Não basta ser. É preciso parecer

31 Mar

Ligar às aparências é uma coisa tonta.
Não devemos perder tempo com isso. Devemos fazer o que queremos, sem pensar no que os outros vão achar.
O que interessa é o que cada um sente e pensa, e pouco importa o que os outros vêem nisso.

Isto faria todo o sentido… caso cada um de nós vivesse isolado numa ilha. Uma ilha com areia branca e mar azul turquesa, de preferência. Aí seria mais fácil fazer tudo o que nos desse na gana, porque cada acção teria impacto apenas em nós (e em meia dúzia de palmeiras).
Mas isso não acontece.

O que acontece é que vivemos em sociedade e somos frutos de um contexto. Ninguém nasceu sozinho, ninguém se educou sozinho, ninguém cresceu sozinho. Vivemos numa dependência mútua e neste sentido, cada comportamento nosso tem uma consequência social. Ignorar que as nossas palavras, acções e decisões afectam quem nos rodeia seria uma ingenuidade.

Há um ditado que diz à mulher de César não basta sê-lo, é preciso parecê-lo.
Precisamente porque vivemos em sociedade, não importa apenas o que somos, mas também o que parecemos.
inesperado.org_não basta ser.
É preciso por isso encontrar uma forma de equilibrar o que somos e o que parecemos, sem nos vendermos pelo meio. Para atingir este equilíbrio, entre a aparência e a essência, ajuda evitar 2 extremos:
1. Viver em função do que os outros pensam.
Há quem viva com uma preocupação exagerada pelo que os outros vão achar. Mais dedicado a tentar impressionar do que em ser quem realmente é. Quem vive assim nada lhe satisfaz, porque é impossível corresponder ao que tantas pessoas diferentes pensam. Quem vive em função do que os outros acham, perde-se a si pelo caminho. Contudo, há outro extremo…

2. Não ter em conta o que os outros pensam.
Desprezar inteiramente o que os outros pensam pressupõe que os outros não servem para grande coisa, sendo que a única que realmente interessa… somos nós.
Normalmente não temos em conta o que os outros pensam ou por ingenuidade ou por arrogância. Ingenuidade quando partimos do pressuposto que toda a gente vai perceber ou confiar em nós. Arrogância quando achamos que os outros têm obrigação de perceber as nossas intenções e acções.

Há ainda uma outra desconsideração pela opinião dos outros, disfarçada por uma suposta frontalidade: Faço tudo o que penso, não me interessa o que vão pensar de mim, sou muito frontal.
Não, não és. És como uma criança que não filtra. Experimenta estar numa reunião no trabalho e dizer quero fazer cocó…
Há uma “frontalidade” que é apenas uma bravata exibicionista que nada tem de inteligente ou construtivo.

Há por isso um equilíbrio dinâmico a encontrar, entre estes dois extremos. Hoje pode fazer sentido tomar uma decisão sem levar a sério outras opiniões, mas amanhã pode fazer sentido pensar seriamente no que os outros acham. O equilíbrio passa por ter em conta o que os outros pensam, sem estar dependente disso.

O nosso comportamento deve mostrar o que somos. A nossa aparência deve manifestar a nossa essência. O exterior deve expressar o interior.
Temos que ter em conta que há implicações muito complexas de viver em sociedade. Mas é muito mais interessante viver num mundo em que estamos interligados – com todas as aparências e com todas as confusões que isso implica – do que num mundo em que cada um está isolado e só pensa em si.

As aparências servem então para aparecer, não para parecer. Servem para revelar, não para velar.
Não basta ser, é preciso parecer. E ainda bem que assim é.

Podes gostar de mim sff?

25 Mar

O que nos faz gostar de uma música?
O que nos faz gostar de um livro, de um sítio, de uma comida?

É difícil dizer o que é. Podemos tentar mergulhar na nossa infância, pensar na influência dos pais, reflectir em experiências marcantes, mas nunca percebemos inteiramente o porquê. Simplesmente gostamos.

Ao mesmo tempo que gostamos de algumas coisas, também não gostamos de todas as coisas.
Não se gosta de todos os livros, não se gosta de todos os sítios, não se gosta de todas as músicas. Há sempre algum que preferimos. E para quem diz “Ah, eu gosto de todos os tipos de música”, basta fechar essa pessoa numa cave durante 2 horas a dar punk gótico aos berros, para ver quem gosta de tudo.

Há por isso coisas que gostamos mais, e outras de que não gostamos. Isso é natural. Isso não nos causa confusão. Contudo, é curioso ver como isto muda quando falamos de pessoas.

