregamos a nossa vida às pessoas que naturalmente fazem parte do nosso dia?

Quando tentamos guardar a vida apenas para nós, parece que a perdemos. Quando a damos a alguém, parece que a ganhamos. E talvez não seja só o que parece. Talvez seja assim mesmo.
Mas só há uma forma de descobrir: tornar este o dia em que vamos viver dedicados a outra pessoa.

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