Dar até doer?

Ouvi há muitos anos a história de um homem rico que se aproximou de Madre Teresa de Calcutá e lhe perguntou quanto podia dar para ajudar a sua causa. Madre Teresa desafiou-o a dar o que quisesse e ele respondeu que tinha muitos recursos e podia dar o que ela quisesse. Ela respondeu com simplicidade: dê até doer.

O homem terá ficado sem saber o que fazer…

Tal como nós ficaríamos. Não sei se realmente aconteceu assim esta interação, mas sei que esta era uma ideia que defendia: amar implica dar até doer.

Será que andamos a dar até doer? Ou simplesmente a dar do que nos sobra? Andamos a dar as migalhas do nosso tempo e capacidades ou damos a parte melhor? Sabemos bem a diferença entre comer restos de saborear o melhor prato…

Podemos irritar-nos com tudo isto: o exagero de ter que dar até doer. Porquê este excesso? Será masoquismo ter que dar até doer?

Ninguém quer sofrer só porque sim, isso seria tonto. Mas basta passar algum tempo neste mundo para perceber que a dor faz parte da nossa vida. E quanto mais vivemos mais nos arriscamos a sofrer.

Falem com qualquer pessoa que faz um bom trabalho. Será que é sem sacrifício? Falem com qualquer pai que educa um filho. Será que é sem dor? Falem com qualquer pessoa que cuida de um doente? Será que é sem dificuldade?

A nossa tendência natural é a oposta: fugir do sofrimento e procurar o conforto. Vivemos anestesiados em ambientes artificiais – tantas vezes digitais – ignorando a nossa missão, ignorando quem precisa de nós. Vivemos escondidos na rotina e no conforto, mas desejosos de um sentido e de uma aventura.

Pessoa com calças jeans e tênis brancos, caminhando sobre uma superfície clara, com texto motivacional ao fundo.

O caminho não é procurar a dor, é procurar o amor.

Procuremos amar, não fugir.

Procuremos as coisas que nos mobilizam e desinstalam internamente. As missões pequenas e grandes que podemos fazer. Entreguemo-nos a um ofício, a um trabalho, por simples que seja. Fazer uma coisa bem feita e pôr o que somos nessa coisa. Entreguemo-nos a uma pessoa, por imperfeita que seja, e que seguramente o será. Entreguemo-nos.

E quando surgirem os inevitáveis desafios, tentemos aceitar um pouco mais. Grande parte do sofrimento que sentimos – nalgum imprevisto, frustração ou desentendimento – vem das nossas ideias do que a realidade devia ser: não é suposto ser assim, isto não é justo, isto não devia acontecer…

Aceitemos esta chatice. Este inconveniente que nos chega. Esta pessoa que nos incomoda.

Aceitar que a dor faz parte da vida é libertador. Pode não resolver o problema, mas aceitá-lo interiormente já faz diferença.

Podemos viver a fugir da dor ou podemos viver a correr por amor.

Quem não toca na dor, não amadurece.

Temos que deixar a dor doer. Mesmo que custe, e custa.

Tanto luto que fica por fazer, mas da luta não fugimos. Tanto desentendimento que fica por resolver, mas das relações não nos livramos. Tanto talento que fica por usar, mas do trabalho não nos escapamos.

Temos que atravessar a dor e continuar a viver. Só assim amadurecemos para o que podemos ser.

Novamente: será que andamos a dar até doer?

Sacrificar é tornar sagradas as pequenas e as grandes coisas da nossa vida. É bom, é maravilhoso e é necessário: dar o que temos e até o que julgávamos não ter.

Às vezes nem imaginamos o que somos capazes! Sem tempo, sem dinheiro, sem capacidade? Ah, ainda agora começámos… Somos pequenos, frágeis ou limitados? Ótimo, é assim mesmo que começamos!

Há milagres por acontecer na nossa vida.

Basta atrever-nos a amar.

(mesmo que doa)

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