Há quem sinta uma aflição quando percebe que não gosta de alguém. Isto porque achamos que a coisa mais natural é gostar espontâneamente de toda a gente, e quando isso não acontece, sentimos que alguma coisa está errada. Mas não está.

Tal como não gostamos de todos os tipos de literatura, não gostamos de todas as pessoas. Não temos que nos preocupar com isso. E não temos que nos preocupar porque não gostar de uma pessoa não quer dizer tratá-la mal. Podemos não gostar de alguém e tratá-la bem na mesma. Aliás, isso é um alívio especial no mundo do trabalho: não precisamos de gostar de toda a gente (nem do chefe chato, nem da Sónia da contabilidade). Mas isto não quer dizer que não sejamos bons profissionais.

Na realidade, o mundo ficaria a perder se apenas tratássemos bem as pessoas que gostam de nós. Curiosamente, na maior parte das vezes, as pessoas mais difícieis de gostar são as pessoas que mais precisam.
inesperado.org - gostar de mim sff
Contudo, o oposto também acontece. Há pessoas que não gostam de nós. Não é preciso serem pessoas com a mania da conspiração. Simplesmente não gostam de nós, com a mesma naturalidade com que não gostam de puré de batata.

Há quem fique verdadeiramente incomodado quando percebe isso… ainda para mais porque puré de batata não é assim tão desagradável. O que normalmente acontece é tentar agradar a todo o custo à outra pessoa – quase implorando que goste de nós – ou ficar tremendamente indignado com o facto de não sermos gostados… Como é que eu, ser humano magnífico, não tenho a adulação desta pessoa! Ahhh escândalo!

Mas nada feito. Apesar de todos os esforços ou irritações, o outro simplesmente não gosta de nós. O que podemos então fazer?
A resposta é simples: devemos ficar muito agradecidos.

Se formos o que é suposto sermos – com toda a autenticidade e radicalidade que isso implica – vamos necessariamente chocar com outras pessoas. Vamos ser diferentes do que elas gostariam que fôssemos. Vamos ter visões diferentes do mundo e vamos fazer escolhas diferentes.

E isso é motivo para estarmos agradecidos. Não só porque a diversidade é uma riqueza, mas porque é uma coisa terrível ser alguém de quem toda a gente gosta. Porque para isso acontecer é preciso estar sempre a mudar para agradar a toda a gente. É preciso ter 100 máscaras diferentes. É preciso deixar de ser autêntico e passar a ser um personagem inventado. Personagem que por ser inventado não consegue ser feliz.

Da próxima vez que não gostarmos de alguém, da próxima vez que alguém não gostar de nós… não nos vamos preocupar.
Vamos antes ficar agradecidos… tanto que certamente haverá alguém que gosta de puré de batata.

Manifesto – Seguir outro caminho

18 Mar

Este é o artigo nº100 do inesperado.
Muito obrigado por estarem aí.

Aqui fica aquilo em que o inesperado acredita.

Minha querida disciplina

11 Mar

inesperado.org_ disciplinaO que nos vem à cabeça quando pensamos em disciplina? Será que pensamos em sacrifício, em limitação, em chatice? Ou pelo contrário, pensamos em liberdade e em amor?
Tendemos a pensar na disciplina como uma coisa antiquada que tira o gozo da vida. Que elimina a espontaneidade e a naturalidade de fazer as coisas como gostamos. Mas será que a disciplina pode ser uma libertação? Pode ser um um caminho para o amor? Continuar a ler

Lamento, mas vou procurar a liberdade

4 Mar

inesperado.org - liberdadeNaquela tarde tomei uma decisão que ia mudar toda a minha vida. De agora em diante, ia apenas fazer o que me apetecia.

Largar as amarras das responsabilidades, dos deveres e das obrigações. Lutar por um ideal maior: a liberdade de poder escolher o que fazer. Poder determinar o futuro, poder decidir o meu rumo! Escolher o que me apetece, sem ninguém me dizer o que fazer. Tinha que viver essa liberdade! Haverá algo maior que a liberdade individual? Continuar a ler

Quem será que beija mais?

25 Fev

inesperado.org - beijar mais
Há quem ache que os casalinhos que gostam mais um do outro são os que dão mais beijinhos. Quem der mais abracinhos, quem disser mais não sei viver sem ti, quem der mais beijocas, é quem gosta mais do outro. Sem dúvida, miminhos são bons… Mas será que quem beija mais é quem ama mais?

Será que a mãe que ama mais o seu filho é a que lhe dá mais beijinhos? Então para ser a melhor mãe do mundo bastava não largar a bochecha gorda do pirralho…
Infelizmente as beijocas estão longe de ser a resposta completa para o amor que procuramos e precisamos. Com todo o respeito pela beijoca – que é sempre aprazível – mas ela está sobrevalorizada. O amor pede muito mais que beijocas…

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Estão a conspirar contra ti

18 Fev

inesperado.org - estão a conspirar
Se haver pessoas que conspiram contra outras faz confusão, então se conspirarem contra nós ainda mais perturbador é. Por vezes temos aquela sensação que alguém não gosta mesmo de nós… e que deve estar a fazer alguma coisa contra nós. Não é necessário um enredo maquiavélico, às vezes basta um comentário desagradável, uma crítica ou um olhar, para acharmos que a principal ocupação daquela pessoa é arruinar a nossa vida.

É maravilhosamente tentador achar que o mundo está a conspirar contra nós, porque assim temos a possibilidade de representar 3 papéis que adoramos: Continuar a ler

O combate do herói vilão

11 Fev

inesperado.org_os heróisQuem não gosta de um bom épico?
Uma aventura grandiosa em que os heróis combatem os vilões, para devolver a paz e harmonia ao universo? Quem não gosta de ver um herói muito herói a derrotar um vilão muito vilão? É uma maravilha! São as histórias mais fáceis de serem gostadas, especialmente porque os bons ganham sempre e acabam com a miúda mais gira do planeta.

O único probema destas lutas épicas é que a realidade não é nada assim. Não há heróis nem há vilões, ainda para mais tão arrumadinhos e penteadinhos.
Mas nós gostamos tanto dessa ideia que achamos que a vida é assim: as pessoas ou são óptimas ou são terríveis. Ou ele tem razão ou não tem. Ou escolho este lado ou aquele. Vivemos numa dicotomia, em que temos que optar lados, fazer juízos e decretar quem é o herói e quem é o vilão.

Afinal, como é possível aquela pessoa gostar de mim e tratar-me mal? Como é que ele é tão bom e depois faz aquele disparate? E como é que ela é arrogante mas depois é tão querida? Continuar a ler

As 20 coisas que eles não nos disseram

4 Fev

Um dia fomos crianças adoráveis com pele macia e bochechas redondas. Um dia fomos jovens com amigos, estudos e férias intermináveis.
Um dia fomos adultos e não estávamos nada preparados para isso. Dava jeito que os crescidos nos tivessem preparado para algumas coisas que íamos encontrar, porque assim talvez a vida fosse mais fácil. Aqui fica uma lista de 20 coisas – pouco ou muito importantes – que eles não nos disseram:

1. Trabalhar dá trabalho. Estudar dá trabalho. Fazer uma coisa bem feita dá trabalho.

2. É estúpido tentar agradar a toda a gente. É impossível forçar alguém a gostar de nós, muito menos com frases feitas e poses estudadas.

3. É impossível não errar. Sempre que fazemos uma coisa nova, vamos começar por fazê-la mal.

4. Pôr dentes debaixo da almofada não dá dinheiro. O dinheiro custa a ganhar – ainda mais do que perder dentes – mas desaparece num instante.

5. Ter medo é normal. Não há problema em sentir medo, desde que façamos o que temos a fazer, apesar do medo. Continuar a ler

Tu és um sacaninha

28 Jan

inesperado.org - es um sacaninha
Vou-te dizer uma coisa: tu és um sacaninha do pior. Eu sei que não gostas de ouvir isto, mas consegues ser um pequeno estafermo. Não finjas que não é contigo, porque é. Tens dentro de ti um sacaninha que faz todo o tipo de disparates. Sim, sim, aquele tipo de coisas que sabes que não te levam a lado algum: procrastinar eternamente, dizer mal dos outros, pensares só no teu mundinho, fazeres apenas o que te apetece, ignorares todas as pessoas que não te interessam, e por aí fora. É este sacaninha que vive dentro de ti que te faz fazer essas coisas.

Bem sei que é mais fácil culpar coisas fora de ti: o chefe, a sogra, a família… Mas já basta de bodes expiatórios não? Tudo o que te incomoda, perturba e assusta não está nessas pessoas, está em ti mesmo. Basta de culpar os outros – o que te fizeram ou deixaram de fazer – para a tua vida não estar bem. O teu pior inimigo não está lá fora, está dentro de ti. É desse sacaninha que estamos a falar. Continuar a ler